
Robin Jones Gunn - Ilha dos Sonhos
Serie Cris 5


Frias no Hava... Haver um presente melhor para se ganhar no aniversrio? E se puder levar uma das melhores amigas vai ser melhor ainda! Agora, para a felicidade
completa, s fica faltando a companhia daquele "gato" que no sai do seu pensamento. A sim, o Hava ser pra Cris Miller A Ilha Dos Sonhos!". Os sonhos de Cris
acabam virando realidade! Ela vai para o Hava, junto com a me, o irmo, a tia e Paula, sua melhor amiga de infncia. E, pra tudo ficar melhor ainda, o Ted j est 
l fazendo um trabalho com o tio de Cris. Para ela  como ese estivesse no paraso: passeios pela ilha, comidas exticas, a comemorao de seus dezesseis anos num 
autntico luau havaiano, aventuras nas cachoeiras, andar de mos dadas com o Ted  luz do luar... Mas nem tudo so flores no Hava. O paraso de Cris comea a desmoronar 
quando ela percebe que Paula, sua amiga de infncia, est jogando todo o seu charme pra cima do Ted. Como reagir a essa situao sem demonstrar que est tendo uma 
crise de cimes? Como impedir que a raiva atrapalhe seus planos de ganhar Paula para Jesus? E o Ted, est apenas querendo ser educado com a nova amiga ou est gostando 
dela de verdade? Se for assim, com qual das duas ele vai preferir ficar - Cris ou Paula? 
Editora  Betania
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Afinal, o que h de To Engraado? 
1 
      - Vou sentir muito sua ausncia, Ted. Espero que se divirta, disse Cristina Miller ajeitando o cabelo castanho por trs da orelha e apertando o fone contra 
o ombro, enquanto aguardava a resposta do amigo. Ted riu-se e replicou:
        - Ei! Ns dois vamos nos divertir!
      Cris mudou o fone para o outro ouvido e cruzou as longas pernas.
      - , acho que tambm vou me divertir com a Paula aqui. Mas eu queria mesmo era ir para Maui com voc e o tio Bob. Quanto tempo vocs vo-se demorar por l?
      - Duas ou trs semanas, respondeu Ted com seu jeito tranqo. Vai depender de quanto tempo a gente leva pra pintar e fazer todos os reparos necessrios nos 
apartamentos dele. E ento, quando sua amiga vai chegar?
      - Amanh. Se vocs ficarem em Maui mais de duas semanas, nem vai conhec-la. comentou Cris e suspirou. Eu pensei que voc estaria por aqui quando da viesse 
e que a gente poderia sair juntos. S que agora voc vai a Maui, e eu e a Paula vamos ficar presas aqui em Escondido!
      - Como eu disse, todos ns vamos nos divertir nestas frias. Voc vai ver, falou Ted e riu como se Cris tivesse acabado de dizer uma coisa muito engraada.
      Parou, e Cris desejou que pelo menos uma vez ele lhe dissesse algo romntico e significativo, alguma coisa como: "Vou sentir sua falta", ou, "Eu queria que 
voc viesse comigo". Ela correu os dedos na pulseira de ouro que ele lhe dera e esperou.
      - Ei! Tenho de juntar minhas coisas, interveio o rapaz. Seu tio chega dentro de vinte minutos!
      - Tudo bem. Sei que voc vai passar uns dias maravilhosos, disse a garota mudando do tom "choroso" para uma voz mais brincalhona, e continuou: Sei tambm que 
no adianta pedir que me escreva. Mas talvez voc me mande um postal de cascata ou outra paisagem tropical que me ajude a ficar ainda mais deprimida por no estar 
l com voc.
      Ele riu de novo. Embora Ted fosse um "gato", tambm s vezes conseguia ser um chato. O que  que ele estava achando to engraado?
      - Vejo voc depois, Cris. Aloha! e o telefone clicou.
      Era sempre assim que ele terminava a conversa. Abrupto. Como sempre, Cris continuou segurando o fone junto ao ouvido, escutando o sinal da linha e sonhando 
em como seria bom se o Ted conversasse com ela ao telefone do jeito que o Rick conversava.
      Cris considerava o Rick apenas um bom amigo, mas quando ele ligou para ela algumas semanas antes, para lhe contar que ia fazer uma viagem pela Europa, disse 
coisas como esta: "Quando eu estiver navegando pelo Danbio azul, me lembrarei desses seus olhos de matar."
      Na hora, Cris s pensou: "Que chatice!" Mas se o Ted lhe dissesse uma coisa dessa, ela se derreteria toda.
      Colocando o fone de volta no gancho, Cris pulou do balco da cozinha onde estivera aninhada e abriu a geladeira  procura de algo para comer.
      A me entrou na cozinha com um cesto cheio de roupa suja.
      - Cris, eu no sabia que voc j tinha se levantado. 
      - Acabou o leite, murmurou a moa. Me, como  que o pai trabalha num laticnio e a gente est sempre sem leite em casa? 
      - Ontem a noite tinha uma caixinha cheia. Seu irmo deve ter tomado tudo hoje cedo. Tern bolinho de banana na cesta do balco e deve ter suco de laranja no 
freezer.
      A me fez uma pausa e depositou o cesto sobre o balco.
      - Ah! Voc j telefonou para o Ted? Ele e o Bob vo a Maui ainda hoje de manh, est sabendo?
      Erguendo a vista por sobre a porta da geladeira, Cris olhou para o rosto redondo de sua me a curta distncia. Tivera a impresso de que ela estava reprimindo 
o riso e bastou olhar para ela, para comprovar que a me tambm achava engraado esse negcio do Ted viajar para longe, ausentando-se por vrias semanas.
      No tinha graa! Cris sentiria muita falta dele, mesmo levando em conta que moravam longe um do outro e s podiam encontrar-se uma vez por semana, durante 
as frias.
      - Sim, liguei pra ele, replicou com palavras meio entrecortadas, e com gestos rpidos, fechou a geladeira.
      - Eu s queria saber, disse a me em tom maternal, e em seguida saiu para a lavanderia para comear a lavar roupa.
      - Ah, voc j levantou!
      Era o pai de Cris, um homem grande, de cabelo avermelhado e mos fortes, que entrou na cozinha e se serviu de caf.
      - V aprontar-se que eu a levarei para dirigir. 
      - Dirigir?
      - Sim, dirigir.
      - Hoje? indagou Cris sentindo como se algum tivesse jogado pedacinhos de gelo nas suas costas.
      - No precisa ir, disse o pai, abrindo a geladeira e remexendo nos vidros e outros recipientes da primeira prateleira, Cad o leite?
      - Acabou, respondeu Cris, ainda semiparalisada ante a idia de sair para aprender a dirigir com o pai.
      - No tem leite?
      -  isso mesmo. Foi o que a me me disse. O pai fez uma cara de quem no gostou, mas bebericou o caf assim mesmo - simples.
      - Vamos ia! Vamos treinar! A gente compra o leite na volta.
      - Est bem, concordou ela, fazendo um esforo excepcional para parecer que realmente queria ir.
      - Pode ficar pronta em dez minutos?
      - Claro, vou me aprontar.
      - Margaret? gritou o pai de Cris na direo da lavanderia. Como  que trabalho num laticnio e est sempre faltando leite aqui em casa?
      Por que ser que realmente quero tirar carteira, mas estou sempre saltando fora na hora de treinar? perguntou Cris a si mesma na frente do espelho, no banheiro. 
Por que me apavoro assim? Vou fazer dezesseis anos* daqui a... ela contou depressa... em cinco dias. Cinco dias! Tenho de vencer essa fobia seno nunca vou conseguir 
dirigir!
      * Nos Estados Unidos a idade legal para se tirar carteira de motorista  aos dezesseis anos. (N. da T.)
      
      Passou uma toalhinha molhada no rosto e mordeu o tecido felpudo. Isso  ridculo! Todo mundo que conheo tem carteira de motorista. Todos conseguiram. Do que 
 que eu tenho medo?
      Vinte minutos mais tarde, sentada ao volante do carro parado, o pai do lado, Cris compreendeu exatamente do que ela estava com medo: do carro.
      Era isso. O poder que o carro colocava em suas mos a assustava. A possibilidade de usar mal essa fora e se machucar, ou, pior, machucar algum, era isso 
que lhe dava medo.
      - Pai, principiou Cris mas sem saber o que dizer.
      - Pronto? perguntou ele, colocando o cinto e verificando se estava firme.
      - Pai, de vez em quando o senhor pensa na velocidade, quero dizer, como o carro pode...
      O pai olhou-a fixamente, atento s suas palavras, esperando que ela completasse a frase.
      - Deixe pra l. Estou um pouco nervosa, s isso.
      - Pois no fique. Se deixar que os nervos a dominem, vai acabar virando uma motorista nervosa, falou o pai aprumando os ombros e em seguida olhando para a 
frente. Ligue o carro, Cris.
      Ela atendeu imediatamente, reprimindo os pensamentos que a deixavam ansiosa e olhando de lado para o pai. Como poderia relaxar se o pai, firmando o brao contra 
a porta e plantando os ps no assoalho do carro, parecia preparado para decolar num foguete rumo a Marte? 
      - Dez e duas, disse.
      - Dez e duas? perguntou Cris.
      - Mos na direo, nas posies de dez e de duas horas. Solte o freio de mo.
      Cris seguiu suas ordens e tentou acalmar o corao, que comeava a bater acelerado.
      - O.K., engrene a marcha.
      Ela obedeceu e a seguir pisou devagar no acelerador. O carro saiu pelo estacionamento vazio da igreja como se fosse um lagarto em cmera lenta. Ela conseguiu 
chegar ao outro lado do ptio a mais ou menos dez quilmetros por hora, e pisou no freio de repente. O carro ficou de frente para o muro, completamente parado. Cris 
olhou para o pai, aguardando sua aprovao e novas instrues.
      - Foi timo, se voc quer passar o resto da vida dirigindo apenas no circuito das lavadoras automticas, comentou ele, e continuou sentado, o queixo quase 
tocando o peito, e olhou para ela sem mover a cabea.
      Cris ps-se a rir. O pai tinha razo. A velocidade dela era de quem tinha acabado de passar por um lavador de carro automtico. Ao rir, sentiu-se mais relaxada.
      O pai tambm relaxou e olhou para trs.
      - Engate a marcha a r e vamos ver como voc faria numa rua! 
      Ainda sorrindo, Cris colocou r e olhou para trs, sobre o ombro direito. Apertou o pedal, mas nada aconteceu.
      - P na gasosa! disse o pai, ainda olhando para a frente.
      Foi o que fez. Pisou firme e o carro jogou em cheio para trs. As mos viravam a direo, primeiro para a direita, depois para a esquerda. O pai gritou:
      - Pisa no freio!
      Foi o que fez
      Bam! O pra-choque bateu na base de cimento de um poste de estacionamento, arremessando a cabea de ambos para trs e para a frente.
      - Coloque em ponto morto e desligue o motor! exclamou o pai, estendendo o brao para desligar, ele mesmo, a ignio.
      Em seguida, correu para fora e foi examinar a traseira do carro.
      Cris ficou completamente imobilizada. O queixo comeou a tremer e ela sentiu as lgrimas quentes prestes a jorrar dos olhos. No tinha coragem de virar. No 
conseguia se mexer.
      - Venha c, Cris!
      Ela piscou e fazendo enorme esforo, abriu a porta e, com as pernas bambas, foi at a parte de trs do carro. O pai apontou para o pra-lama.
      - Podia ter sido pior. Eu dou um jeito de desamassar. Agora, o melhor que voc faz  passar de novo pra "garupa".
      No dava para acreditar que o pai estivesse to calmo! Ela pensara que o choque amassara toda a parte traseira do carro. Como um choque to horrvel, to forte 
pudera causar to pouco dano?
      Em seu rosto devia haver sinais de terror, porque o pai logo passou o brao em volta de seus ombros e disse:
      - No fique preocupada com isso.
      Algumas lgrimas lhe rolaram pelas faces. Ela abraou-se ao pai e numa voz baixa, tremula, confessou:
      - Desculpe. Estou realmente arrependida. Eu no... quer dizer... eu estava... eu, eu no sei...
      Com o ouvido colado no peito do pai, Cris ouviu um barulho suspeito. Olhou para ele que soltava uma gargalhada. Continuou rindo e ela sorriu tambm, tentando 
descobrir o que havia de to engraado.
      - Olha em volta.
      Ela olhou e no viu nada. Nenhum carro no estacionamento. Ningum por perto. Somente alguns postes eltricos espalhados estrategicamente pelo estacionamento.
      - No vejo nada.
      - Exatamente, disse o pai, sorrindo largamente. Qual a probabilidade, num espao to amplo, de voc atropelar alguma coisa? indagou e soltou outra gargalhada.
      Pela terceira vez naquele dia, Cris sentiu um aperto no estmago por ser a nica que no sabia o que era to engraado.
      - Foi sem querer, disse ela, defendendo-se. Voc disse para pisar no acelerador.
      - Ora, Cris! No jogue a culpa em mim, nem em voc mesma.  por isso que a gente chama isso de acidente. Vamos l, tente mais uma vez!
      Apertaram de novo os cintos. O pai estava levando a coisa a serio. Quando Cris pisou na embreagem, notou que o pai automaticamente firmou o p contra a chapa 
do assoalho, como se procurasse um freio invisvel. 
      Cris olhou para a frente e disse: 
      - Posso perguntar mais uma coisa?
      - O qu? indagou o pai olhando para a frente, com a mo direita apoiada na porta e a esquerda segurando o cinto de segurana.
      Com ar de brincadeira, ela agarrou o volante como um piloto de corridas e falou rindo:
      - Tem certeza que o seguro est em dia? O pai deu um sorriso abafado, e ela continuou ento num tom de voz de guia da Disneylndia:
      - Favor no colocar os braos e as mos para fora do veculo em movimento durante todo o trajeto. Lembrem-se de que fotografar com o uso de flash  proibido.
      Ento, calmamente, reiniciou os exerccios de direo pelo estacionamento vazio.
      - Espero que no haja flash de nenhuma espcie, murmurou o pai. Preste ateno no que est fazendo agora. Vire aqui  direita e v at o final.
      Aliviada e j menos tensa, Cris simplesmente "navegou" pelo estacionamento. Saiu-se bem nas manobras, no seu entender, e, quando voltaram para casa, foi logo 
ter com a me, falando-lhe com satisfao do seu desempenho. S deixou de fora a histria do pra-lama. Felizmente para ela, o pai, nesse momento, se encontrava 
no quintal e no pde corrigir-lhe a omisso.
      Cris espreguiava-se, estendendo as pernas sobre os braos da poltrona, esperando as palavras de incentivo da me.
      - Isso  bom, filha, disse essa, enquanto dobrava a roupa e a dispunha sobre o sof em pilhas separadas. Mas no fique triste se ainda no estiver preparada 
ou no conseguir tirar a carteira exatamente no dia do seu aniversrio.
      - Ah, vou ficar, sim. Alm do mais isso aqui  muito importante. Quer dizer, talvez no fosse to importante l no Wisconsin, quando voc era moa, mas, aos 
dezesseis anos, todo mundo que conheo aqui na Califrnia j tirou carteira. Se eu no conseguir, vou morrer de vergonha.
      A me colocou uma camiseta dobrada na pilha de roupa limpa da Cris e jogou-lhe um monte de toalhas de banho, ainda quentes da secadora, que Cris abraou como 
se fosse um gatinho numa cama de penas.
      - Isso a  pra voc dobrar, no pra fazer um ninho, disse a me, acrescentando logo a seguir: S estou lhe dizendo que voc no deve tentar o exame enquanto 
no estiver completamente preparada.
      Cris deixou cair no cho a primeira toalha dobrada.
      - Me, voc acha que o tio Bob estava falando srio quando disse que pagaria o seguro do meu carro* durante o primeiro ano?
      * Trata-se do seguro total, que nos Estados Unidos  muito caro. (N. do E.)
      - Claro que sim. Mas voc se lembra da condio? Tem de passar no exame da primeira vez. Ele falou muito claro.  por isso que estou dizendo: no faa o exame 
enquanto no tiver certeza absoluta de que vai passar. Ah! Eu ia me esquecendo. Chegou essa carta hoje para voc.
      Entregou-lhe uma carta que estava debaixo da pilha de roupa limpa.
      Cris dobrou a ltima toalha e pegou a carta que a me lhe entregava. No reconheceu a letra. A carta, escrita numa nica folha de caderno, dizia:
      
      Querida Cris,
      Andei pensando no que voc disse, e acho que tem razo. Vou lhe contar mais a respeito de minha deciso quando eu a vir...
      Era s isso. A ltima sentena estava inacabada e a carta no fora assinada.
      - De quem ser? perguntou Cris, correndo de novo a vista sobre o texto e tentando decifrar o carimbo borrado do envelope.
      Quem escreveu isso? O que foi que eu disse? E que espcie de deciso essa pessoa tomou baseada em alguma coisa que eu disse? Que coisa estranha.
      Sua me no ouviu. Estava ao lado da porta com uma pilha roupas dobradas no brao, olhando para o marido na garagem, que, inclinado examinava a parte traseira 
do carro. 
      Cris resolveu comparar a letra da carta com algumas das cartas mais antigas de Paula e foi saindo para ir at o quarto.
      - Cris? perguntou a me. O que  que seu pai est fazendo no carro? Aquilo que ele est segurando  uma marreta? 
      A garota subiu depressa para seu quarto e fechou a porta em silncio.
      
      
      

Quer Saber um Segredo? 
2


      
      - Nossa famlia no sabe mesmo guardar segredo, reclamou Cris com a me na manh seguinte,
      Estavam no carro, na estrada. A me passou para a pista de alta velocidade e consultou o relgio de pulso.
      - Por que disse isso?
      - Quando a tia Marta telefonou hoje cedo, j sabia tudo sobre o que tinha acontecido no estacionamento da igreja ontem.
      -  porque eu contei pra ela, interveio David no banco de trs.
      - Por qu? indagou Cris virando-se para ralhar com o irmo de nove anos. No precisa contar pra todo mundo.
      David, uma verso reduzida do pai, sorriu fazendo cara de bobo. Seu jeito ficava mais engraado porque os culos estavam sempre escorregando pelo nariz. Ele 
no replicou, voltando sua ateno para as miniaturas de carro que estavam no banco ao seu lado. Rolando um deles pelo assento, disse numa vozinha tpica de desenho 
animado:
      - Cuidado! Olha o poste ali na frente! No se preocupe. Est a um quilmetro de distncia. No tem importncia. Mas  a Cris que est dirigindo! Oh no! Aiii! 
Bum, bam, crax!...
      Cris nem lhe fez a gentileza de virar-se. Disse apenas com calma:
      - Me, faz ele parar.
      - David, no deboche de sua irm.
      - No estou debochando, me. Verdade. Vi isso num desenho animado.
       - David!
      - Est bem. Pe uma fita, me! Quando  que vamos chegar l? Ns vamos parar pra lanchar?
      - Ainda vai levar uma hora pra chegarmos ao aeroporto, disse a me, olhando novamente o relgio. E no vamos parar para comer. Voc pode esperar at a gente 
pegar a Paula.
      - Vamos dormir na tia Marta?
      - No. Provavelmente vamos s almoar e da voltamos pra casa.
      - Por que tenho de ir ao aeroporto com vocs?  chato.
      - Porque ontem  noite voc implorou para ir, respondeu sua me. Ou j se esqueceu?
      - Eu queria ficar em casa, falou David cruzando os braos e encostando-se na porta.
      - Voc no  o nico, resmungou Cris.
      - Cris! repreendeu-lhe a me. Escutem vocs dois: quero que se esforcem ao mximo para no brigar um com o outro, principalmente quando formos... aqui ela 
se calou, e ambos esperaram que ela continuasse a bronca.
      - Bem, principalmente quando formos juntos a lugares como esse. Faam uma fora, est bem?
      Ningum respondeu, e a me relanceou a vista na direo de ambos, de cara fechada.
      - T bem, respondeu uma voz do banco traseiro.
      - Tudo bem, suspirou Cris.
      O resto da viagem at o aeroporto internacional de Los Angeles transcorreu em paz. O nico problema foi quando, apressados pela me,  vista do porto de desembarque 
do avio de Paula, David cismou de tomar gua.
      - Vamos, David! No temos tempo a perder! gritou Cris.
      A me correra  frente deles enfiada no meio da multido. Cris pegou David pelo brao, e mal conseguiu ver para onde ela tinha ido.
      - Fique comigo, David!  muito fcil um garotinho como voc se perder na multido.
      Ele desvencilhou o brao, mas ficou ao lado dela at alcanarem a me, que conversava com algum na rea de espera. Cris se aproximou por trs. Como era bem 
mais alta que a me, podia erguer a vista por cima do seu ombro, mas no estava preparada para a cena que viu.
      - Paula!
      A garota do Wisconsin, cara de boneca, olhos grandes, redondos e muito azuis, pulou e gritou, trombando com David, ao correr para dar um abrao caloroso em 
Cris.
      - Cheguei! Cheguei! anunciou ela  amiga e a todos mais que se encontravam na sala de espera do aeroporto. Paula pendurou a bolsa a tiracolo.
      - Eu estava ficando doida, gente! disse ela, quase sem flego e exagerando nas impresses. O avio chegou cedo, uns dez minutos antes da hora. Desci e no 
conheci ningum. Nossa! Como eu estava apavorada! Sentei e tentei me acalmar. A sua me apareceu e quase comecei a chorar. Ento vi voc e a percebi que tinha 
chegado mesmo! Tou aqui!
      Cris riu dos comentrios entusiasmados da amiga. Ela era assim mesmo. Parecia mais "Paula" do que a Paula que crescera ao lado de Cris, embora no se viam 
havia quase um ano.
      - Voc cortou o cabelo! exclamou Cris. Paula correu os dedos pelo cabelo curtinho, carregado de mousse, e disse:
      - Tinha de cortar. Voc no cortou quando veio pra c no ano passado? Achei que ficava melhor pegando o jeito da Califrnia antes de chegar, mas...
      Parece que s ento Paula reparou em Cris.
      - E voc est deixando o seu crescer! J bate nos ombros. Nem posso acreditar! A ltima vez que vi voc, estava to curtinho!
      Ento suas bochechas rosadas adquiriram uma tonalidade mais rubra. Assustada, exclamou:
      - No me diga! Est todo mundo de cabelo comprido? Vou ser a nica de cabelo curto? Ah no!
      - Paula! disse Cris, rindo e falando baixinho, esperando que a outra entendesse a dica e abaixasse o tom de voz. Voc est tima. Estamos na Califrnia, menina! 
Pode usar o cabelo do jeito que quiser. No se preocupe. Relaxe!
      A me sugeriu que fossem buscar a bagagem. Paula caminhava tagarelando ao longo do terminal e Cris a observava de perto, surpresa de v-la to bonita. Paula 
sempre fora "engraadinha ", com seu cabelo loiro e comprido, seus olhos azuis e inocentes de menina. Agora, a no ser pelos imensos olhos de boneca, ela, no era 
mais uma menininha, era uma bela moa. Cris achava que Paula sara mais bem feita de corpo que ela prpria, e o estilo sofisticado de seu cabelo, somado ao realce 
da maquiagem, dava-lhe uma aparncia de mais de quinze anos.
      Era estranho andar ao lado de Paula, ouvindo-a tagarelar  vontade, sem mesmo perceber que falava alto e que as pessoas olhavam espantadas na sua direo. 
O ano que passaram separadas trouxera mudana para as duas. Como Cris esperara por esse momento! Ver novamente a amiga! Agora que ela estava a,  bem, sentia-se 
um pouco apreensiva. 
      - Sabe, n, Cris, disse Paula, fazendo com que essa voltasse no presente.
      - Ah, , ha! Seja l o que voc tenha dito.
      - Quer dizer, quem sabe quando vou poder voltar outra vez por aqui! Ento quero fazer tudo que a gente puder e ver tudo que h pra ver. At andei guardando 
dinheiro pra lhe poupar despesas comigo - talvez eu possa ajudar a pagar a gasolina e outras coisas quando a gente sair a passeio...
      Com calma e firmeza na voz, a me de Cris virou-se para Paula e disse:
      - Todos ns nos divertiremos, Paula. S quero que se lembre que talvez voc tenha a oportunidade de ver algumas coisas que no esperava, e talvez no consiga 
fazer algumas coisas que estavam nos seus planos.
      - Ah, eu sei! Minha me disse a mesma coisa. Vou achar timo tudo o que a gente fizer. De verdade! No quero incomodar.
      - No  incomodo, disse a me de Cris ao se aproximarem da multido junto ao terminal de bagagens. Foi timo voc ter vindo. Estamos contentes.
      - Olha a! So as minhas malas. Aquela grande xadrez e as duas pequenas ao lado, na esteira.
      - Parece que voc trouxe roupa para um ms inteiro, caoou Cris enquanto as meninas se afastavam para que a me e o David pegassem as malas em movimento.
      - Pudera! J foi difcil conseguir vir pra ficar duas semanas, porque logo que voltar vou ter de ir a uma grande reunio de famlia. Quero voltar com um bronzeado 
massa!
      Cris riu-se dos comentrios ingenuos de Paula. A voz parecia de uma menininha brincalhona, mas tudo nos seus olhos azuis dizia  Cris que ela tinha-se tornado 
muito sria no tocante aos seus objetivos. E ela tinha muita coisa em mente!
      As duas garotas seguiram no banco traseiro durante o trajeto de uma hora e meia at a casa de Bob e Marta. Paula no parava de falar que sua amiga Melissa 
tinha conseguido arranjar um emprego para ela numa sorveteria, e que tinha juntado dinheiro nos ltimos sete meses. Tinha comprado algumas roupas novas e pago metade 
da passagem, e agora estava com mais de duzentos dlares.
      - Tenho de comprar um mai novo antes de ir  praia. Eu morreria se tivesse de vestir o velho e as pessoas rissem de mim como riram de voc no ano passado.
      - Na verdade, elas no riram de mim, defendeu-se Cris. 
      - Riram sim. Quando voc me escreveu, disse que elas debocharam do seu mai verde-vagem!
      -  verdade, Cris? perguntou a me, olhando-a pelo retrovisor. Voc nunca me contou.
      Era um daqueles momentos embaraosos de que ela preferiria no falar, principalmente com sua me.
      - Muita obrigada por lembrar disso, viu Paula! disse ela com bastante ironia na voz, tentando disfarar o quanto a observao da amiga realmente a perturbara.
      - S estou dizendo que aprendi com suas experincias, Cris. No deixei minha me encomendar um mai de catlogo da Sears antes de vir pra c, porque quis comprar 
um aqui, como voc.
      - Foi por isso que a Marta lhe comprou toda aquela roupa nas frias passadas? perguntou a me.
      - Bem, principiou Cris mas se deteve para pensar, antes de prosseguir.
      Ela opusera resistncia  maneira aparentemente generosa com que a tia dava as coisas, querendo, na verdade, apenas exercer controle sobre ela.
      - Sabe como  a tia Marta, me. Muito generosa, mas s gosta das coisas ao jeito dela.
      Espero que isso tenha sado direito. A ltima coisa que quero na vida  que a Paula repita o que eu disse deforma errada!
      No vejo a hora de conhecer a irm da senhora, D. Margaret, disso Paula, aproximando-se mais do banco da frente para se dirigir  me de Cris. Ouvi dizer tanta 
coisa sobre sua irm Marta, que tenho certeza que vou gostar dela. Estou doida pra ver a casa deles. Nunca conheci ningum com casa na praia, e ainda mais na praia 
de Newport! Cris, voc tem tanta sorte!  muito longe daqui? Onde estamos?
      - Estamos quase chegando, respondeu a me de Cris.
      Em seguida, passou a perguntar como iam os pais de Paula e toda a sua famlia. Isso preencheu os vinte minutos que faltavam pura chegar  casa de Bob e Marta.
      - Nunca tem lugar pra estacionar aqui durante o vero, disse com um suspiro, mas logo se lembrou: o Bob est em Maui. Posso estacionar na rampa de entrada.
      - Seu tio est em Maui?  no Hava, no ? Que  que estou dizendo? Claro que  no Hava... ou no?
      - , respondeu David falando pela primeira vez. E o Ted foi pra l tambm. Eu queria ter ido com eles.
      A me entrou com o carro na rampa de entrada e, sorridente, cheia de nimo, disse ao David:
      - Cuidado com seus desejos, filho. Talvez eles se realizem.
      - Ha?!
      Desligou o motor e desceu do carro, seguida por Paula. Cris tinha de admitir que era divertido observar a Paula experimentando a aura do estilo de vida de 
praia da Califrnia. Paula se aproximava de tudo com deslumbrante animao.
      - No  que ?! Olha s essa casa!  maravilhosa ou no?  inacreditvel! Aquela ali  a sua tia?
      Marta, uma mulher esbelta e sofisticada que tinha apenas uma leve semelhana com a me de Cris, veio na direo da escada onde se viam vasos de barro pintados, 
repletos de flores coloridas. As flores derramavam-se em cascatas pelos lados e pelo caminho da frente.
      - Ento, essa deve ser a Paula! disse Marta cumprimentando-os. Bem-vinda  Califrnia, querida. Como foi a viagem?
      Marta deu a cada um seu costumeiro beijo rpido, cuidando para no manchar o batom nem atrapalhar o cabelo curto e escuro.
      - Voc sempre tem um perfume de flor, disse David quando ganhou o seu beijo.
      - Muito obrigada, David, disse Marta. E antes que ela os convidasse para entrar, David virou-se para sua me e completou:
      - E voc, me, sempre tem cheiro de molho de macarronada.
      - Molho de macarronada! reclamou ela. Uma brisa rpida do mar pegou uma mexa do cabelo curto e escuro da me, espalhando-o pela testa.
      - Por que molho de macarronada? indagou a me.
      Cris achou que a me tinha ficado um pouco chateada por ser "molho de macarro" ao lado da irm, que era toda "flores", apesar de que, j devia estar acostumada 
a essa espcie de comparao, com o decorrer dos anos.
      -  porque tia Marta tem mais cheiro de jardim e a senhora de cozinha.
      - David! que grosseiria! falou Cris interrompendo a analogia do irmo, e com pena da me. Como  que voc fala uma coisa dessa! concluiu em voz baixa, entre 
dentes.
      - Por qu? indagou o garoto surpreso. Adoro macarronada. S que  diferente de flor, s isso.
      Marta aproveitou a chance para concluir com habilidade:
      -Acredito que ele est elogiando a ns duas, Margaret. Dizem que o caminho para se chegar ao corao de um homem passa pelo estmago! Agora, vamos entrar, 
gente, por favor.
      Passaram por Marta entrando na casa luxuosa e moderna. Paula olhava tudo como se estivesse num museu famoso, exclamaes de admirao que Cris julgava meio 
exageradas. E ela continuou com as exclamaes em cada cmodo que viam, pois Cris a conduzia pela casa a dentro.
      - O almoo est pronto e esperando na cozinha, gritou Marta, a vista erguida para o alto da escada.
      Cris estava mostrando a Paula o quarto de hspedes onde ela havia ficado, quando se hospedara com os tios, no vero passado. 
      - Pensei num almoo informal, e comprei umas coisinhas na delikatessen, explicou a tia.
      As "coisinhas" de Marta eram uma bandeja de frios, queijos, molhos e pats, quatro tipos de po e trs saladas. David foi imediatamente preparar para ele um 
sanduche to grande, que teve de ouvir da me a advertncia de que no daria conta de comer tudo. Dito e feito.
      - Posso ir  praia? perguntou ele.
      - Espere um pouco, falou Marta colocando seu refrigerante diet na mesa e olhando para o garoto com expresso sria. Eu queria conversar sobre uma coisa antes 
de voc sair da mesa.
      Por um instante, Cris temeu que houvesse algo errado, mas quando pousou os olhos na me, viu de novo aquele sorriso animado. Assim que percebeu que Cris a 
olhava, a me tentou disfarar assumindo uma expresso mais sria, mas no conseguiu.
      - Como vocs sabem, principiou Marta, Bob estar fora algumas semanas e eu ficarei aqui sozinha.
      O jeito dramtico da tia lembrava  Cris o exagerado da Paula.
      - No estou suportando mais essa solido. Ento tomei uma deciso.
      David deu um pulo e exclamou:
      - Voc quer que a gente venha ficar com voc!
      Paula engasgou e entrou na mesma onda de entusiasmo.
      - Verdade? Voc deixaria a gente ficar, todos ns, aqui na sua casa? Que sonho mais maravilhoso! Sempre quis ficar hospedada numa casa de praia!
      - No, no, no! interveio Marta levantando a mo para se explicar. No os estou convidando para ficar aqui, no.
      -Ah! exclamou Paula.
      -Ah! fez David, sentando de novo.
      - Eu nem vou estar aqui; portanto, no podero ficar. Eu gostaria que fossem comigo para Maui!
      Assim dizendo, ela deu um salto e abriu os braos, esperando os abraos de alegria. Em vez de pular em cima dela, os trs ficaram grudados no lugar, esperando-a 
dizer que se tratava de uma piada.
      - Ser que no me ouviram, Margaret? A me sorriu e tentou a abordagem direta.
      - Bob e Marta nos convidaram para passarmos uma temporada em Maui. Vamos daqui a dois dias.
      Paula gritou. Gritou to alto, que Cris tapou os ouvidos, repetindo mentalmente as palavras: "Vamos a Maui, daqui a dois dias."
      Afinal, gritando e saltitando, Paula e David foram abraar a tia. No momento que Cris "conseguiu" acreditar na notcia, tambm entrou na folia.
      Quando eles se acalmaram um pouco, Paula disse:
      - Vocs so massa mesmo!  como se tivssemos ganhado um premio num concurso da televiso! Minha me no vai acreditar!
      - Sua me j sabe, explicou a me de Cris. Liguei pra ela e conversamos sobre tudo antes de voc vir.
      - H quanto tempo voc sabia, me? perguntou Cris, sentindo o corao, que disparara, comear a bater mais calmo, mas ainda forte.
      - Ah, no sei! Umas duas semanas. Estava ficando difcil guardar segredo!
      - O pai sabe? perguntou David.
      - Sim, e  algo que ainda no disse a vocs. Seu pai no conseguiu folga do laticnio e ento no vai conosco.
      - Ele  o que mais precisa de umas frias, comentou Cris.
      - Eu sei, concordou a me. Marta interrompeu:
      - Ele disse que ir da prxima vez e ainda brincou com o Bob dizendo que a nica razo de querermos que ele fosse com a gente era para ajudar a pintar o apartamento. 
Bob lhe garantiu que essa era a nica razo pela qual ia levar o Ted.
      Ted! Vai ver que sabia o tempo todo, porque ficava repetindo que amos nos divertir. Por isso ficava rindo de mim, o sabido!
      No era a primeira vez que a tia de Cris preparava uma surpresa especial, algo bem extravagante. No que Cris tivesse se acostumado a esse tratamento, ou no 
apreciasse os maraviIhos presentes da tia. Ela gostava. Mas a notcia de ir a Maui no lhe causou o mesmo impacto que causara em Paula. Sua amiga estava totalmente 
apatetada.
      - No acredito! Voc acredita? No d pra acreditar! repetia Paula que agarrara Cris e a abraara, gritando bem no seu ouvido.
      De repente recuou, e, tendo no rosto uma expresso de horror, exclamou:
      - No! Ah, no!
      - O que foi? perguntou Marta, estendendo a mo e colocando no ombro da moa. Qual  o problema?
      - No vou ter tempo de comprar um mai novo!
      Nesse instante, Marta teve uma reao que Cris tinha visto poucas vezes: caiu na gargalhada. Soltou um riso profundo, do tempo da fazenda, e disse:
      - Eu j devia saber disso! Essas meninas so todas iguais. O que acha, Margaret? Vamos tirar o resto da tarde para fazer compras?
      - , acho que podemos.
      - Que chato! Ah, a gente tem mesmo de fazer compras? Eu no posso ficar aqui na praia? protestou David.
      - Daqui a alguns dias voc estar numa das praias mais lindas do mundo, David. Hoje, vamos ao shopping!
      Sempre que Marta dizia uma coisa dessas, David sabia que era melhor no contrari-la. As meninas foram as primeiras a sentar no banco traseiro do novo carro 
prateado de Marta, que, como Cris notou, era mais espaoso que a Mercedes e tinha o estofamento mais macio que j vira.
      David se encolheu perto da porta esquerda, e assim que Marta comeou a rodar rua abaixo, ele se ps a brincar com as janelas automticas, at que a me o mandou 
parar. Paula comeou a falar no instante que se sentou e no calou at chegarem ao South Coast Plaza.
      Marta foi para o setor em que havia manobristas, e Paula perguntou surpresa:
      - Quer dizer que a gente desce aqui mesmo na frente da loja e algum estaciona o carro l embaixo, e no precisamos andar nada? Legal!  incrvel! Puxa, ontem 
eu estava servindo sorvete na casquinha l na Dairy Queen, e hoje estou fazendo compras na Califrnia, preparando-me para minha viagem a Maui!
      Deu outro gritinho e agarrou o brao de Cris.
      - Quando  que voc vai se animar com essa viagem e mostrar algum entusiasmo?
      - Estou entusiasmada, Paula. S que voc j est mostrando nimo suficiente para ns duas!
      - Se sua maneira de ser animada  essa a, ento d pra entender porque no conseguiu ficar na torcida oficial!
      Que golpe! Cris deteve o passo e Paula virou-se com jeito brincalho e disse:
      -Ah, vamos l, Cris! Relaxe. Eu s 'tava brincando!
      Por que a Paula diria uma coisa dessas? Ela sabe que consegui entrar no time mas cedi meu lugar para outra menina. Por que ela torce os fatos pra dar a entender 
que fracassei?
      Margaret, Marta e David caminhavam na frente das duas, mas Cris tinha certeza que tinham ouvido. Era difcil no ouvir a Paula naquele embalo todo.
      Cris comeou a sentir uns sinais de dor de cabea. Achou que teria sido melhor ter ficado em casa, tirando uma soneca, em vez de fazer companhia a Marta em 
seus desfiles pelas lojas.
      Presenciar a animao de Paula ante a variedade dos mais s piorava a situao.
      - Qual que eu compro, Cris? indagou a amiga segurando um cabide com um biquini verde-nenio, vestida com o mesmo modelo em rosa-shockng.
      - Tanto faz. Qualquer um, respondeu Cris, que estava refestelada numa poltrona.
      - Grande ajuda voc d! Cad sua tia? Vou perguntar a ela.
      - Ela ainda est olhando umas coisas pra minha me.
      - Acho que vou ficar com o verde. Nunca tive nada com uma cor to viva assim. Acho que vai destacar mais o bronzeado, no ?
      - .
      Paula desviou os olhos do espelho e os fixou em Cris.
      - Voc est bem? Estou te achando esquisita, desde que comeamos as compras.
      - Estou com dor de cabea e no me sinto muito bem.
      - Por que no disse logo? falou Paula, e em seguida deu um salto e mexeu na bolsa. Quer aspirina de verdade ou Tylenol? indagou tirando um vidrinho de cada 
um.
      - Olhe s! Que menina organizada! gracejou Cris. Quero aspirina. Uma s. Preciso de gua. Volto j.
      Cris pegou o comprimido e se dirigiu ao bebedouro, contente com o pretexto que encontrara para sair dali. Sabia que era bobagem e no devia se irritar, mas 
o tempo todo que passara ao lado de Paula, ajudando-a na escolha do mai, sentira inveja de seu corpo.
      Para Cris, que era alta e magricela, Paula parecia dotada de um corpo perfeito. Tinha a altura mdia ideal e as medidas exatas, com muito mais busto que ela. 
Alm disso, parecia orgulhar-se de seu corpo, a julgar pela maneira resoluta com que se exibiu nos minsculos biquinis que andara experimentando.
      Eu jamais teria coragem de experimentar um biquini como esse de cor nenio! pensou Cris enquanto tomava a gua gelada e engolia o comprimido. Nunca ficaria 
bem em mim como fica na Paula. Alm disso, minha me no permitiria que eu sasse de casa com um biquini to pequeno.
      Quando voltou  seo de mais, Paula j pagara a compra e estava ao lado da caixa registradora esperando-a com a sacola na mo.
      - Voc comprou o verde? perguntou Cris, tentando disfarar a inveja.
      - No. Mudei de idia. Comprei o rosa. Agora quero ver se acho um par de culos de sol legal demais que vi numa revista com a mesma cor rosa-shocking nos lados. 
Voc acha que encontro aqui?
      -Acho melhor primeiro irmos procurar minha me, sugeriu. Podemos perguntar  tia Marta sobre os culos. Ela sabe onde tem.
      - Voc no vai comprar nada?
      - No sei. Talvez. Na verdade, no consigo lembrar do que estou precisando.
      - Ento no pense no que voc precisa! Compre o que voc quer! Aposto que sua tia compraria qualquer coisa que pedisse se voc apenas lhe desse uma dica.
      - , compraria mesmo, concordou Cris.
      O que Cris no explicou foi que uma vez agira desse jeito com a tia, e o resultado no foi exatamente o que ela esperava. Quase todos os presentes dela vinham 
com cobranas, e Cris conclura que era melhor viver contente com o que tinha do que ter um monte de coisas e sentir-se como marionete nas mos da tia.
      - Meninas! chamou Marta. Aqui! Margaret est comprando um mai novo com sada. Vocs j escolheram alguma coisa?
      - Paula tambm comprou um mai. Marta olhou a sacola na mo da garota e num tom levemente ofendido perguntou:
      - Voc mesma pagou?
      - Bem, sim, respondeu Paula, um tanto confusa com a reao de Marta. Eu j tinha mesmo pensado em comprar um maio quando chegasse aqui, e pra isso havia economizado 
o dinheiro. Estava at em oferta!
      Marta entregou seu carto de crdito  balconista e numa voz de pomba-rola disse  Paula:
      - Diga-me quanto custou e lhe devolvo o dinheiro. Eu queria lhe dar o mai como presentinho de boas-vindas  Califrnia.
      Paula arregalou os olhos, que ficaram parecendo duas bolas de gude azuis, como um personagem de conto de fadas no momento que  borrifado de p de pirlimpimpim 
e fica sabendo que todos os seus sonhos se tornaram realidade.
      Ser que eu tambm ficava assim no ano passado?
      Passaram mais umas trs horas fazendo compras, com David reclamando continuamente at que Marta pagou-lhe um sundae de iogurte gelado num casco. A me advertira 
que ele no aguentaria comer tudo, e foi dito e feito.
      Paula viu numa vitrina os culos que queria, e Marta rapidamente os comprou para ela, e tambm um par igual para Cris. Esta no gostou dos culos. Contudo 
eles eram caros, e ela sabia que deveria apreciar o presente da tia; por isso, agradeceu-lhe educadamente, mas, ao contrrio de Paula, no se permitiu qualquer demonstrao 
de entusiasmo.
      Quando o manobrista do estacionamento trouxe o carro, Marta sugeriu que fossem jantar em algum lugar. A rne de Cris recusou, dizendo que estava ansiosa para 
pegar a estrada, pois era uma hora e meia de viagem.
      - Muuuito obrigada! disse Paula ao abraar Marta na despedida. Adorei os culos e o biquini e tudo mais que comprou pra mim. Obrigada mesmo!
      - Obrigada, agradeceu tambm a me, abraando a irm. Ento nos encontraremos s seis na tera-feira de manh. Certo, concordou Marta. No mximo s seis horas, 
j que O avio sai s 8:30. Por que voc no leva os frios que sobraram para o lanche? Eu no vou comer antes de viajar, e seria um desperdcio jogar fora.
      A me de Cris seguiu a irm para pegar a bandeja de frios; Cris e Paula transferiram as sacolas de compras do carro de Marta para o carro da me de Cris, e 
David tomou conta do banco dianteiro, onde j tinha enfileirado seus carrinhos no pninel.
      - Voc quase no comprou nada, Cris, comentou Paula quando tudo j se encontrava dentro do carro. E sua dor de cabea, melhorou?
      - Acabou. Obrigada pela aspirina.
      - No consigo acreditar que vamos ao Havai! Ainda no acredito! E o Ted est l. No vejo a hora de conhec-lo. Notei a sua pulseira quando estvamos fazendo 
as compras. Deve ser a que ele lhe deu na noite de passagem de ano, no foi? E no foi ern algum lugar por aqui, na rua? Voc tem de me mostrar o tal cruzamento. 
Achei to romntico quando voc escreveu e contou que ele saiu do carro e lhe deu a pulseira e um beijo.
      - Credo! exclamou David. Que nojeira! O Ted beijou voc?
      timo, Paula! Muito bem. Muito obrigada! Fico muito contente mesmo de ver a liberdade com que voc expe minha vida particular em pblico! Pra que fui lhe 
contar essas coisas to pessoais?
      A expresso de Cris mostrou seus sentimentos, e Paula calou-se de repente com uma cara que dizia: "Epa! pisei na bola." Deu ento uma risada infantil, como 
tantas vezes o fizera em companhia da amiga. Dessa vez, porm, Cris no parecia disposta a acompanha-la em sua furtiva demonstrao de humor.
      Na volta para casa, Cris fingiu dormir o tempo todo, a cabea encostada na janela. Paula no desacelerou nem um pouco. Falou sobre a fazenda que pertencera 
os pais de Cris e sobre os novos donos, enquanto a me fazia perguntas sobre inmeras pessoas la de sua cidade.
      Cris filtrava o que ouvia, procurando definir por que se sentia to irritada. Afinal, aquela era Paula, sua melhor amiga desde o jardim da infncia. Ia para 
Maui passar a semana com o Ted.
      No havia dormido bem a noite passada, e talvez fosse essa a razo. Mas fosse la o que fosse, Cris no gostava de bancar a rabugenta, e resolveu que procuraria 
agir de modo mais despreocupado com Paula.
      Sem essa Cris! Pesou consigo experimentando a frase predileta de Paula, enquanto, mentalmente, pregava um sermo em si mesma. Voc  sria demais. Tente ser 
mais animadinha como a Paula. Ela  cheia de vida. Fique cheia de vida tambm. Paula  engraadinha. Voc tambm pode ser. 
      Olhos fechados e a cabea ainda apoiada na janela, Cris apertou os lbios, tentando dar um sorriso bonitinho, fotogrfico. Imaginou-se abrindo os olhos, redondos 
e esbugalhados como os de Paula, mas, ao invs de parecer e bonitinha e doce como a companheira, a nica imagem que lhe vinha a mente era a de Miss Piggy, do Muppett 
Show, virando cabea e sorrindo apaixonada para o Caco.
      To ridcula lhe pareceu a imagem, que as sensaes confusas que lhe agitavam o esprito acabaram expulsas dali. do caminho para casa, Cris, sem ter mais no 
que pensar, repetiu para si mesma o tempo todo: Caco,  Caco querido! E outra risadinha lhe escapava dos lbios.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      

Se Katie Coubesse em Minha Mala...
3
      

      Estranho que, ao chegarem em casa, Cris, de repente, se animasse e ficasse faladora, enquanto Paula, correndo a vista pela casa pequena, alugada, perguntava 
com certo desapontamento.
              -  aqui que vocs moram?
      Paula comeou a mudar de humor, ficou silenciosa, como se alguma coisa a deixasse chateada.
      O pai sugeriu ento que encomendassem uma pizza. J iaficando tarde e um pizza de viagem pouparia  me o trabalho de ir para a cozinha.
      - Tudo bem comigo, disse a me. Marta me deu tantos frios, que parece que voc vai poder fazer muito sanduche enquanto estivermos fora.
      O pai  que no parecia nem um pouco chateado por no poder acompanh-los a Maui. Ouviu as meninas conversando animadamente sobre seus planos e disse que da 
prxima vez iria tambm. Dessa vez, porm, no dava; tinha trabalho demais na empresa e no poderia se ausentar.
      Naquele momento, Cris sentiu pelo pai uma admirao que no sabia explicar. Ele se contentava em ver a famlia feliz, sem se chatear ou parecer que se sentia 
abandonado. Ela sabia que o Hava no fazia sua cabea. Ele preferiria uma lagoa tranqila e uma varinha de pescar. Quando ela era menor, muitas vezes tinham ido 
a campings rstios.
      Era reconfortante o que via no pai. Algo l dentro dizia: "Apesar de meu pai no ser o tipo de cara que vibra com frias no Hava, ele no nos impede de ir."
      David comeu trs fatias de pizza, largando todos os pimentes no prato. Paula apenas mordiscou um pedao e depois disse que estava com sono.
      - Aposto que est mesmo, disse o pai. L em Wisconsin j  meia noite e meia. Eu coloquei a bicama no quarto de Cris prs voc. Vai ficar um pouco apertado: 
quando abrir a porta, abra devagar.
      Cris mostrou a Paula onde havia toalhas no banheiro. A pedido da amiga, arranjou um travesseiro extra e se aprontou para dormir, enquanto Paula ocupava o banheiro. 
Quando Paula chegou ao quarto, encontrou Cris na cama lendo a Bblia.
      - Que  que voc est lendo?
      - A Bblia.
      - Est brincando?! Voc sempre faz isso agora? exclamou ela jogando as roupas sujas num canto do quarto.
      - Bem, procuro ler todos os dias. Mesmo que s um pouquinho.
      Paula respondeu com um "ah!" sem graa. Deitou-se, afofou os travesseiros e virou as costas para Cris.
      Poucos minutos depois, Cris ouviu um imenso bocejo seguido da pergunta:
      - Ei! Voc no vai apagar logo essa luz? No quero ser mal-educada, mas estou morrendo de sono.
      - Claro, concordou Cris, fechando a Bblia e apagando a luz. Bons sonhos, Paula. Sonhe com Maui: a praia dourada, o sol de vero, a gua azul e cristalina... 
Paula?
      O nico som de Paula era a respirao de um sono profundo. Cris se esticou debaixo dos lenis, cruzou as mos embaixo da cabea e olhou para o teto escuro 
do quarto. Sussurrou ento, apenas mexendo os lbios:
      Pai, tenho de falar com ela sobre o Senhor, mas no sei como. J falei em cartas. Nas frias passadas contei a ela que entreguei meu corao a Jesus e prometi 
ao Senhor toda a minha vida. Mas ela no entende. Somos to diferentes agora, como se estivssemos separadas uma da outra por uma distncia enorme. Antes ramos 
irms gmeas, mas agora temos to pouco em comum... 
      Acho que foi por isso que fiquei to chateada hoje. Queria me abrir mais com ela, como sempre, mas a. gente mudou muito. Ela precisa tornar-se crist, como 
eu, pra gente poder ter aquela amizade ntima de antes. Vou tentar tudo que puder pra que ela perceba que precisa entregar a vida ao Senhor. Ah! Senhor, a por fazer 
que tudo acontecesse de modo a favorecer nossa viagem a Maui. Esteja com o Ted agora mesmo e proteja-o de todo mal. Boa noite, Senhor.
      Antes de dizer "amm", Cris j sonhava com uma ilha, praia e surfe.
      O sol da manh bateu na janela da Cris s 6:20, inundando o quarto de luz atravs das cortinas rendadas e finas. Durante o vero, ela sempre dava um jeito 
de se livrar da claridade. Puxava o lenol sobre a cabea e ficava vagueando entre o mundo da realidade e o dos sonhos pelo menos mais uma hora.
      Mas Paula no era de ficar parada. Cumprimentou o sol da manh escancarando a janela do quarto e desfazendo a mala, cantarolando enquanto arrumava suas coisas.
      - Que  que voc est fazendo? perguntou Cris  madrugadora.
      - Voc acordou! timo! Ento se levanta e me d uma opinio aqui sobre quais as roupas que devo levar ao Hava e quais devo deixar aqui. Lembra que sua tia 
disse que cada uma s pode levar uma mala. Eu trouxe coisa demais e tenho de ver o que realmente preciso. Faz calor o tempo todo no Hava? Ou devo levar jeans e 
camisetas tambm?
      - Mas voc j est de p! Sabe que horas so? murmurou Cris, puxando a coberta para cima da cabea. Paula tirou o relgio da bolsa.
      - No Wisconsin j so quase dez horas. Se eu estivesse em casa estaria me aprontando pra ir trabalhar. Mas estou na Califrnia e amanh vamos pra Maui!
      Cris rolou na cama e puxou a coberta descobrindo os olhos.
      - Quer dizer que no foi s um sonho extico que tive ontem  noite?  verdade que vamos ao Hava? Paula riu-se e jogou um travesseiro nela.
      - Sei como . Tambm ainda no estou acreditando. Essas frias vo ser as melhores da minha vida. Mas espere um minuto!
       Paula sentou-se junto a Cris e disse:
      - Voc ainda no me falou nada sobre o Ted desde que cheguei. Achei que fosse falar sem parar, como faz em suas cartas. Cris se ergueu, apoiando-se no cotovelo, 
e respondeu:
      - No tenho tido tempo pra te contar muita coisa. Quer dizer, no estou a fim de falar de meus interesses particulares na frente do meu irmozinho, como certa 
pessoa que conheo!
      - Me desculpe por aquela!  bom que o David reconhea que as pessoas se beijam, fazem essas coisas. Ele j tem idade pra pensar nisso, no acha?
      - No acho, no! Alm do mais, o Ted  como um irmo ou um primo para o David. s vezes, penso que ele passa mais tempo com o David do que comigo!
      - Ento me conte tudo. Estou morrendo de vontade de saber. Est apaixonada por ele? Cris riu da pergunta.
      - Vamos l! insistiu Paula. Est na hora da nossa conversa de travesseiro. At onde vocs j foram?
      - O que voc quer dizer com isso? indagou Cris erguendo-se novamente.
      - Voc sabe. At onde? Beijos e outras coisas.
      - Bem, ele me beijou umas cinco vezes.
      -E...?
      - E o qu?
      - Que mais? insistiu Paula, cutucando o p da amiga.
      - S isso. No tem mais nada.
      Paula encarou a amiga por um segundo e depois, como se estivesse convencida de que ela dizia a verdade, se afastou dizendo:
      - Ento tem algo errado.
      - Como assim?
      - Pense um pouco, Cris. Vocs se conhecem h mais de um ano e j saram juntos vrias vezes, no ?
      - Mas no estamos exatamente namorando.
      - Mas voc no est saindo com mais ningum, est? 
      - Claro que no! Paula, voc sabe que meus pais no permitem que eu namore enquanto no completar dezesseis anos.
      - Aposto que o Ted est ficando com outra pessoa. 
      Cris lanou um olhar de desgosto para Paula e tentou entender aonde ela queria chegar.
      - Voc no enxerga, hein, Cris?! Como pode ser cega desse jeito! Quando um cara gosta de algum, a coisa no fica s no beijo no e so mais que cinco beijos 
num ano! Se o Ted realmente gostasse de voc, ele seria mais ousado.  assim que a gente sabe se um cara gosta da gente: se ele tentar conseguir bem mais que uns 
beijinhos. Ele provavelmente tem uma outra namorada em Newport e voc  s o estepe, a menina boazinha, qubra-galho.
      Cris sabia que o que Paula dizia no era verdade, mas ainda se sentia meio sonolenta e no estava animada a provar nada. J ouvira essa argumentao antes; 
outra amiga dissera o mesmo meses atrs. At ficara temerosa e ansiosa com relao ao Ted, por causa das palavras da outra menina. Mas agora se sentia mais segura 
no seu relacionamento com ele, mesmo que ningum mais achasse "normal" esse relacionamento.
      - Sabe, estou surpresa, concluiu Paula acomodando-se melhor no p da cama. Todo esse tempo pensei que vocs fossem assim, mais srios, e que voc s no escrevia 
isso nas cartas pura que sua me ou a minha no descobrissem.
      - Paula, espere s voc conhecer o Ted. Ele no  como outro rapaz qualquer. Ele nunca foraria nossa amizade tentando ir alm de onde devemos ir, nem fisicamente 
nem de outro modo.  um caro muito legal - simplesmente isso.
      - Isso no existe! declarou a amiga. Nenhum gato de dezoito anos, bonito e maravilhoso como voc o descreveu, vai se limitar a ter apenas uma garota. Eu continuo 
dizendo que ele tem outra namorada. S que no te contou,  claro.
      Cris abanou a cabea.
      - Espere conhec-lo, Paula. Voc ver. Ele  crente mesmo. Ama a Deus de verdade.
      No momento em que ela mencionou Deus, Paula encerrou a conversa e correu para o banheiro. Ia preparar-se para enfrentar o dia. Cris tentou se acomodar de novo 
na cama e dormir mais um pouquinho.
      Tarde demais. Sua mente operava a pleno vapor, repassando cada detalhe do que Paula havia dito e descartando quase tudo. Ocorreu-lhe, porm, que embora Paula 
a tivesse sabatinado, procurando detalhes sobre o namoro, ela nada dissera sobre nenhum dos rapazes que havia referido nas cartas que lhe escrevera durante o ano. 
Quando Paula voltou ao quarto, Cris perguntou-lhe:
      - Voc no disse se est ou no de namoro com algum. O que aconteceu com aquele cara? Esqueci o nome dele. No era o irmo da Melissa?
      - Ele? falou a moa surpresa com a pergunta de Cris. No; faz tempo que ele sumiu. Eu no tenho namorado. Vim para a Califrnia preparada pra conhecer todos 
os surfstas que voc estivesse planejando me apresentar!
      Assumiu de novo a pose brincalhona e engraadinha, e concluiu:
      - Agora parece que vou ter de me contentar com um surfista havaiano.
      A me de Cris apareceu no corredor e enfiou a cabea no vo da porta do quarto das meninas.
      - Imaginei que estivessem acordadas, disse ela. Prontas para o caf da manh?
      Com isso a conversa sobre rapazes ficou temporariamente suspensa, at  tarde, quando chegou Katie, a amiga ruiva de Cris. Paula e Cris estavam no quarto, 
arrumando as malas, quando lhe ouviram a voz animada atravessando o corredor.
      - Est bem. Por favor, me digam que o David  o maior contador de lorota, pra eu economizar alguns dlares.
      - Oi, Katie! exclamou Cris, assim que a recm-chegada se aproximou de ambas. Esta  minha amiga Paula. Paula, esta  a Katie.
      - Muito prazer!
      - Igualmente!
      - Ento, o que foi que meu irmozinho fez desta vez?
      Katie encostou-se na porta, os olhos verdes, brilhantes, indo de Paula para Cris, parando finalmente em Paula.
      - O querido Davizinho andou me contando uma histria - tem gente aqui viajando para Maui amanh. Quando falei que no acreditava, ele me fez empenhar minha 
palavra de que lhe pagaria um sorvete, se estivesse falando a verdade. Digam-me que ele  um garoto confuso, que vive num mundo de fantasia
      - Ele , confirmou Cris, mas est falando a verdade.  uma daquelas "pequenas surpresas" da minha tia. A gente parte amanh de manh.
      Do corredor ouviram o David repetir:
      - Eu no lhe disse?! Eu no lhe disse?!
      - No acredito! Vocs perceberam a sorte que tm?
      - Eu sei! gritou Paula, dando um salto e comeando a matraquear os detalhes da viagem para a Katie, que estava sria e se sentara, quieta, num canto da bicama 
para ouvir a histria toda.
      Cris parecia desconcertada. Imaginou como seria doloroso para Katie ver a Paula aparecer de repente, tomando o lugar dela no seu corao. E agora se preparavam 
para baixar no paraso, deixando para trs a pobre Katie!
      Sentia-se mais incomodada ainda porque, no ano anterior, Marta a levara - a ela e mais duas garotas - a Palm Springs, e Katie no pudera ir por causa dos compromissos 
que tinha como mascote do time de futebol da escola. Afinal, elas tiveram uma poro de problemas e Cris raramente via as meninas que haviam ido com ela. Alm do 
mais, prometera a Katie que da prxima vez que Marta arranjasse um passeio, fosse onde fosse, ela a convidaria.
      Pois bem, a tia planejara a viagem ao Hava pensando na Paula, e nem disseram a Katie que j estavam de partida. Cris sabia que, assirn que conseguisse conversar 
com Katie em particular, ela entenderia. No poderia tentar explicar as coisas agora sem ofender Paula, principalmente se desse a impresso de que preferia a companhia 
de Katie  de Paula.
      - Mas isso  incrvel! exclamou Katie quando Paula concluiu o relato. Espero que vocs se divirtam bastante. Puxa, como gostaria de poder ir com vocs!
      Agora Cris se sentia ainda pior. Ela dissera a mesma coisa ao Ted no dia em que ele viajara. S que, ao contrrio dele, ela no tinha nenhum segredo, e no 
haveria nenhuma surpresa para Katie depois.
      Por um instante, Cris pensou em perguntar  me se poderia ligar para tia Marta, e ver se dava um jeito de incluir Katie na viagem. Mas desistiu da idia quando 
imaginou a cara da me. Cris sabia que a me jamais permitiria que ela pedisse um favor to caro  tia. Alm do mais, ela mesma jurara nunca mais implorar nada  
tia.
      - Vim ver se vocs duas gostariam de dormir em minha casa uma noite dessas enquanto a Paula estivesse aqui, mas parece que sua agenda de compromissos j est 
repleta, disse Katie com um jeito simptico.
      Cris admirou a amiga, por essa atitude to positiva.
      - Vamos ficar l s uma semana. Talvez a gente se encontre quando voltarmos, antes que Paula regresse a Wisconsin.
      - Claro, concordou Katie. Tragam uns saiotes havaianos e vamos fazer um concurso de hula a noite toda!
      Todas riram e Katie se ofereceu para ajud-las a arrumar as malas. A jovem era toda doura.
      Katie, voc me surpreende, pensou Cris. Se eu estivesse no seu lugar, estaria voltando para casa, chorando na certa. Quero ser assim igual a voc.
      - O que acha? indagou Paula para Katie. Sempre faz calor l, ou devo levar algum agasalho?
      - Melhor levar pelo menos um moletom, no caso de refrescar.
      - Qual, ento? Comprei trs, todos com estampa de universidade. Quando visto um, as pessoas me perguntam se estudo na Universidade de Michigan ou em outra. 
Qual a universidade mais legal pra gente se identificar no Hava? concluiu ela mostrando os trs.
      - A que for mais distante, sugeriu Katie. Faz parecer que voc veio de longe pra visitar as ilhas.
      - E vim mesmo, retrucou Paula.
      - Ento leve a de Wisconsin mostrando que  fiel ao seu estado.
      - Mas as cores deste da Pennsylvania combinam mais com a maioria das roupas que tenho!
      - Eu s sei, interrompeu Cris, que  melhor resolver logo, porque amanh j estaremos de partida, n?
      - Vai levar o tnis, Cris? perguntou Katie, tirando um par do armrio..
      - Acho que sim. Voc vai levar, Paula? 
      -  melhor, se pretendermos fazer cooper. Sabia que correr  uma excelente maneira de conhecer rapazes?
      - Hmm!  bom saber disso, falou Katie, achando engraada a sugesto de Paula.
      Colocou o tnis de Cris no fundo da mala e continuou:
      - Sempre ponho os sapatos e a Bblia no fundo porque so as cosas mais pesadas.
      - Boa idia, disse Cris, colocando sua Bblia de capa de pano ao lado dos sapatos, como se estivesse arrumando um quebra-cabea.
      - Acho que essa ida de vocs para Maui  uma dessas coisas de Deus, sabia? comentou Katie.
      - Uma "coisa de Deus"?! exclamou Paula dando uma risada. O que  isso?
      Katie permaneceu sria, o que no acontecia com muita frequncia.
      -  quando algo acontece na vida da gente, e no sabemos explicar como ou por que aquilo aconteceu, mas sabemos que existe uma razo. A gente sabe que Deus 
est fazendo alguma coisa em nossa vida, e isso nos transforma. No existe outra maneira de se explicar uma coisa assim, a no ser como algo que vem de Deus.
      - Mas ns sabemos por que isso aconteceu, respondeu Paula de pronto.  porque a tia da Cris nos convidou pra irmos com ela.
      - , mas pense nisso: quantas pessoas que voc conhece j foram convidadas a ir ao Hava com toda as despesas pagas? perguntou Katie. Voc no acha que  uma 
coisa de Deus, Cris? Acho que Deus vai fazer algo na vida de vocs duas enquanto estiverem l.
      Cris no sabia ao certo o que  uma "coisa de Deus", mas apreciou as palavras de incentivo da amiga. Recebeu-as como uma bno proferida por algum que poderia 
ter-se sentido discriminado, ofendido.
      Logo depois, quando Paula foi  cozinha tomar alguma coisa, Katie continuou o pensamento:
      - Voc no acha que  uma coisa de Deus, Cris? Quer dizer, eu sei h quanto tempo voc estava esperando essa visita da Paula, e sei que tem orado por ela, 
para que ela se converta. Sabe o que acho? Essa viagem  uma "armao" de Deus par voc e o Ted testemunharem para a Paula. No foi mais ou menos assim que voc 
se tornou crist no ano passado, quando o Ted e aquela outra menina lhe falaram de Jesus?
      - Foi mais ou menos isso. O nome dela  Trcia. Mas no foi tanto pelo que eles falaram; e sim,  pelo jeito deles. O Ted e a Trcia tinham algo que eu no 
tinha e foi isso que me "pegou" mais.
      - Mas os dois no testemunharam juntos pra voc? Pense que fosse isso que tinha me contado quando mostrou a sua Bblia. Eles no lhe deram a Bblia juntos?
      - Sim, mas... sei l. No  que me tivessem falado de Senhor e eu dissesse: "Est bem, claro, quero entregar minha vida a Cristo." O que aconteceu  que eles 
ficaram me dizendo a mesma coisa, isto , que eu precisava do Senhor, mas sempre de uma maneira diferente. No incio, at procurei ignora-los. Mais tarde, porm, 
comeou a fazer sentido. Tive de tomar uma deciso.
      Os olhos verdes de Katie estavam srios quando ela disse:
      - Sabe de uma coisa? No fique desanimada se a Paula no der ateno a voc e ao Ted assim que lhe comearem a falar de Cristo. Precisam dar tempo ao tempo.
      - Eu sei, eu sei.
      Sem saber por qu, Cris ficou um pouco irritada com os conselhos de Katie. Percebendo que talvez tivesse sido meio indelicada, acrescentou:
      - Por favor, ore por ns, 't bem?
      - Vou orar. Prometo. Ainda acho que essa viagem veio de Deus.
      Depois que Katie foi embora, Paula zombou de seu jeito ao dizer que a viagem era uma "coisa de Deus".
      - Voc no fica irritada quando as pessoas falam sobre Deus como se ele fosse um esprito vigiando a gente ou coisa parecida?
      - Bem, Paula, ele , comeou Cris, esperando que tivesse chance de de explicar melhor. Acho que o que Katie estava querendo dizer ...
      Paula cortou a conversa por completo:
      - Voc no precisa defender a Katie, Cris. Ela  legal. Acho Katie um amor. S estou dizendo que estava tudo bem at ela comear com esse papo de religio 
pra cima da gente.
      Naquele momento a me de Cris enfiou a cabea no vo da porta:
      - Meninas! As malas esto prontas? Espero que tenham conseguido enfiar tudo numa s, cada uma.
      - Quase, disse Cris, olhando sua mala arrumada com toda ordem. S falta colocar meu estojo de maquiagem, que vou pr nela amanh cedinho.
      A me aproximou-se e examinou o que j tinham feito. Uma ala saa para fora da mala de Paula. A me puxou-a e era o suti do biquini.
      - Nossa! exclamou, e calou-se.
      Ficou segurando a pea como quem no sabia o que fazer com ela.
      - Isso  seu, Paula? indagou afinal.
      - Sim! respondeu a moa, com naturalidade e sem o menor constrangimento, ao contrrio de Cris.
      -  esse o mai que voc comprou ontem?
      -.
      Paula pegou o minsculo suti da mo de D. Margaret e o meteu de novo na mala, arrumando bem para que as alas no pendessem para fora.
      - Paula, comeou a me de Cris com diplomacia. Estou achando que sua me no iria gostar muito desse biquini.
      Cuidado, Paula! L vem bala!
      Cris lutou com seus sentimentos por ambas as partes. Se tivesse coragem e um corpo mais bonito, provavelmente tambm iria querer usar um biquini rosa-shocking 
igual quele. Ainda assim, sabia que sua me apelaria para a decncia, e ela tambm concordava com esse lado.
      - No se preocupe, D. Margaret! S comprei esse pra pegar um sol. Tenho meu velho mai inteirio pra nadar. Comprei esse aqui porque, afinal, que vantagem 
tem a gente ir ao Hava e no voltar pra casa bem bronzeada?
      A me de Cris pareceu aceitar a resposta de Paula, sugerindo apenas que, ao sair para tomar sol, levasse uma camiseta ou sada para se cobrir, caso os rapazes 
aparecessem por l.
      Paula sorriu, anuindo, e Margaret deixou por isso mesmo. Insistiu que as meninas fossem dormir cedo, porque teriam de sair s quatro da madrugada para chegar 
ao aeroporto a tempo. Cris ainda estava pensando que se ela comprasse um biquini desses, seus pais a proibiriam de us-lo por qualquer motivo. Paula conseguiu sair-se 
com a maior facilidade.
      Enquanto sua amiga novamente pegava rpido no sono, Cris ainda ficou achando mais coisas para fazer ou colocar na mala, o que fez sob a fraca luz do corredor, 
para no incomodar a amiga. Uma das coisas que Cris encontrou, ao mexer na escrivaninha, foi a carta misteriosa que recebera dias atrs. Enfiou-a na bolsa, pretendendo 
perguntar  Paula no dia seguinte se tinha sido ela quem a escrevera. E o que significava aquela parte que dizia: "Andei pensando no que voc disse"?
      Correu a vista pelo quarto mal iluminado, contente por haver deixado tudo em ordem. Cris gostava de ter as coisas em seus lugares, para poder encontr-las 
sem dificuldade.
      A nica coisa que faltava tirar era o monte crescente de roupas sujas que as duas vinham atirando para o canto nos ltimos dois dias. Cris pegou todas as peas 
de uma vez e levou-as para a mquina de lavar.
      Ao colocar a roupa em cima da mquina, viu o mai inteirio de Paula embolado e enfiado no meio das outras peas. Procurou entender por que Paula o havia posto 
para lavar, sobretudo depois de haver dito  sua me que pretendia us-lo em lugar do biquini novo, quando fosse nadar.
      Certamente o atirara no canto inadvertidamente enquanto arrumava a mala. Ou, ser que Paula estava tentando esconder o mai e deix-lo na casa de Cris para 
que, assim que chegassem a Maui, no tivesse outra opo seno usar o biquini o tempo todo?
      Cris encostou-se na fria mquina e refletiu no assunto, inclinada a admitir que Paula, sua amiguinha de infncia, jamais faria uma coisa dessas. O problema 
era que ela havia mudado. Cris j no sabia bem quem era essa nova Paula, nem do que ela seria capaz.
      
      
      
      
      
      
      

"Passageiros do Vo 272, Apresentem-se Para Embarque!"
4



      - Agora aqui, daqui a pouco a caminho de Maui! repetiu David pela dcima-quinta vez, enquanto a me dirigia o carro. Eram quase seis horas, e Cris sabia que 
chegariam atrasados para pegar a Marta. Isso deixaria a tia zangada, e se perdessem o vo, todo mundo acabaria furioso.
      - David, essa  a ltima vez que eu quero ouvir voc dizer isso, est bem?
      Ele fez que sim e se aquietou. A me no se zangava com frequncia, mas quando isso acontecia, era pra valer!
      Cris teve a prudncia de calar-se, ao perceber a tenso com que a me segurava o volante, dirigindo quase colada ao carro da frente. Saram de casa no escuro, 
mas o dia agora j estava bastante claro, e a estrada apinhada de veculos, de gente indo para o trabalho, e gente viajando de frias.
      - Vamos l! vamos l! murmurou a me para um grande traler que estava  frente. Pise fundo nesse acelerador ou saia da frente, cara!
      Era raro Cris ouvir a me falar com os outros motoristas, e ela achou engraado.
      - Minha me tambm faz isso toda hora. Isto , conversa com os carros, disse Paula no banco de trs, onde estavam sentadas com um enorme saco de viagem entre 
as duas. Morro de rir. Ela fica muito nervosa, principalmente com os tratores na estrada.
- Voc j tirou carteira? Perguntou Cris.
- No, s a licena de aprendiz. Mas dirijo por todo lado. Todo mundo dirige.
      - E o seguro? O que acontece se voc tiver um acidente?
      - Sei l.   
      - Est brincando! exclamou Cris fitando os olhos vivos da amiga. Aqui o seguro  coisa sria. Ningum pode dirigir se no tiver, e  super caro. Tio Bob disse 
que vai pagar o meu no primeiro ano, se eu passar no exame de habilitao da primeira vez.
      David virou-se para trs e entregou a irm:
      - E ela precisa desse seguro porque j bateu o carro!
      - Verdade? O que foi que aconteceu?
      Cris fez cara feia para o irmo antes de explicar sem rodeios o incidente do estacionamento, esperando que no parecesse coisa de grande monta.
      Paula achou graa.
      - Algum viu voc fazer isso?
      - No, s meu pai.
      - E ento, j tirou a carteira?
      - Ainda no fiz o exame. Meu aniversrio ... disse ela e se interrompeu arregalando os olhos. No acredito! Eu ia me esquecendo do meu aniversrio!
      - Ei!  amanh, no ? Com toda essa histria do Hava eu tambm j ia me esquecendo.  massa! Voc vai fazer dezesseis anos no Hava. No  um sonho?
      - Talvez voc acabe fazendo dezesseis anos aqui no carro se esse trailer da frente no andar mais depressa! queixou-se a me.
      Cris e Paula se entreolharam fazendo careta, rindo do ataque de ansiedade da me. Alguns minutos depois deram com o motivo da lentido do trfego: havia um 
caminho parado, atravessado na pista central, obrigando o trnsito a desviar-se para os dois lados.
      Uma vez transposto o local do acidente, a pista ficou livre novamenter, mas a tenso continuou crescendo at chegarem  casa de Marta. Foi a que a coisa pegou 
fogo. Cris e Paula apenas observavam as duas irms, que agiam como se fossem adolescentes, brigando porque eles haviam chegado com um atraso de quinze minutos. Discutiam 
tambm a respeito do carro em que iriam para o aeroporto; e, como se tudo isso j no bastasse, recriminavam-se ainda por no serem mais organizadas e mais pontuais.
      O grupo acabou optando pelo carro da me de Cris, com o David instalado no banco traseiro, estando este e a bolsa de viagem envoltos pelo cinto de segurana, 
e Marta viajando no banco dianteiro, com uma mala aos seus ps.
      - Foi exatamente por isso que pedi que vocs colocassem suas coisas em malas separadas, ralhou Marta. Este dia esta comeando todo errado; nunca na minha vida 
sa to atrasada para um vo!
      - Pegamos um trnsito terrvel e tinha um caminho atravessado na estrada, explicou Margaret, ainda agarrando com fora o volante, enquanto manobrava o carro 
para voltar  rodovia.
      - Talvez a gente consiga se desviar do trnsito, sugeriu Marta, se pegarmos a 405. Est vendo aquela placa ali? Fique nesta pista.
      A me de Cris seguia as instrues, enquanto Marta continuava expondo seus planos.
      - Est bem. Se perdermos o vo, o que espero no acontea, teremos de descobrir quando sai o prximo, e peg-lo.
      Afinal, no precisaram da alternativa de Marta. Conseguiram chegar ao aeroporto, despachar a bagagem, e receber os cartes de embarque ainda com meia hora 
de antecedncia. A me de Cris cedeu ante a insistncia de David para que comprasse um pacote de chicletes, e os dois correram para a loja mais prxima, deixando 
para trs Marta, um pouco mais calma agora, sentada na rea de espera com as meninas.
      - Devamos ter ido com eles, disse Paula depois que me e filho j se achavam fora do alcance da vista. Eu no tenho chicletes, e meus ouvidos sempre me incomodam 
quando viajo de avio.
      - Paula, observou Cris, voc s andou de avio uma vez na vida, e isso foi h poucos dias, quando veio pra c.
      - .Sei. E masquei chicletes o tempo todo. Marta, podemos ir comprar chicletes?
      Creio que podem, mas no demorem. Eu fico aqui com a bagagem de mo. No se esqueam, ns embarcaremos em de meia hora.
      - Quer que a gente lhe traga alguma coisa? perguntou Paula  num tom de voz doce.
      - No, obrigada, querida. S quero que andem depressa! 
      Paula e Cris passaram sem demora pelo pessoal que estava na fila de embarque. Cris sugeriu que fizessem uma rpida visita  toalete, j que Marta lhes dissera 
que o vo teria cinco horas de durao,
      - Primeiro os chicletes, ordenou Paula. E quando estvamos passando por todas aquelas lojas, vi uma revista que desejo comprar.
      De repente, Paula parou.
      - No acredito! falou dando um grito abafado, ou pelo menos o mais abafado que conseguia dar.
      Enfiando a mo no fundo de sua enorme bolsa a tiracolo, pegou os culos, colocando-os rapidamente.
      - Quando  que voc comeou a usar culos? perguntou Cris.
      -  ele! L daquele lado, t vendo?  o cara daquele programa de televiso - como  mesmo o nome do filme? Tem dois artistas e...
      Agarrando a Cris pelo brao, Paula puxou-a e foi andando. Passou em frente  porta e seguiu para outro setor do terminal.
      - Vamos! Ele 't indo por ali! Voc viu? Como  mesmo o nome dele, Cris? No consigo me lembrar!
      - Paula! gritou Cris puxando-lhe o brao. Paula! 
      Esta virou-se, com ar sonhador, mas continuou caminhando em direo do ator de cinema.
      -O qu? Que ? Vamos!
      Cris se esforava para acompanh-la.
      - No sei nem o que voc est falando! Vamos, Paula! O que  que voc est fazendo?
      - Vou pegar meu primeiro autgrafo de um artista de cinema. Vamos l!
      Meteram-se no meio de um grande grupo de turistas e acabaram dando num setor com duas alas pela frente. Tinham de escolher uma das duas.
      - Esta aqui! falou Paula agarrando de novo o brao de Cris. Eu vi de. passando por aqui.
      -  Paula, voc nem sabe quem estamos seguindo!
      - No me lembro do nome, mas ele trabalha naquele filme, e a Paula parou de repente. Onde  que ele foi? No estou vendo mais!
      - Paula, estou falando srio! Temos de voltar imediatamente. Eu no vi ningum com cara de famoso. Isso  uma grande bobagem! falou Cris furiosa, exasperada, 
mas procurando conter-se. Temos de voltar agora!
      Virou-se e marchou em direo contrria  amiga.
      - T bem, t bem, eu j vou, replicou Paula alcanando-a. Mas sei que j o vi. Como  mesmo o nome dele? Vou ficar doida com isso! Ele  uma gracinha, e  
bem conhecido; trabalha naquele filme..
      - A maioria dos artistas de cinema so uma gracinha, tudo gente conhecida, e sempre esto em algum filme! disse Cris apressando o passo, olhando por sobre 
o ombro, ralhando com a Paula. No d pra acreditar! Ns podamos nos perder ou perder o vo por causa de um artista que nem vimos.
      - Espera, Cris, insistiu Paula, colocando os culos de volta na bolsa e agarrando novamente o brao da amiga. Quero entrar aqui e comprar chicletes.
      - No tem mais tempo!
      - Tem sim. Sua tia estava s pegando no p de todo mundo Falta mais ou menos urna hora para o avio decolar.
      - Meia hora, corrigiu Cris.
      - Meia hora para embarcar; da leva mais meia hora para o avio decolar.  tempo de sobra.
      Paula entrou na lojinha de lembranas e demorou-se por l olhando as revistas antes de escolher uma. Pegou um pacote de chicletes e mostrou para a Cris.
      - Gosta desse?
      - Tanto faz. Vai qualquer um. Vamos embora! 
      Paula colocou as compras na sacola e as duas voltaram para a rea do terminal central, olhando ao redor e parando imobilizadas. No reconheciam o lugar.
      - Vamos por aqui, disse Paula, reassumindo a autoconfiana. 
      - Tem certeza? Pensei que nosso porto fosse daquele lado. 
      Uma nuvem de incerteza confundiu a Paula, que logo exibiu a expresso de interrogao revelando ento que estava aterrorizada.
      O burburinho e a agitao constantes da multido, no seu vaivm incessante, deixavam Cris tonta. 
      - Vamos perguntar a algum, disse Paula, sem flego, procurando distinguir no meio da multido algum que lhe pairecesse simptico e confivel.
      - No podemos simplesmente conversar com qualquer estranho!
      - Ento o que  que vamos fazer? indagou Paula enfiando a unha no brao de Cris, e parecendo cada vez mais apavorada. O que  que vamos fazer? Estamos perdidas!
      - Me larga! disse Cris. Cad um daqueles monitores de televiso que mostram os horrios dos vos?
      - L! disse Paula apontando um aparelho numa parede atrs delas. Qual o nosso vo? Que companhia? Voc sabe? Eu no sei nem o nome da companhia em que vamos 
viajar!
      - Era a United, no era? perguntou Cris enquanto corriam na direo do monitor.
      -Ali! apontou Paula. Honolulu! Tem um vo daqui a meia hora pra Honolulu.  o nosso, no ? Claro que , no ? Sua voz estava cada vez mais fina pelo nervosismo.
      - , , ! replicou Cris, a irritao misturando-se ao medo. Mas, e aquele acima dele? Como  que se diz isso: Ka-hu-lu-i? perguntou. Acho que  esse o nome 
do aeroporto de l, porque est no horrio em que era pra gente decolar, e ele tem um norne havaiano.
      - Como voc sabe que o nome  havaiano? Honolulu  que  um nome havaiano! Kahului pode ser algum lugar em Bora Bora ou pior, pode at ser um vo para a Antrtida! 
No podemos sair correndo para o primeiro vo que parece ter um nome havaiano! Acho que devemos ir ao porto 87 onde sai o vo para Honolulu. Todo mundo sabe que 
Honolulu  no Hava!
      Naquele momento a linha de Kahului comeou a piscar e em vez do horrio, piscava na tela a palavra "Embarque".
      - Embarque, Paula! Esse  o nosso vo! Eu sabia! E est saindo neste momento. Vamos depressa! Porto 57. Onde  que fica o porto 57?
      As meninas tomaram o rumo da ala mais prxima do terminal, depois perceberam que estavam indo na direo errada e se viraram para a direo contrria, seguindo 
as placas esbarrando nas pessoas. As duas choravam. Arfando e piscando como doidas, de repente reconheceram a ala de onde haviam partido.
      -  aqui! Tenho certeza! disse Cris, enquanto corriam para rea de espera.
      O lugar, que antes estava cheio de gente, agora se achava vazio. Viram apenas a me de Cris, que estava de costas para elas,  frente do balco de passagens, 
conversando com a atendente e gesticulando em desespero.
      - Me! Me!
      - D. Margaret!
      Margaret virou-se para as duas. No as recebeu de maneira acolhedora,  claro; colocou as mos na cintura e as encarou com severidade, estampando no rosto 
a recriminao que Cris desejava no ouvir.
      - Perdemos o avio, meninas, declarou. Perdemos o avio! Onde  que vocs se meteram?!
      Cris procurou recompor-se e responder de maneira sensata. Antes que dissesse uma s palavra, Paula deixou extravasar as emoes chorando convulsivamente. Agarrou 
D. Margaret pelo brao, e se ps a contar uma histria esquisita de que se peerdera ao tentar escapar de uma figura estranha, que ela pensara que estava tentando 
sequestr-las e uma infinidade de outras bobagens do gnero, tudo sem nexo.
      Margaret mudou logo de atitude, procurando acalm-la antes que ela chamasse a ateno dos outros. Apavorada, perplexa, Cris enxugou as lgrimas.
      - Com licena, interveio a atendente de vo, encostada no balco, com jeito muito mais doce e preocupado do que alguns minutos antes. Vocs esto bem, meninas? 
      Cris fez que sim.
      A reao de Paula bem podia ter lhe valido um papel num melodrama de televiso. Curvou o lbio inferior, arregalou mais os olhos, e mais lgrimas sujas de 
rmel escorreram-lhe pelo rosto. De repente, a funcionria da companhia disse  me de Cris:
      - Quinta-feira passada, houve um rapto aqui no aeroporto, uma menina de oito anos. Talvez eu devesse chamar a segurana.
      - No! acudiu Paula de pronto. Quer dizer, j perdemos o avio e ia demorar muito pra responder ao interrogatrio e tudo mais.
      - Estamos bem, acrescentou Cris. Na verdade, no aconteceu nada. Ns nos perdemos, foi s isso, explicou, mas parecia que ningum acreditava no seu relato 
mais ameno. 
      - Deixem-me verificar uma coisa, disse a mulher pegando o telefone e ajeitando-o no ombro, enquanto digitava alguma coisa no computador.
      - Senhora Miller, disse ela em um tom profissional, por favor, sente-se a, a senhora e suas filhas. To logo descubra uma soluo, eu lhe informarei.
      As trs se dirigiram  rea de espera e a me tirou lenos de papel da bolsa e os entregou s meninas.
      - Esto mais calmas agora?
      As duas fizeram que sim e assoaram o nariz. Cris disse:
      - Me, sinto muito. Ns nos perdemos e...
      - Tudo bem, querida. Marta e David foram naquele vo e mandei anunciar seus nomes pelo alto-falante. Tentei arranjar lugar em outro vo, mas esto lotados. 
Pouco antes de vocs aparecerem, a moa estava me dizendo que o vo mais prximo em que h vagas para trs sai amanh  noite.
      - Amanh  noite? berrou Paula, comeando a chorar de novo.
      -  o meu aniversrio! exclamou Cris, juntando-se a Paula num novo acesso de lgrimas.
      Naquele instante, um segurana chegou num carrinho motorizado e disse:
      - Senhora Miller? Podem entrar! Eu as levo at o porto.
      Margaret olhou-o como quem no estava entendendo nada. A moa do balco deu a volta por trs do computador e pousou carinhosamente a mo no ombro de Paula. 
Explicou ento:
      - Arranjei lugares para vocs em outra companhia. Tero de mudar de avio em Honolulu e pegar o das Linhas Areas Aloha vo 210 para Kahului.
      Entregou as passagens  Margaret e apontou um nmero escrito  mo em cima do pacote.
      - Quando se apresentarem nos dois vos, informem este nmero de cdigo. Ele  muito importante, falou e em seguida virou-se sorridente para as meninas: vocs 
duas, cuidem bem uma da outra nessas frias, est bem?
      Antes que elas tivessem tempo de entender bem o que havia acontecido, j estavam sentadas no veculo, sendo conduzidas em meio  multido at o outro lado 
do terminal. A me mostrou as passagens e o nmero de cdigo especial, e foram imedia tamente levadas at um avio que as aguardava, ocupando trs lugares na primeira 
classe.
      As pessoas olhavam-nas e os atendentes de vo as tratavam como se fossem da realeza. Da a pouco apertavam o cinto e o avio descia a pista de decolagem. O 
ronco dos motores se confundia com a crescente agitao das emoes de Cris. Ela inclinou-se para Paula, que olhava o mundo ir ficando cada vez menor l embaixo 
e cochichou:        
      - Por que ser que eles esto nos tratando desse jeito?
      - Deve ter sido por causa daquela histria de seqestro. Acham que fomos mesmo seguidas por um seqestrador.
      - Mas, Paula, no aconteceu nada disso! Eles pensaram isso porque voc contou essa histria.
      - Eu estava nervosa!
      - Eu tambm estava, mas voc no devia ter inventado essa mentira.
      - No foi exatamente uma mentira, Cris, replicou Paula parecendo ofendida.
      
Cris cerrou os dentes e a olhou de cara fechada. Paula abriu um sorriso largo, e riu com um toque de leviandade. 
      -  Relaxe, Cris, 't bem? Sem essa! Voc devia ver sua cara. Parece aquela velha de cara enrugada que trabalhava no Correio. Como era o mesmo o nome dela?
      Cris no gostou da comparao. No estava a fim de se lembrar da velha de cara enrugada do Correio, uma senhora cuja expresso lhe dava medo quando menina, 
e menos ainda de se parecer com ela.
      - Alm do mais, no me lembro direito do que foi que eu disse, comentou Paula pegando seus fones de ouvido e comeando a desembaraar os fios. E tudo acabou 
dando certo. Acho melhor no tocarmos mais no assunto.
      - Mas no est certo, Paula. Isso  enganar os outros!
      - Por qu? Ningum se machucou e no houve problema algum. Pelo contrrio, at deu certo. Se no estivssemos chorando assustadas e tudo o mais, duvido que 
eles nos teriam dado esse tratamento especial. No teriam arranjado lugar nesse vo e teramos de ficar plantadas at amanh  noite, sem sair. Pense nisso, Cris. 
Voc queria passar seu aniversrio no aeroporto, ou na praia?
      -  claro que na praia, mas...
      - Ento esquea! rematou Paula, inclinando para trs, confiantemente, a luxuosa poltrona de primeira classe e ajustando os fones de ouvido. Reconhea, Cris: 
isso  o que aquela sua amiga Katie chamaria de "uma coisa de Deus".
      
      
      
      
      

Aloha!
5



      Cinco horas num avio  tempo bastante para qualquer um dar uma relaxada. Cris resolveu deixar para l a aventura da manh. No conseguia crer no que Paula 
dissera, que o "final feliz" da correria pelo aeroporto fosse uma coisa de Deus.  claro que no queria que o restante do passeio se convertesse numa constante batalha 
emocional com a amiga. Pouco antes de aterrissarem em Honolulu, decidiu ento qur faria de tudo para mostrar a ela a diferena entre o certo e o errado, verdade 
e mentira. Afinal de contas, Cris era crist e Paula, no.
      A primeira coisa que notou quando desceram do avio, foi o doce perfume que se espalhava pelo ar. Passava do meio-dia quando chegaram, e soprava uma brisa 
quente, parecendo blsamo. Era exatamente como imaginara, pelo que tinha visto nos filmes e pela idia que fazia da atmosfera num ambiente tropical.
      Mas o cheiro de flores flutuando no ar surpreendeu. A fragrncia maravilhosa vinha de jovens polinsias vestidas a carter, braos cobertos de leis*, que elas 
colocavam no pescoo de alguns viajantes que desembarcavam.
      * O lei  um colar de flores, tpico do Hava. (N. da T.)
      Seguindo a sinalizao, as meninas marchavam atrs da me, que as conduziu diretamente para as Linhas Areas Aloha, apresentando os cartes de transferncia 
de vo que haviam recebido em Los Angeles. Logo depois foram conduzidas para um avio quase lotado, e, mal se acomodaram nos assentos, o avio decolou.
      - Foi uma conexo muito prxima! disse a me, virando-se para falar com Cris. Marta e David foram diretamente a Maui. Nosso atraso em relao a eles  de apenas 
uma hora. Talvez at menos.
      - Olhe como a gua  lmpida, comentou Paula ao sobrevoarem o oceano Pacfico. Quase d pra ver o fundo. Alissa morou aqui, disse Cris. Ela me contou que a 
gua  bem morna.
      - Quem  Alissa?
      Durante o rpido vo at a ilha de Maui, Cris falou a Paula sobre Alissa, a lindssima jovem que conhecera na praia de Newport no ano anterior. Havia pensado 
que Alissa era uma pessoa que tm tudo, mas a jovem se envolvera com um monte de rapazes, um dos quais era Sam, o melhor amigo do Ted.
      - O Sam  aquele que morreu no ano passado quando surfava?
      - .
      - Ele no estava drogado ou coisa parecida?
      -  uma longa histria, mas ele estava fumando maconha, sim.
      - E esse cara era o melhor amigo do Ted?
      Cris acenou que sim e continuou: 
      - Em suma, o Sam e a Alissa ficaram juntos durante algum tempo naquele vero, se entende o que quero dizer.
      Cris falava baixinho, sem saber se sua me estaria ouvindo ou no.Paula se aproximou, esperando que a amiga terminasse a histria.
      - Bem, a Alissa ficou grvida e teve uma menina em meados de maio. Deu-lhe o nome de Samantha Cristina, porque Sam era o pai e Cristina, porque ramos mais 
ou menos amigas.
      - E ela est criando o nen?
      - A ltima notcia que tive era de que ela ia tentar cri-la sozinha.
      - Se isso acontecesse comigo, eu a daria para ser adotada, disse Paula categoricamente. Voc no faria o mesmo?
      - No me imagino nunca numa situao dessas!
      - Ningum se imagina, Cris! Mas acontece. Cris abaixou ainda mais a voz, embora por dentro tivesse vontade de gritar:
      - Simplesmente no vai acontecer comigo. S vou pra cama com um homem quando me casar; s com meu marido. No preciso ficar com medo de "acontecer".
      - Eu tambm pensava assim, disse Paula, olhando pela janela com ar sonhador.
      Depois virou-se e, mirando Cris de frente, com seus olhos muito azuis, sussurrou:
      - Sou a nica virgem que conheo, Cris, a no ser voc.
      - Ah, no diga isso!
      - Estou falando srio. De todas as meninas com quem ando sou a nica. Sabe que elas me acham esquisita? Se eu no arranjar um namorado durante esta viagem... 
e ela foi abaixando a voz e voltou a olhar pela janela do avio, encerrando ali a conversa.
      Cris afundou as costas na poltrona e deixou que as palavras de Paula lhe penetrassem a mente. Estava espantada de ver o quanto a amiga tinha mudado. Admirava-se 
de que ela estivesse doida para perder a virgindade, a fim de sentir-se igual s suas amigas. Cris tinha feito amizade com um grupo de garotas crists durante o 
ltimo ano letivo, e todas vinham-se esforando para manter a virgindade com o mesmo empenho com que Paula e suas amigas desejavam perder a sua.
      Sentia-se profundamente chocada com as ltimas frases da Paula. A impresso era a de que recebera uma forte golfada de vento, que modificava a opinio que 
tinha da sua amiga de infncia. No queria que ela acabasse como Alissa.
      A voz calma do piloto fez-se ouvir pelo sistema de alto-falante, anunciando a chegada:
      - Estamos iniciando a nossa descida no aeroporto internacional de Kahului, Maui. Neste momento, so treze horas e Vinte minutos, e a temperatura est na agradvel 
marca de trinta graus centgrados. Esperamos que aproveitem sua estada na Ilha do Vale, e mahalo (muito obrigado) por terem escolhido as linhas Areas Aloha. Aloha.
      Paula e Cris pegaram suas bolsas.
      - Mas que vo rpido! Meu cabelo est um horror! exclamou
      - O meu tambm. Voc tem um espelho?
      - Aqui, tome, falou Paula abrindo a bolsa e mostrando seu contedo  amiga.
      As duas se pentearam, borrifaram fixador e arranjaram o Cabelo rapidamente, procurando ficar mais apresentveis. 
      O avio pousou tranquilamente e da a pouco os passageiros, levantando-se, desciam enfileirados pelo corredor, em direo  sada. A atendente de vo, vestida 
de muumuu e com uma gardnia presa atrs da orelha, sorria e agradecia em havaiano, dizendo mahalo, para cada passageiro. Acompanhando a multido de passageiros, 
Cris, Paula e a Sr.a Miller seguiam comprimidas, dirigindo-se ao terminal, passando por um longo corredor. O olhar de Cris, entre apavorado e empolgado, sondava 
todos os cantos,  procura do Ted.
      Cad voc, Ted?
      -Agora, meninas, vamos ficar juntas, advertiu a Sr.a Miller. Fiquem de olho. Precisamos encontrar o Bob. Marta disse que lhe pediria que viesse nos buscar.
      Procurem o Bob, vocs. Eu procuro o Ted!
      Pararam junto ao porto automtico. A nica "saudao" oficial que receberam da ilha foi um vento quente que soprou na direo delas, desmanchando-lhes o penteado.
      timo! Do que adiantou arrumar meu cabelo? O Ted viu meu cabelo se desgrenhar agora mesmo? Onde ser que ele est?
      Naquele instante, Cris sentiu que lhe punham algo sobre a cabea e em torno do pescoo.
      - Aloha! disse uma voz amiga, vinda de trs. Finalmente chegaram.
      Era o tio Bob, colocando leis sobre elas, entre beijos e muita cerimnia. Cris olhou atrs de Bob, na direo da me, depois por cima da cabea de Paula.
      E o Ted, no veio nos receber? Onde  que ele est?
      Afinal virou-se num giro completo. L estava ele. Alto e bronzeado, encostado numa coluna, um pouco afastado da agitao. Com gestos calmos, ele ergueu a mo 
em que segurava um lei cheiroso de flores de cor clara. Com um sorriso maroto os braos estendidos, parecia convidar Cris para um abrao.
      Dando passos tmidos, Cris afastou-se dos cumprimentos efusivos de Bob e entrou em outra "esfera" onde s cabiam ela e o Ted. Ele se aproximou, sorrindo, calmo, 
e colocou o lei em seu pescoo. Aps o tradicional beijo havaiano no rosto, ela ouviu-lhe a voz vigorosa ecoar na saudao da terra:
      - Aloha, Kilikina!
      Que sonho! pensou Cris, fitando os brilhantes olhos azul-prateados do Ted. O que foi que ele me chamou? Kilikina! Que ser que quer dizer? Ah, Ted, eu queria 
poder dizer tudo que estou sentindo neste momento!
      - Olha ali o Ted! disse a me, estourando a bolha de sabo do sonho dos dois, trazendo-os de volta ao mundo barulhento da realidade.
      Ted agiu imediatamente, tirando outro lei de seu brao e colocando-o no pescoo da Sr.a Miller com o mesmo gesto e o mesmo beijo aloha.
      - Que lindo! Obrigada, Ted. Ah, Ted! Esta  a Paula. Paula, este  o Ted.
      O que Cris viu naquele momento deixou-a aterrorizada. A amiga parecia imobilizada no lugar. Nem piscava. Era bvio que s enxergava o Ted. Nada mais existia 
no seu mundo, exceto o Ted. Ela no sorria. No respirava. Os olhos estavam fitos nele.
      O eco das palavras que Cris ouvira de Paula no avio retornava com o furor de um vendaval que ameaava desabar sobre ela. "Se eu no arranjar um namorado durante 
esta viagem..."
      O Ted, no, Paula! Sem essa! Pare de olhar pra ele assim!
      Bob quebrou o encantamento:
      - Ento, vocs conseguiram o vo seguinte sem problemas, falou ele, como sempre num tom calmo, bonacho.
      Parecia natural da ilha, trajando como estava, camisa de estampa florida, bermuda e sandlias havaianas. Ted tambm estava vestido como "nativo". Parecia ter 
passado a vida toda na ilha de Maui, e no apenas alguns dias. Sem mais, Ted colocou um lei no pescoo de Paula e deu um beijo de aloha em seu rosto. A garota se 
entusiasmou e passou braos em torno do pescoo dele e devolveu-lhe o beijo na outra face.
      Chega Paula! Afaste-se dele! No toque mais nele!
      - Realmente  uma histria e tanto, disse a me aos risos.
      Puseram-se ento a caminho do estacionamento. Paula, cocando-se ao lado de Ted, olhava para ele com uma expresso de Miss Piggy sonhando com o Caco.
      Dessa vez a imagem de Miss Piggy/Caco no provocou risinhos em Cris. Ao invs disso, parecia completamente dominada por sentimentos de cime, inveja e possessividade. 
Agarrou ento o brao de Ted e comentou com ar brincalho:
      - Ento  por isso que voc disse que aos divertiramos! J sabia que eu vinha, no sabia? Como conseguiu guardar segredo, Ted?
      Paula seguiu o exemplo de Cris, pegou o outro brao de Ted e declarou com seu jeito mais exagerado:
      - Voc tem de me ensinar a surfar, Ted! Promete que me ensina, est bem? Promete! Eu preciso aprender a surfar.  meu maior sonho, o sonho da minha vida.
      Coitado do Ted, pensou Cris. Sem aviso-prvio, duas "Miss Piggy" agarraram em voc. Agora depende de voc, Caco-Ted. Qual de ns vai escolher?
      Antes que Ted tivesse oportunidade de responder a qualquer das duas, Bob interrompeu o papo:
      - Marta e Davidj foram na frente no furgo com a bagagem. Ns cinco vamos ter de nos espremer no carro que alugamos.  um trajeto de uns quarenta e cinco 
minutos at o apartamento.
      - No tem importncia, disse Paula com animao. Nem d pra acreditar que j estamos aqui! E essas flores!
      Com a outra mo, ela levou os dois leis ao rosto e os cheirou.
      - Como  o nome delas? perguntou ao Ted. Adorei!
      - Plumeria, respondeu ele. As grandes, brancas e rosas so plumeria, e as pequenas, branquinhas, so tuberosas.
      - Adorei! Tm um cheiro to extico! continuou a moa, ainda agarrada ao rapaz.
      - Voc j tinha me falado da plumeria, disse Cris, puxando de leve o brao do Ted, esperando ganhar dele toda a sua ateno. No eram essas as flores de que 
voc sentia o perfume a caminho da escola quando voc morava aqui?
      - Eram, disse Ted, virando-se totalmente para a Cris. Voc se lembrou do que eu lhe disse?
      Sim, Ted! Sempre me lembro de tudo que voc me disse. No ligue pra ela; olhe pra mim, aquela que  sua amiga h mais de um ano. No deixe a Paula interferir 
em nosso relacionamento.
      Bob parou em frente de um jipe vermelho e disse:
      - Vai ficar apertadinho. O que acham? Vocs trs acham que iro bem ali atrs?
      Paula rompeu num de seus acessos de gritinhos e foi entrando no banco de trs.
      - Um jipe! Que massa! Sempre quis andar de jipe! E vermelho, ainda por cima! Falo srio, gente! Vivo sonhando com isso! Legal mesmo! D pra acreditar? Vamos, 
pessoal! T na hora de botar o p na estrada.
      Permaneceu uns instantes de p no meio do banco traseiro, agarrada  barra de proteo como se estivesse numa corrida de jipe de praia. O vento l no aeroporto 
desmanchara por completo seu penteado, e agora, com as pontas curtas espetando o ar, tinha uma fisionomia ainda mais maluca.
      Bob ajudou a cunhada a se acomodar no banco dianteiro e Paula sentou-se no meio do banco traseiro. Cris ficou parada no estacionamento, furiosa ao ver que 
Paula, com essa manobra, iria ficar junto do Ted. Este j ia tomando o banco traseiro quando tio Bob opinou:
      - Sabe,  s uma sugesto, mas que tal se vocs deixassem quem tem as pernas mais compridas sentar no meio? Como eu disse, vai ficar apertado e quem tem pernas 
compridas pode ficar com cibras.
      Paula se afastou para o lado, atrs do motorista, e disse:
      - Voc ganhou, Ted! Voc tem as pernas mais compridas. Bateu a mo no banco indicando onde ele deveria sentar. Ted sentou-se. Cris entrou um tanto desajeitada 
e se perguntou como a Paula conseguia intrometer-se de forma to graciosa. Bob tinha razo. O jipe era apertado e Cris, a ltima a entrar, descobriu que o espao 
restante s dava para ela sentar de lado, com as pernas cruzadas. Felizmente, sua me conseguiu puxar o banco para a frente, deixando livres alguns centmetros para 
que ela se acomodasse melhor.
      Paula tagarelava, prendendo a ateno de Ted, enquanto Bob manobrava o jipe no estacionamento e descia as ruas estreitas, afastando-se do aeroporto e deixando 
a cidade para trs. A aventura de andar de jipe no calor deixou Cris empolgada por alguns instantes. Ento, Bob pisou fundo no acelerador, voando de passagem pelos 
canaviais que margeavam a estrada. O cabelo de Cris batia em seu rosto sem trgua. Era impossvel ouvir qualquer pessoa falando, a no ser a Paula. Animadssima, 
ela falava aos gritos, e nada a constrangia.
      Atenta  paisagem, perguntava ao Ted o que era isso ou aquilo, e ele respondia s para ela, depois repetia a explicao para Margaret e Cris. Ele apontou as 
plantaes de abacaxi, uma velha usina de acar e o nebuloso cume do Haleakala, uma cratera de vulco de trs mil metros de altura.
      Chegando  beira-mar, ele apontou as ilhas vizinhas de Molokini e Kahoolawe; depois Lanai, a ilha dos abacaxis.
      Entraram num tnel pequeno, cavado em rocha vulcnica, e nesse instante o vento deixou sossegado o cabelo de Cris e ela tentou tirar os fios da boca e dos 
olhos. Paula, naturalmente, no tinha esse problema j que seu cabelo era curtinho.
      A viagem era cansativa mas suportvel. Estar ali no jipe com Ted era uma sensao maravilhosa. Cris ficou aliviada, porm, quando pararam num sinal fechado, 
numa cidadezinha, e Bob disse:
      - Nosso condomnio fica a uns quinze quilmetros daqui. Acham que aguentam esperar at l?
      - Claro! respondeu Paula falando por todos. Ted virou-se para Cris e disse:
      - Aqui  Lahaina.
      - Foi aqui que voc morou? perguntou ela.
      - , quando era garoto.  uma cidadezinha antiga, muito boa, com muita histria. Cento e cinquenta anos atrs os baleeiros e marinheiros passavam o inverno 
aqui. Mas antes disso, antes de os ocidentais virem para c, e comearem a estragar tudo, a realeza havaiana morava aqui. Eles surfavan aqui tambm.
      -  mesmo? E voc, j surfou nesse lugar? 
      Ted fez que sim.
      - Eu e meu amigo Kimo amos l depois da aula, e os garotos mais velhos debochavam da gente porque a prancha do Kimo era comprida, pois fora do pai dele. Coisa 
velha, esquisita. Da um dia um cara veio  praia e ofereceu um dinheiro para o Kimo vender a prancha. Queria coloc-la num museu.
      - Garanto que os meninos maiores pararam de rir dele!
      O sinal abriu e se puseram novamente em movimento, e o vento abafou a resposta do Ted. Mas no apagou sua expresso. Ele olhava diretamente para ela com um 
sorriso profundo, sincero, tpico dele, realando as covinhas do rosto. Estivera descansando os braos no encosto do banco, mas agora pousava a mo direita no ombro 
de Cris, comprimindo-o de leve.
      Cris retribuiu-lhe o sorriso, querendo relaxar-se completamente, expulsar de si quaisquer sentimentos de cime e rivalidade. Sentia-se desconfortvel por causa 
do cabelo castigado pelo vento. E tambm porque tinha certeza de que, quando Ted apertou seu ombro, embora num gesto romntico, ele amassara as flores da parte de 
trs do seu lei.
      Vamos l, Cris, relaxe! Voc est em Maui. Para. que se preocupai com flores amassadas e cabelo desgrenhado? Ele acaba de tocar m seu ombro, no no de Paula. 
Est contente com sua presena!
      Paula no se constrangia diante de nada. Animada, curiosa continuava fazendo perguntas:
      - Aquilo tambm  cana-de-acar, no ?
      Ted concordou e apontou outra coisa no lado dela. Bob passou por diversos condomnios, at, finalmente, chegar ao deles e entrar num estacionamento subterrneo, 
onde parou o jipe ao lado de um minifurgo azul-claro.
      Os gritos animados comearam de novo, ao entrarem no elevador. Faziam piadas sobre o cabelo um do outro. At mesmo o cabelo claro do Ted, que era bem curto, 
estava despenteado.
      As portas dos dois apartamentos do Bob, no sexto andar, estavam abertas e o som de msica havaiana enchia o ar.
      - J chegaram! exclamou Marta com surpresa na voz quando os viu entrar. Parece que faz poucos minutos que ns chegamos. David foi  piscina e eu ia telefonar 
para o aeroporto para saber a hora do vo.
      Um instante aps, Marta assumia novamente o controle do grupo, atribuindo a si mesma a tarefa de distribuir os aposentos. Cris e Paula se instalariam no quarto 
de hspedes, e a me de Cris ficaria na suite do mesmo apartamento. Ted e David dormiriam no quarto de hspedes do outro apartamento, ocupando l Bob e Marta a sute 
principal.
      - Onde est a minha bagagem? indagou Paula. Quero me trocar e correr para a praia!
      Marta indicou o lugar e Paula virou-se para o Ted:
      - Ah, "seu" instrutor de surfe, est pronto para a primeira ala?
      - O grande instrutor de surfe kahuna, interveio Bob, tem a tarefa de colocar papel de parede hoje  tarde. Vocs, meninas, podem ir  piscina. Vamos levar 
mais umas duas ou trs horas para terminar de colocar papel na parede do banheiro.
      - , disse Ted. Duas ou trs horas havaianas.
      - O que  isso? perguntou Cris.
      - Voc vai saber j, j. As pessoas aqui esto no "tempo da lha". Duas ou trs horas no tempo da ilha acaba sendo metade de um dia do tempo normal, explicou.
      A, olhou para Cris, deu um sorriso e acrescentou: 
      - O grande chefe kahuna disse que posso tirar folga amanh se trabalhar bem hoje. Quer ver o que fizemos at agora?
      Cris seguiu o Ted pelo apartamento, admirando as paredes recm-pintadas e ouvindo suas explicaes sobre como fora complicado remover trs camadas de papel 
de parede no corredor. Era visvel o orgulho dele pelo trabalho que fizera, e ela estava gostando disso.
      O rapaz voltou ao trabalho, em companhia do Bob, e Cris retornou  sala. Dali dava para ouvir as risadas de Paula. Ela e David tinham comeado uma guerrinha 
de gua na piscina, l embaixo. Sua me e Marta achavam-se na sacada, chamada lanai, observando o oceano Pacfico com sua colorao azul turquesa.
      Cris se aproximou delas, respirando o ar mido e tropical, notando o cu azul perfeito. Tudo era exatamente como ela imaginava que seria no Hava: palmeiras 
esguias balanando, a brisa, a areia cor-de-caramelo beijada pelas ondas rendadas de branco, espreguiadeiras ao lado de uma piscina cintilante, e Paula nadando 
com seu novo biquini rosa-shocking.
      Paula no novo biquini rosa-shocking!
      O primeiro impulso de Cris foi bem "fraterno": contar  me.
      - Me, principiou com determinao, preciso falar uma coisa com voc.
      - Sim? fez a me parecendo surpresa, provavelmente porque Cris no costumava dirigir-se a ela de modo to categrico.
      - Quer que eu saia? perguntou Marta.
      - No,  algo que as duas precisam saber.  sobre Paula. Sua me e sua tia deram-lhe toda ateno.
      - Primeiro, achei o mai velho dela na roupa suja ontem  noite. Coloquei na minha mala porque no sabia se ela tinha esquecido ou apenas no queria traz-lo.
      - Mas eu lhe comprei um novo, disse Marta olhando pela beirada da sacada. Ela est usando o novo; qual o problema?
      Cris olhou para a me procurando apoio.
      A me explicou que havia falado com Paula que ela deveria vestir a pea inteiria quando estivesse nadando em companhia dos rapazes.
      - Acho que a me dela iria desejar que vestisse um mai mais decente em vez daquele biquini rosa-shocking.
      Marta caiu na gargalhada. No podia acreditar que sua irm fosse to quadrada.
      - Perto dos rapazes! Mas que negcio  esse!  o David que est nadando com ela! Ele ainda nem sabe a diferena entre homem e mulher. Certamente ela no precisa 
usar uma pea inteiria por causa dele!
      Margaret nada respondeu.
      Cris tentou explicar para a tia.
      - No importa se  o David ou... Caco, o sapo! O fato  que ela disse que usaria o mai pra nadar, mas o deixou l em casa. Acho que foi de propsito, porque 
nem deu falta dele quando foi se trocar pra nadar. Simplesmente vestiu o rosa e est nadando com ele.
      Marta lanou sobre Cris um olhar que a fez sentir-se uma abominvel delatora.
      - Acho o traje dela perfeitamente normal. Voc  que est sendo urn pouco infantil, Cristina. Ser que est com inveja do lindo corpo de Paula?
      Cris fez que no entendeu a pergunta e percebeu que no iria conseguir nada com Marta na questo do mai. E no queria tampouco ser comparada com a Paula.
      - Ento esquea o mai. O que eu queria falar mesmo  o aconteceu no aeroporto. Na verdade no fomos perseguidas por ningum. Paula achou que tinha visto um 
ator de cinema, comeamos a segui-lo. A nos perdemos. Foi tudo por nossa culpa.
      Cris sentiu-se melhor depois de contar o que realmente acontecera. O que a deixou confusa foram as reaes de sua me e de Marta. 
      A me deu de ombros.
      - No sei o que dizer, falou. Afinal, acabou dando tudo certo. Acho que o maior problema, na verdade, foi a Marta ter deixado as duas sarem sozinhas.
      - Elas s iam comprar chicletes, Marta justificou-se. Eu achava que elas tinham idade e responsabilidade suficientes para isso!
      - Num aeroporto, Marta? No lhe ocorreu que fosse um pouco arriscado, que elas poderiam se perder?
      A me agora parecia zangada, no com a filha, mas com a irm, que retrucou:
      - Se voc no tivesse chegado to atrasada no aeroporto, nada disso teria acontecido! Teramos tido bastante tempo para tudo. No tente botar a culpa em mim, 
porque foi voc quem se atrasou!
      Seguiu-se uma pausa estranha. A me de Cris ergueu as mos num gesto de resignao, e silenciou. Cris ficou imaginando quantas vezes, no decorrer dos anos, 
sua me no se submetera  irm dominadora.
      - Cris, disse Marta aucarando a voz j sob controle, parece-me que voc est experimentando uma espcie de inveja de irm aqui no caso de Paula. Isso  de 
se esperar. Afinal de contas vocs cresceram juntas. Depois ficaram separadas muito tempo, e assim seria fcil implicar com ela, simplesmente porque ela  diferente 
de voc. Mas isso no  justo com a Paula, no acha?
      Voc. est falando sobre eu e a Paula ou sobre voc e minha me? pensou Cris acenando de leve com a cabea, pois sabia que Marta esperava esse gesto.
      - Agora, continuou Marta aprumando os ombros e levantando o queixo, estamos num paraso e sugiro que deixemos de lado as diferenas passadas e s pensemos 
em nos divertir juntos esta semana.
      Com um sorriso largo e um ar de confiana que repercutiram como uma pontada no corao de Cris, Marta virou-se para a irm e disse:
      - Que tal arranjarmos algo para beber? Coca diet? Cris,  melhor voc descer at a piscina e comear a se divertir.
      Cris observou a me seguindo Marta obedientemente at a cozinha, deixando-a sozinha no lanai. Veio-lhe  mente uma poro de palavras iradas, que ela no disse, 
mas que lhe provocaram uma presso na boca do estmago.
      Vocs no esto entendendo! Isso  muito srio! Paula est falando mentiras e se saindo bem. Ela quer um namorado - o meu namorado - e pretende fazer qualquer 
coisa pra voltar pra casa com uma "vitria" pra ter o que contar s suas amigas.
      - Voc no vai para a piscina, Cris? insistiu Marta, da cozinha, com voz aguda.
      Cris teve vontade de gritar: "No! Pare de tentar dirigir minha vida!" Mas segurou a lngua, controlou-se e passou pela me e pela tia sem olhar para elas. 
Dirigindo-se ao apartamento ao lado onde estavam suas coisas, Cris deitou-se no sof.
      Vou mostrar a Paula que perto de mim ela no vai poder bancar engraadinha! Pode at conseguir enrolar os outros, mas a mim, no! Sei exatamente como ela . 
E o Ted tambm vai ficar sabendo!
      De um salto, Cris foi direto  mala e tirou o mai que amiga "esquecera", e colocou-o no meio da cama dela.


"Meus Dezesseis Anos!"
6


      - De onde veio isso aqui? perguntou Paula em tom de acusao, apontando para o mai velho estendido na cama. Ela e Cris haviam regressado da piscina naquele 
instante. 
      - Achei l em casa, respondeu Cris fingindo inocncia. Pensei que talvez voc tivesse esquecido e trouxe. Agora voc ter um mai pra natao, j que s ia 
tomar sol de biquini. 
      Paula nada respondeu, mas seu rosto revelava que internamente estava fervendo. 
      O resto da noite ela no ligou para a Cris e se esforou ao mximo para ser simptica a todos, principalmente ao Ted.
      Bob levou-os para jantar num restaurante de frutos do mar, que ficava bem prximo do condomnio, de modo que foram a p. O ar ainda estava tpido, como na 
hora em que chegaram. Uma brisa doce soprava as mangas curtas da camisa azul de Cris. Ted ia  frente do grupo, ao lado de David, e Cris na traseira com o tio Bob. 
Paula acabou no meio, entre Margaret e Marta, conversando e rindo alto para todos ouvirem.
      No restaurante, Bob, Margaret e Marta se sentaram numa mesa, e Ted, Cris, Paula e David ficaram em outra. 
      - Podem pedir o que quiserem, disse Bob.
      - Quero macarronada ou hambrguer, disse David.
      - David, a especialidade deste restaurante  frutos do mar corrigiu Cris. Voc tem de pedir peixe como todo mundo.
      - Eu  que no vou comer peixe. Detesto peixe! anunciou Paula.
      - Talvez voc goste do peixe daqui, disse Ted, examinando o cardpio. Eles tm uma variedade muito grande e  tudo bem fresquinho. Quer experimentar opakapaka? 
Ou, que tal um hapu'upu'u?
      - No, obrigada! Tenho uma regra: no como nada que no consiga pronunciar! replicou ela dando um sorriso engraadinho. Em seguida fechou o cardpio e declarou:
      - Quero o fil New York, ao ponto, e  isso a.
      - E voc, Cris? indagou Ted.
      Ele estava ao lado dela e involuntariamente Cris j esbarrara no joelho dele duas vezes. Agora que ele a fitava e ela enrusbeceu. Ou quem sabe o calor que 
lhe subiu ao rosto seria do sol que tomara na piscina?
      - Qual foi o primeiro que voc disse?
      - Opakapaka, repetiu o rapaz e aproximando-se mais, confidenciou: No diga nada a Paula, mas  corvina, e.hapu'upu'n  perca.
      Ted sorriu e Cris retribuiu o sorriso. Peixe no fazia a cabea dela. Ademais no conhecia nem corvina nem perca; como ia saber a diferena de gosto entre 
eles?
      - J decidiram? indagou o garom surgindo de repente junto deles.
      Cris precisava de mais tempo. Todos j haviam escolhido, mas ela detestava agir sob presso, principalmente quando no conhecia bem o cardpio.
      David pediu hambrguer; Paula, fil; e Ted escolheu um prato chamado mahimahi, grelhado com rodelas de abacaxi. Agora era a vez de Cris.
      - Acho que eu tambm vou querer fil, ao ponto, por favor Fechou o cardpio e o entregou ao garom.
      - Est vendo? falou Paula em tom zombeteiro. Voc acabou concordando comigo. No se deve pedir nada que no saiba pronunciar.
      A observao soou como uma bofetada em Cris. Mais uma vez, ela parecia estar dizendo: "Eu estou certa e voc, errada." O comentrio que Ted fez a seguir tambm 
no melhorou as coisas.
      - Estou vendo que vocs trs no querem viver perigosamente. Vou ter de ensin-los a relaxar e viver 'da kine como nas ilhas.
      - Eu gosto de me aventurar, Ted. Verdade! disse Paula. S que voc tem de me ensinar.
      Se eu puder impedir, Ted no vai lhe ensinar nada. Fique longe dele, Paula!
      - Acho que ningum pode ensinar os outros a se aventurar, disse Ted com jeito srio. Ou a gente  aventureiro, ou no . Isso no se aprende. E viver 'da kine, 
no estilo das ilhas,  algo que simplesmente se faz. No d pra ensinar ningum a viver descontrado.
      - Por que voc diz esse 'da... o que  mesmo? perguntou David.
      - 'Da kine, respondeu Ted.  o jeito como eles falam "o tipo" no jargo daqui, e que no Hava quer dizer quase qualquer coisa.
      - Que  jargo? quis saber o garoto.
      - Gria; sabe, um jeito tranquilo de falar. Acho que o jargo local  uma mistura das lnguas de todos os povos que vieram ao Hava.  o jeito que eu e os 
meus amigos conversvamos quando eu morava aqui. No na escola. S entre ns.
      - Como um cdigo secreto?
      -  mais que isso. Falar e entender o jargo  um jeito de mostrar aos habitantes deste lugar que a gente tambm mora aqui, no somos apenas um malihini, um 
turista que est de passagem.
      O garom chegou com quatro travessas perfeitamente equilibradas no brao. O fil de Cris estava muito mais que "ao ponto", mais para queimado. Ela comeu um 
pouco, mas acabou desistindo quando o queixo comeou a doer de tanto mastigar.
      O peixe do Ted parecia maravilhoso: uma posta grande de peixe branco com rodelas de abacaxi. Cris desejou ter pedido o mesmo.
      Da prxima vez, vou acompanhar o Ted e fazer o que ele fizer. Se Paula tem o princpio de no comer aquilo que no pode pronunciar, vou ter um tambm. Vou 
pedir o que for a especialidade, do restaurante. Se for "churrascaria" peo carne, mas se for "frutos do mar" peo algo que venha da gua!
      David queria sobremesa, mas a me disse no, porque ele ainda no terminara seu hambrguer. Cris s queria uma camida macia. Fora um dia cansativo, aquele, 
e estavam exaustos demais. Na volta ao apartamento passaram direto pela televiso
      Sem muita conversa, Paula e Cris, to logo pularam na cama, j viajavam pelo mundo dos sonhos, sob o rumor das ondas que lhes chegava l de baixo.
      Ao abrir os olhos e receber em cheio o impacto daquela clara manh de sol, Cris teve a ntida impresso de que dormira apenas uma hora. Um instante depois 
estava definitivamente desperta. O que via ao redor de si era o prprio "dia seguinte", e no um doce prolongamento dos sonhos que tivera.
      Alis, sonho mesmo era este que ela vivia nesse instante, sonho de quem sonha acordado, com um oceano marulhando sob a janela, e um leve sopro de brisa matinal 
afagando-lhe o rosto.
      Estamos no Hava e hoje ... ei! Hoje  o meu aniversrio!
      - Paula! murmurou Cris para o monte de lenis na cama do outro lado do quarto. Paula, acorde!
      Paula no estava na cama, nem no banheiro. Cris vestiu rapidamente um short e uma camiseta, e foi verificar o quarto de sua me. Vazio tambm.
      Devem estar todos no outro apartamento, concluiu, enquanto lavava o rosto e dava um toque de rmel nos clios. Sorriu diante da prpria imagem no espelho.
      Talvez pretendam me fazer uma surpresa de aniversrio durante o caf.
      Pensando nisso, pegou o ferro de ondular o cabelo e depois foi procurar uma blusa mais bonita. Escolheu uma vermelha. Certa vez o Rick dissera que gostava 
dela de vermelho.
      Rick! No acredito que me lembrei do Rick! Estou no Hava com o Ted, no meu aniversrio. O que  que estou fazendo, pensando no Rick?
      Lembrou-se ento do motivo. Durante meses, Rick, um moo alto, bonito, popular, seu colega de escola, dissera que, assim que ela tivesse idade de namorar, 
ele sairia com ela. E acrescentou que nunca se esqueceria do seu aniversrio, 27 de julho, porque tinha marcado no calendrio.
      Cris continuou a arrumar o cabelo, lembrando-se dos seus altos e baixos com o Rick durante o ano letivo. No sabia bem se gostava dele ou no. O que aconteceu, 
no entanto,  que ele viajara com sua famlia  Europa, e ela viera parar justo em Maui. Muito conveniente! Ficava agora cancelada, quem sabe para sempre, a sada 
com ele no to esperado aniversrio. 
      De certa forma, ela se sentiu aliviada. Rick, que acabara de se formar, entraria para a faculdade no prximo ano letivo, iria estudar em outra cidade, e ela 
seria apenas uma lembrana de colegial. Eram tantos e to complicados os sentimentos que nutria em torno dele! Podia agora jog-los no esquecimento, connfirmando 
de vez o fato de que haviam sido "apenas amigos". Guardando o ferro de ondular o cabelo, Cris olhou-se no espelho. Tentou um daqueles olhares que o Rick chamava 
de 'olhos de matar". Levantando o queixo, com voz suave e clara, disse:
      Est bem, Cristina Miller, tente explicar essa a. Se o Rick nada significa pra voc, e nunca significou, por que  que no dia em que faz dezesseis anos, podendo 
pensar em qualquer coisa, foi pensar primeiro Rick Doyle?
      Ele est longe, Cris. Devia estar longe dos seus pensamentos hoje. certeza de que nem se lembra mais de voc. Mas o Ted est aqui, no  mesmo? Agora v at 
o apartamento ao lado e aja como Uma linda jovem de dezesseis anos. Deixe o Ted, no o Rick, fazer com que este aniversrio seja inesquecvel.
      Aps trs breves batidinhas no apartamento de Bob e Marta, Cris tentou abrir. A porta estava apenas encostada e ela entrou saltitando:
      - Bom dia, pessoal!
      Silncio. Sentiu-se como a prpria "Cachinhos de Ouro" da histria dos trs ursos. Com voz bem mais suave, perguntou:
      - Al? Vocs j acordaram?
      Ah, que divertido! E se eles estiverem escondidos no canto, esperando me surpreender?
      Naquele instante, a maaneta da porta do quarto girou e Cris preparou-se para a surpresa. Bela surpresa! Bob, de pijama e roupo, saiu, bocejando como um "Papai 
Urso", olhos meio fechados e cara sonolenta.
      -Ah, Cris! Eu no a vi. Bom dia! falou bocejando mais uma vez. To cedo e j de p - que foi que houve? Ele foi at a cozinha, e ela o seguiu.
      - Pensei, quer dizer,  que... a Paula e minha me no esto l e pensei que elas tivessem vindo pra c.
      Bob mediu o caf no moedor e ligou o aparelho. O maravilhoso aroma do caf encheu o ar.
      - No. Ouvi os meninos sarem mais de uma hora atrs. Suponho que o Ted tenha ido surfar como faz todos os dias. No sei onde os outros esto.
      Cris puxou um tamborete e sentou-se perto do balco, tentando entender o que se passava. Procurou tambm ne revelar seus sentimentos feridos, enquanto Bob 
abria a porta para deixar entrar o sol e a brisa.
      - Lindo dia, disse ele, respirando o ar fresco. No podia ser mais perfeito que isso. T com fome?
      - No, obrigada. No tenho vontade de comer.
      - Quer caf?
      - No, replicou, mas em seguida algo fez com que mudasse de idia. Bem, sim, falou, talvez eu aceite. Tm leite e acar?
      Ele entregou-lhe tudo, e Cris preparou sua primeira xcara de caf. Gostava do cheiro mas nunca o tomava, pois as vezes que o experimentara antes achara-o 
amargo. Mas tentaria colocar bastante leite. J estava na hora de aprender a tomar caf.
      O primeiro gole foi horrvel. Acrescentou mais leite. No adiantou. Colocou mais acar. Afinal a mistura ficou doce demais, parecendo um nctar quente para 
beija-flor e ela conseguiu sorver alguns goles.
      Bob partiu um mamo, retirou as sementes negras, e pingou sumo de limo, e foi comendo s colheradas.
      - Ento, me diga. Ainda no sei. Voc j passou no exame de motorista?
      - Ainda no fiz.
      - Pensei que fosse fazer no seu aniversrio.
      - Hoje  meu aniversrio, respondeu Cris sentindo vontade de chorar.
      Antes que o fizesse, porm, Ted e Paula entraram pela porta, riindo e parecendo compartilhar com ela aquela singular manh de aniversrio que s ela e Ted 
- assim pensara Cris - deviam estar gozando na companhia um do outro. Ted vestia um calo folhado e Paula o biquini rosa-shocking com uma toalha amarrada na cintura. 
Seu cabelo molhado indicava que estivera nadando com Ted. David, tambm molhado, os acompanhara. Pelo menos estivera com eles. O que ajudava,  claro, mas no abrandava 
a raiva e a chateao de Cris.
      - Cris, voc devia me ver! Quase consegui ficar em p na prancha. Se tentasse mais algumas vezes teria conseguido. Vamos ter de tentar de novo amanh, ou talvez 
hoje mesmo, mais tarde. Voc devia ter vindo! Foi to legal! Adoro o mar! Voc tinha razo, Cris, a gua  quentinha.
      - Acho que eu ia gostar, se tivesse ido, disse Cris sem nimo, tentando reprimir um mar de emoes.
      - Tentei acord-la, disse Paula, afofando o cabelo com os dedos sem perceber que estava salpicando o rosto de Cris com areia e gua salgada. Voc simplesmente 
virou para o outro lado e me mandou embora, ento fui. Entenda isso, Cris: voc  uma pessoa de hbitos noturnos. Tem de mudar e tornar-se uma pessoa matinal, como 
eu e o Ted, pelo menos enquanto estivermos aqui! concluiu com um largo sorriso para o Ted.
      Ele retribuiu o sorriso e serviu-se de caf. Em seguida acrescentou:
      - Ela  tima nesse negcio, Cris. Voc tinha de ver. Tem um senso natural de equilbrio.
      E eu sou muito sem jeito. Pode dizer, Ted, diga! Voc mal conseguiu que eu me equilibrasse numa prancha "boogie" nas frias passadas! Eu no tenho mesmo um 
senso natural de equilbrio. Vamos, diga, fale pra todo mundo que sou desajeitada e que a Paula  graciosa!
      - Voltamos porque os meninos estavam famintos, explicou Paula. Ted disse que vai nos levar para uma pesca submarina num criatrio natural de peixes. Ele disse 
que eles gostam de ervilhas congeladas. No  uma loucura?
      A jovem continuou tagarelando, e o jeito como falava acabou deixando Cris irritada.
      - Topo qualquer aventura. E voc?
      Cris lembrou-se do comentrio de Ted no restaurante, na noite anterior, quando disse que ela e a Paula no topavam novas aventuras. Agora dava para perceber 
o jogo da amiga. Ela estava tentando provar ao Ted que era corajosa e que Cris era uma "dondoquinha" medrosa.
      - Ah, estou empolgadssima! Vai ser legal demais! Ted disse que conhece um lugar onde podemos alugar o equipamento de pesca submarina. Ns pegamos um pra voc 
tambm, se quiser vir conosco. Quer vir, Cris? Quer vir conosco?
      - No, no quero nada com pesca submarina! disse Cris, em alto e bom tom. Prefiro ficar aqui mesmo, passar meu aniversrio sozinha no quarto.
      Todo mundo ficou em silncio, olhando para a cara dela. A intensidade, a vergonha, a ira do momento fizeram com que Cris sasse do seu lugar e corresse porta 
afora, na direo do outro apartamento.
      - Cris! gritou a me, quando a viu passar em disparada, correndo para o quarto.
      - Cris! falou a me seguindo-a e parando ao lado da cama, onde a moa se jogara de cara no travesseiro. Que foi que aconteceu? Fui dar uma caminhada na praia 
e quando cheguei, voc tinha sado. Qual  o problema?
      - Eu! replicou ela chorando. Eu  que sou o problema. Est tudo errado comigo. Por que sou to chata?
      A me sentou-se na cama e colocou a mo de leve nas costas da filha.
      - Voc est diferente, Cris. O que foi que aconteceu? Ela no respondeu.
      - Tem alguma coisa a ver com a Paula? continuou a me.
      - Qual delas? perguntou a garota entre soluos. A que eu conhecia ou a nova verso melhorada, a "mulher aventura", que amarrou o Ted no seu dedo mindinho?
      - Ento  isso, disse a me, afastando a mo. Escute bem, Cris, no vale a pena perder uma amiga por causa de um rapaz.  bobagem voc ter inveja da Paula. 
Na verdade, estou at surpresa. Sempre tive orgulho do relacionamento bom e equilibrado que voc mantm com o Ted.
      - Bem, e se o Ted preferir um relacionamento bom e equilibrado com a Paula em vez de t-lo comigo?
      -  possvel. Tudo bem, se for o caso, replicou a me com pacincia.
      Cris virou-se de frente para ela e a encarou:
      - No, no est nada bem! Voc no entende. A Paula est afim de arranjar um namorado, por isso est armando alguma pra cima do Ted.
      - Cris, voc est exagerando.
      - No, me. Voc no entende.
      Cris tentou pr os pensamentos em ordem para explicar  me tudo que sabia. Mas ela no daria importncia. No deu quando contara sobre o mai e da correria 
atrs do ator de cinema no aeroporto. Cris notava, pelo jeito como sua me sorria, que nada do que dissesse teria importncia, no faria diferena.
      - Cris, vou lhe dar um conselho, que minha me me deu quando eu era um pouco mais velha que voc, principiou ela mas logo parou para pensar direito nas palavras. 
Se o destino seu e do Ted  ficarem juntos, nada nem ningum poder separa-los. Se no , nada do que voc fizer adiantar.
      Cris revolvia na cabea as palavras da me, e depois indagou:
      - A vov disse isso quando voc e o pai estavam namorando?
      - No, na verdade eu estava chorando por causa de um rapaz de que gostava, chamado Charles Clawson.
      - O que aconteceu com ele?
      - Ele acabou casando-se com minha melhor amiga, a Pat.
      - Maravilha, me! Voc devia era me animar e no desanimar. A expresso da me era de quem esperava que Cris gostasse da histria.
      - No est entendendo? Deus tinha outra pessoa melhor para mim, que era o seu pai. Na poca eu no sabia, porque ainda no o tinha conhecido. S sabia que 
gostava muito do Charles e queria que ele gostasse de mim.
      Cris suspirou fundo e exclamou:
      -  difcil, me.  muito difcil.
      - Eu sei. E no dificulte ainda mais as coisas, est bem? Um instante aps, Cris se aprumou e disse:
      - Est bem, vou tentar.  melhor eu ir l e pedir desculpas a todos.
      - Vou com voc. Quero ver se o Bob ainda tem caf. D pra sentir o aroma daqui.
      - Gente, quero pedir desculpas a todos, anunciou Cris para o grupo reunido em torno da mesa da varanda, comendo ovos mexidos e torradas. Eu no devia ter agido 
daquele jeito.
      - No se preocupe! disse Paula, arrastando sua cadeira para mais perto da do Ted para dar lugar para a Cris. Se todo mundo se esquecesse do meu aniversrio, 
eu teria feito um escndalo ainda maior!
      - Feliz aniversrio, Cris! disse Bob, dando-lhe um beijo no rosto. Sente-se e vamos tentar comear de novo esta manh maravilhosa. Garanto que ser um aniversrio 
feliz. Quer ovos?
      - Claro, parece que est timo, disse ela, puxando a cadeira para junto da mesa e pondo-se a escutar a conversa.
      Estavam fazendo o planejamento para as atividades do dia. Em vrios momentos Ted procurou atrair-lhe a ateno com o olhar como se tentasse dizer-lhe ou perguntar-lhe 
alguma coisa. Ela no sabia o qu. Mas apesar de no saber, isso fez com que se sentisse mais ligada a ele. Deu-lhe esperana de que o rapaz quisesse continuar a 
manter com ela aquele "relacionamento bom e equilibrado", e que no desejasse nenhum compromisso mais srio com Paula.
      S teve oportunidade de falar a ss com ele  tarde. Os sete entraram no furgo e foram fazer pesca submarina numa praia que Ted disse chamar-se "Rocha Negra" 
por causa da pedra de "lava" vulcnica que adentrava a gua. A pedra era bem alta e a gua funda o bastante para que muitos turistas seguissem o costume havaiano 
de mergulhar pulando da pedra. Ted deu uns trs ou quatro mergulhos e tentou convencer o David a fazer o mesmo, mas o garoto ficou com medo de pular e voltou  praia. 
Cris adorou nadar no fundo. Jogou ervilhas na gua e ficou esperando que os peixes viessem comer em sua mo. Aos poucos, eles foram chegando. Cris ficou maravilhada 
com tamanha profuso de cores.
      Mais tarde, deitada numa bia grande, flutuava nas guas calmas. De repente Ted ps a cabea fora d'gua prximo a ela.
      - Voc viu aqueles amarelinhos? perguntou, tirando a mascara.
      - Gostei principalmente dos azuis e amarelos. Parecem iridescentes debaixo d'gua.
      Ted concordou e em seguida, com seu jeito direto de sempre, idagou:
      - O que  que estava acontecendo hoje de manh?
      - Como asim?
      - Voc deu a entender que estava zangada sobre seu aniversrio, mas na verdade era outra coisa que a estava perturbando.
      - No, no era nada.
      - Cris, falou Ted descansando os braos no lado da bia, voc no sabe mentir. Seus olhos revelam tudo. Ela inclinou o dorso para trs e fechou os olhos, dizendo:
      - Eu s estava cansada.
      -Ah, ? exclamou o rapaz.
      Em seguida virou a bia e jogou-a na gua. Cris veio  tona em meio a risos e espirros d'gua, enquanto Ted tentava subir  bia.
      - No, senhor! Isso, no! disse ela, tentando derrub-lo dela mas sem sucesso.
      Ambos riram, espirrando gua um no outro. Cris passou por baixo da bia e tentou tom-la dele. Ele enfiou a mo na gua, agarrou-a pelo pulso e puxou-a para 
cima.
      - Est bem. Ficamos os dois juntos.
      Ted entrou na gua e descansou os cotovelos numa extremidade da bia, e Cris fez o mesmo do outro lado. No falou nada, mas seus olhos diziam tudo. Entendia 
o que ele estava perguntando e sabia que no poderia mentir.
      - Est certo. A Paula est me apoquentando. Ela est muito diferente de quando ramos amigas l em Wisconsin.
      - Voc tambm mudou.
      - , mas eu mudei pra melhor quando aceitei a Cristo no ano passado. Sei que parece egosmo, e reconheo que no sou perfeita agora, nada disso.
      Ted sorriu. Cris, parecendo adivinhar o que passava pela mente dele, acrescentou:
      - . E parece que demonstrei isso hoje cedo, hein?
      - Ningum  perfeito, Cris.
      - Certo, mas o problema da Paula  que ela no est nem um pouco preocupada em ter uma vida correta. Eu queria que ela se convertesse. Tenho medo que acabe 
como a Alissa.
      - Que acabe como a Alissa? Deus ainda no terminou com a Alissa.
      - O que voc quer dizer?
      - Bem, veja o Sam por exemplo. Ele acabou. No tem mais escolha. Morreu.
      Dito assim, aquilo parecia to brutal. Cris se contraiu interiormente, e esperou que o Ted continuasse.
      - Sabe, orei pelo Sam diariamente durante mais de um ano. At onde sei, ele morreu sem entregar a vida a Cristo. E agora... continuou Ted olhando pensativamente 
o horizonte... acabou para ele. Tem uma palavra em havaiano, pau, que significa isso.
      - Pau, repetiu Cris.
      - Sim, pau. Quer dizer acabou, est terminado, no tem mais chance. O Sam  pau. Mas a Alissa, no; nem a Paula.
      Cris mexeu as pernas na gua morna, sentindo nas costas o calor do sol. Agora entendia o que ele estava querendo dizer.
      - Tenho orado pela Alissa, continuou Ted. Todos os dias.
      - E voc acha que eu devia estar fazendo o mesmo pela Paula? Orando por ela?
      Ted concordou, sorrindo.
      - E am-la do jeito que ela , sem esperar que ela seja como voc quer.
      - Mas isso  muito difcil, Ted. Queria muito que ela se tornasse crist.
      - timo! Tambm quero que ela se converta. Sabe, na verdade  a bondade de Deus que nos leva ao arrependimento, no o castigo. Temos de comear a orar, Kilikina.
      Cris se lembrou de que Ted dissera essa mesma palavra no aeroporto.
      - O que quer disser isso?
      - Kilikina?  seu nome em havaiano. Significa "crist". "Cris" seria Kiliki.
      Do modo como ele falou, parecendo rolar os sons pela lngua, a palavra lembrava o canto de uma ave silvestre. Cris gostou do jeito como ele a pronunciou.
      - Fala de novo.
      - Kilikina.
      - Como voc sabia?
      Ted baixou os olhos, como se estivesse envergonhado de responder.
      - Quando eu estava na terceira srie primria, tinha uma menina haole...
      - Haole? O que  isso? interrompeu Cris.
      - Uma pessoa branca. Sabe, loira, pele clara, olhos azuis. Obviamente no era polinsia. S tinha quatro haoles na minha classe: eu, mais dois caras e essa 
menina, cujo nome era Cristina. Ted olhou para a Cris e deu um sorriso maroto, como o de um garoto de nove anos.
      - Eu estava apaixonado por ela. Na sala de aula, a professora nos chamava por nossos nomes havaianos, e Kilikina foi o primeiro que aprendi.
      Mais uma vez, Cris pensou no quanto ele era lindo, o sol brilhando em seu cabelo, os cotovelos apoiados na beirada da bia, contando a histria do seu primeiro 
amor infantil.
      - E o seu nome em havaiano?
      Ele hesitou ligeiramente e em seguida sorriu e disse:
      -Koka.
      - Koka?
      - Sim, eu detestava quando os meninos me chamavam de Koka Cola.
      Cris deu uma risada e notou que algum fazia sinais na praia, para que voltassem.
      - Aquele ali  o meu tio?
      Ted olhou na direo indicada apertando a vista devido  claridade do mar.
      - , parece que ele quer que a gente saia. Vamos l, eu a empurro at l.
      O momento a ss com ele acabara depressa demais para a Cris. Cada vez que conversava com o Ted, ficava sabendo mais alguma coisa sobre ele, e os dois se tornavam 
mais amigos.
      Deitada de bruos na bia, fitou a enseada brilhante, a praia em curva pontilhada de turistas; e depois os hotis, e atrs deles as altas montanhas de Maui 
com seu halo de nuvens brancas parecendo florzinhas.
      Sempre me lembrarei deste dia. Para sempre. Nunca imaginei que estaria passando o dia do meu aniversrio de dezesseis anos numa ilha tropical com o Ted. Algum 
me belisque; devo estar sonhando!
      No foi preciso que algum lhe desse um belisco. Naquele exato momento, o Ted virou a bia e o banho no fundo foi evidncia suficiente de que ela estava acordada. 
Ficaram atirando gua um no outro, e afinal Cris voltou a sentar-se na bia. Segurando firme, disse:
      - Oi, seu moo, me leve  praia, e nada mais de brincadeiras. Ele parecia uma tartaruga marinha, colocando a cabea fora da gua a intervalos regulares, enquanto 
ia puxando a bia de Cris at a praia. A jovem ria alto, perguntando-se como pudera ficar to irritada de manh e por que pensara que Paula poderia intrometer-se 
entre ela e Ted.
      - Marta e sua me j foram para o carro, disse Bob, meio sem flego, o corpo brilhando pela gua salgada, quando chegaram onde estavam as toalhas. O David 
est daquele lado tentando pegar algum peixe e Paula est ali adiante, conversando com uns rapazes. Precisamos ir embora.
      - Que  que vamos fazer hoje, no jantar? perguntou Cris.
      - Isso vai ser uma pequena surpresa, respondeu o tio dando uma piscadela. Cris, voc pode ir l chamar a Paula? Ted, voc chama o David, est bem?
      Cris correu at onde Paula se encontrava sentada, num, esteira ladeada de dois rapazes. Pelo jeito, estavam gostando do papo. Paula apresentou-os: Jackson 
e Jonathan. Eram de um. banda chamada Teralon.
      - Temos de ir, disse Cris em tom educado. Foi um prazer conhec-los.
      - Hoje vamos a um luau, explicou Paula, pondo imediatamente a mo na boca, os olhos de boneca quase saltando do rosto, e acrescentou com jeito maroto: pa! 
Faz de conta que no ouviu nada, Cris.
      - Ih, Paula! Agora voc est em maus lenis, brincou um dos rapazes.
      -  melhor ir logo. Talvez a gente ainda se encontre.
      - Nunca se sabe, disse o outro cara quando Cris e a amiga se afastavam. Se no for aqui, espero que seja no cu!
      - Eles so cristos? perguntou Cris, olhando por cima do ombro e dando um "tiau" amistoso.
      - E como! Com tanto homem na praia, tive de encontrar logo dois doidos por Jesus pra conversar. So muito bonzinhos, mas s queriam falar no "Senhor", comentou 
Paula abanando a cabea. Primeiro foi o Ted hoje cedo, com uma poro de ensinamentos espirituais, e agora esses caras a. O que  que h?
      Cris deu um sorriso largo, e teve de exercitar muito auto-controle para no cair na gargalhada. Mas Paula viu o sorriso e perguntou:
      - O que foi? O que foi?
      Cris no precisou dizer uma palavra. Paula chegou  mesma concluso que ela. Com voz de quem se aborrecera, exclamou:
      - No me venha dizer que meu encontro com esses caras na praia foi uma "coisa de Deus"!
      - Est bem, Paula, replicou ela ainda sorrindo. No vou dizer.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      

Vamos L, Cris, Mostre Como se Dana a Hula!
7

      - Vamos l, Cris, disse Ted. Experimente um pouco de poi. Pe dois dedos nele, assim. Ted colocou dois dedos na pequena tigela de cabaa de madeira, no meio 
da mesa, e levou uma substncia cinzenta e gosmenta  boca.
      - Parece melequento demais, disse Paula, fazendo careta. Tem gosto de qu?
      Ted lambeu os lbios e enfiou os dedos novamente na tigela.
      - Gosto de... hum!... Gosto de poi!  isso a. Tem gosto de poi Vamos, Cris! A aniversariante que vai a um luau tem de comer poi.
      Cris tomou coragem: meteu o dedo na massa e em seguida levou-a aos lbios.
      - Que que  isso, afinal de contas?
      - Os antigos havaianos comiam. Vem da raiz de uma planta chamada taro. Eles a amassam at ficar assim.
      Cris provou o poi, que tinha a cor e consistncia da cola de papel de parede. Do outro lado da mesa, Paula observava sua reao.
      - No tem gosto nenhum, falou Cris virando-se para o Ted, que estava ao seu lado. Voc comia sempre essa coisa quando morava aqui?
      - J comi muito. Bob, tem bastante poi a do seu lado? 
      Bob, Marta, Margaret e David, todos esticaram a mo ao mesmo tempo para pegar a tigela de poi. Marta foi a primeira a dizer:
      - Aqui, Ted! Pode comer o nosso todo.
      Todos riram e o clima alegre continuou. Cris resolveu aventurar-se e provar coisas que geralmente no comia, como manga em salada de fruta e carne de porco 
desfiada, enrolada folhas de ti, que Ted chamava de laulaus.
      Paula, sem o mesmo esprito aventureiro, no comeu quase nada, exceto arroz branco. Parte de seu problema era a queimadura de sol. Cris, obedientemente, passara 
protetor solar o dia todo, mas Paula se recusara, dizendo que ela se bronzeava com facilidade e nunca se queimava. No atendeu nem mesmo aos avisos de Marta. Parecia 
querer se encharcar do sol do Hava, exibindo sua pela branca na praia, no biquini rosa-shocking. 
      Quando estavam se aprontando para o luau, Cris tinha passado gel de alo vera e agora no frescor do sol poente estava s um pouquinho queimada nas costas. 
Mas o rosto de Paula estava vermelho demonstrando que ela havia tomado muito sol. At os lbios e os olhos haviam inchado. E devia estar doendo muito, apesar de 
ela ter dito, quando iam para o luau, que s estava um pouquinho rosada.
      Ted estava incrivelmente bem de camisa havaiana florida. Como um ilhu, pensou Cris, com aquele rosto bronzeado, o cabelo rajado de sol e os olhos vivos, azul-acinzentados. 
      No foi s a Cris que notou a aparncia do Ted. Paula estava novamente de olhos fitos nele, e, durante o jantar, toda vez que Cris olhava para seu lado, sentia 
que havia algo entre os dois. 
      Na hora em que o espetculo comeou e os danarinos polinsios apareceram no palco com seus trajes cerimoniais, Cris decidira que, fosse qual fosse o jogo 
de Paula, ela tambm iria jog-lo.
      Aplaudiram os danarinos talentosos, e quando o de que David mais gostava, o danarino do fogo, saltou no palco, Cris puxou a cadeira para junto da de Ted, 
a fim de ver melhor.
      Aproveitou, ento, para roar de leve, o brao na camisa dele. No sabia se ele tinha notado ou no. O rapaz parecia totalmente absorto no espetculo.
      O mestre de cerimnias foi ao microfone e pediu aos presentes que mais uma vez aplaudissem o danarino do fogo. Depois perguntou se havia algum aniversariante 
ali.
      David apontou para Cris, assobiando alto. Ela se encolheu no lugar esperando que no lhe pedissem para levantar nem nada. Para alvio seu, s pediram que todos 
cantassem "Parabns" aos seis aniversariantes. Era um tanto divertido ter gente cantando assim, contanto que no fosse obrigada a ficar de p. Nada de envergonhar.
      - Assim foi muito fcil. Pensei que fossem cham-la ao palco, disse Ted.
      Mal ele acabara de falar quando vrios rapazes, vestindo apenas uma tanga e com uma guirlanda de folhas na cabea, entraram correndo pelo auditrio, para selecionar 
pares de dana. Um dos danarinos morenos aproximou-se da mesa e fez sinal para Cris enquanto os tambores batiam forte a ordem: "Vem, vem, vem, vem...!"
      Cris tentou resistir ao convite - afundou-se na cadeira, acenando que "no" - mas sentia o pulso batucar com os tambores.
      - Vamos l, Cris! insistiu Paula. V com ele!
      - No! V voc, Paula! Levem ela sugeriu Cris, apontando para o outro lado. Agora  a sua vez de se aventurar o quanto quiser, Paula.
      - Levem as duas wahines! gritou Ted para o danarino. Leve as duas para danar.
      O danarino ficou firme, estendendo uma das mos para Cris e outra para Paula. Com um vozeiro, disse:
      - Venham as duas wahines!
      E elas foram.
      Os tambores mudaram para um ritmo tpico do Tahiti no momento em que Cris e Paula pisaram o palco, junto com diversas outras "vtimas". Em frente de mais de 
cem pessoas, Cris danava e se mexia, batendo os ps, sentindo-se tola e envergonhada.
      O lei florido pendurado em seu pescoo balanava de um lado para o outro sobre seu vestido de alas, e ela no saberia dizer se estava engraadinha ou ridcula. 
Enquanto no conseguiu alguma coordenao com os ps, tinha a sensao de que parecia uma lder de torcida de futebol do colgio, gesticulando em cmera lenta, e 
no uma graciosa danarina de hula. J Paula, vestindo short branco, sabia danar e balanava os quadris, de olho no parceiro nativo, que a essa altura dera as costas 
para Cris e se divertia tendo Paula como companheira de exibio.
      Os tambores deram uma parada abrupta e o danarino colocou o brao na cintura de Paula, cochichando algo no seu ouvido. Cris no estava disposta a ficar ali 
esperando para ver se algum tinha alguma mensagem secreta para ela. Desceu rapidamente os degraus do palco, e nesse instante percebeu que havia gente com filmadora 
de vdeo. Talvez at mesmo tivessem captado seu momento de embarao no palco.
      Ainda bem que no fiz nada de que pudesse me envergonhar. Podia ter acabado naquele programa das "videocassetadas" mais engraadas da Amrica.
      Agora era a vez das danarinas. Antes de Cris chegar ao seu lugar, elas j se tinham espalhado pelo auditrio. No se surpreendeu ao ver que o Ted foi um dos 
primeiros a ser escolhido. Ao passar por ela, ele deu de ombros e foi seguindo obedientemente a wahine de saiote havaiano.
      Quando Cris se sentou, David riu de deboche, mas Bob, Marta e sua me tiveram para com ela um gesto de afabilidade. Os mesmos elogios foram dirigidos a Paula 
quando ela voltou ao seu lugar.
      Agora era a vez do Ted. Os tambores comearam devagar e as danarinas sacudiam as saias convidando os rapazes a imitar-lhes os movimentos. Como o Ted j conhecia 
a maneira havaiana, Cris recostou-se na cadeira, sabendo que ele iria deixar o auditrio maravilhado com seu excelente desempenho danando a hula.
      Para surpresa dela e o divertimento geral, ele acabou sendo um fracasso total como danarino.
      - Os rapazes no sabem mexer os quadris daquele jeito, disse Paula entre acessos de riso. Olhem s o Ted! Ele  a "estrela" do show!
      Dos oito ou nove homens levados ao palco, Ted era o pior danarino. Um homem grandalho, na primeira fila, firmando a cmera de vdeo no ombro, gravou a cena 
toda. O mais engraado era que Ted, embora parecesse seriamente empenhado em aprender a danar, nem fazia idia de como estava sendo ridculo, movendo os braos 
no ar, muito desajeitado, e balanando os quadris fora de ritmo.
      Antes que a msica acabasse, todas as danarinas formaram um crculo com o Ted no meio. Danaram ao redor dele, e Cris s lhe enxergava os braos, balanando 
no ar.
      - Eu tambm tentaria esconder-me se danasse assim, comentou Bob entre risadas. Surfista ele ; danarino, neca!
      Quando o Ted voltou ao lugar, Bob brincou com ele, batendo-lhe no ombro e dizendo:
      - Todos ns temos nossos pontos fortes e fracos, meu filho. Continue apenas surfando!
      Cris tambm caiu na gargalhada, mas ficou a imaginar se ele no se aborrecia com essa gozao toda. Pelo menos no demonstrava. At fez piadinhas sobre si 
mesmo quando saram do luau e foram caminhando devagar pelo calado cheio de curvas da praia de Kaanapali.
      Cris garantiu um lugar ao lado do Ted enquanto caminhavam. Estava em dvida se deveria segurar no brao dele, como no aeroporto, ou esperar que ele lhe pegasse 
a mo. No luau o rapaz dividira sua ateno entre ela e Paula. Agora, ali, ouvindo o barulho das ondas  sua esquerda e com o cu de veludo salpicado de brilhantes 
acima, Cris sentia-se perdidamente romntica.
       meu aniversrio, Ted! Estou completando dezesseis anos, e estamos aqui, andando na praia em Maui. Voc tem de segurar minha mo e me dar uma ateno especial. 
Tem de fazer isso!
      - Ted! gritou Paula com voz estridente. Me espere!
      Ela afastou-se do grupo de Bob, Marta, Margaret e David e aproximou-se dele, pelo outro lado, agarrando seu brao com as duas mos.
      - Vamos fazer um trato. Voc me ensina a surfar, e eu lhe ensino a danar. No  uma boa?
      A cabea de Cris girava feito louca, sem saber como reagir  situao. Podia agarrar o outro brao do Ted, podia ficar para trs e andar com os outros para 
ver se ele voltaria para busc-la, ou podia virar a "mulher-gato" e arranhar os olhos de Paula. Antes de ela decidir qual seria a melhor opo, Marta aproximou-se 
dos trs e disse:
      - Paula, estou querendo conversar com voc e acho que esta  a melhor oportunidade.
      Deu o brao  moa e puxou-a afastando-a do Ted, adiantando-se vrios metros  frente dos dois.
      timo, tia Marta! Retiro todas as palaras maldosas que pensei de voc. Voc realmente est do meu lado!
      - Eu queria lhe falar, Paula querida, sobre como, com algumas dicas simples, voc pode perder um pouco do regionalismo do meio-oeste e adquirir um estilo mais 
tpico da Califrnia. Primeiro, vamos avaliar o jeito de andar... disse ela, e foi continuando a ministrar suas aulas pessoais de "charme"  Paula que parecia bastante 
inclinada a aprender.
      Cris pensou um monte de coisas para dizer ao Ted, enquanto sentia a brisa acariciar seus ombros, despertando o doce aroma dos leis de plumeria e tuberosa. 
Mas ela no conseguia falar, porque ficava esperando que o Ted lhe pusesse o brao na cintura ou lhe tomasse a mo. Como ele no se animava a faz-lo, ela ficou 
se debatendo sobre um modo de incentiv-lo a isso, mesmo vendo que a me, Bob e David observavam tudo de trs. Sabia que era capaz de ser um pouco mais "pra frente" 
como a Paula. Podia colocar o brao no do Ted e dizer: "Est uma noite espetacular, no? Que cenrio perfeito para o meu aniversrio!  to romntico, no acha, 
Ted?"
      Est bem, Cris, disse para si mesma. Vamos l! Faa alguma coisa. A Paula faria, se fosse voc.
      - Sabe, principiou Ted quebrando o silncio entre eles, e ela aproximou-se mais, para que os outros no os ouvissem. Essa  uma das coisas de que mais gosto 
sobre voc, Cris. Voc no joga sujo, nem descamba no flerte, como tantas outras garotas.
      Ela engoliu o elogio em silncio, como que apanhada de surpresa.
      Se voc soubesse, Ted! Mais um minuto e eu teria entrado no jogo da "Miss Piggy".
      - Mas bem que eu pensei nisso, disse Cris, perplexa em face de tamanha sinceridade.
      - Verdade? indagou Ted olhando-a com um jeito curioso. No que as garotas pensam? Quer dizer, por que elas fazem isso com a gente?
      Cris no se permitiu uma pausa. Se hesitasse, talvez no dissesse as coisas que sentia de verdade, e que muitas vezes desejara dizer ao Ted mas acabara perdendo 
a coragem de faz-lo.
      - Acho que queremos  ateno; queremos descobrir o que o cara est pensando ou o que ele sente em relao a ns.
      - Mas isso est s avessas, disse Ted. Eu acho que o rapaz  que tem de tomar a iniciativa, e a garota deve apenas corresponder. No o contrrio.
      - Mas voc no sabe como a gente se sente, tendo de esperar um tempo at que o rapaz comece o namoro. Se ele no toma a iniciativa a gente acha que ele no 
est interessado.
      - Ento as garotas avaliam o interesse dos rapazes por elas com base no quanto ele toca nelas? indagou ele com a voz mais aguda, denotando surpresa.
      Cris ficou imaginando se os outros estariam ouvindo a conversa. Mas ela estava conseguindo dizer ao Ted tanta coisa que havia tempo desejava dizer, que preferiu 
continuar conversando, mas falando baixinho.
      - Concordo que a garota deve deixar ao rapaz o direito de tomar as iniciativas, mas tambm acho que, s vezes, ele deveria ser um pouco mais carinhoso, por 
exemplo, segurando a mo dela ou assumindo outras expresses daquilo que ele sente por ela. Tudo isso sem muito estardalhao,  claro.
      Cris fitava o Ted e via,  luz fraca do ambiente, uma expresso de surpresa em seu rosto, como se ele nunca tivesse considerado antes a questo.
      - Faz sentido? perguntou ela. O que quero dizer  que, se um cara segura a mo duma garota ou coisa parecida, ela fica sabendo que ele gosta dela. S isso. 
No quer dizer que ele esteja tentando, sabe, se aproveitar dela ou coisa parecida. S significa que ela  muito importante para ele.
      - Interessante. Os rapazes vem essas coisas de forma diferente. Para eles  como se...
      Ele no conseguiu terminar a frase, visto que Bob os interrompeu, o que a deixou vivamente frustrada. Bob sugeriu que parassem na Vila dos Baleeiros e procurassem 
um lugar na varanda do Restaurante Leilani.
      David ajudou o Ted a juntar duas das mesas redondas sob a luz de uma tocha tiki, e puxaram sete cadeiras. O menino correu a sentar-se ao lado dele. E antes 
que Cris pudesse pegar a cadeira do lado, Paula apossou-se dela. Sentindo como se tivesse sido cortada de uma das melhores conversas que j tivera com o Ted, Cris 
sentou de sopeto na cadeira ao lado de Marta.
      - Ah! Cris! ralhou Marta. Isso no  modo de uma jovem sentar-se! Pensei que j lhe tivesse ensinado o jeito certo.
      Felizmente a garonete aproximou-se da mesa e a jovem no teve de responder.
      - Vamos querer sete tortas hula sapeca, pediu Bob para todos. E quantos cafs?
      - Bob, interrompeu Marta, quero apenas um pedacinho da sua, e talvez seja bom pedir s uma para Cris e Paula. As fatias so enormes e extremamente carregadas 
de calorias.
      - No; a aniversariante ganha uma inteira! disse Bob, lanando um sorriso caloroso para a sobrinha, que fazia bico. Hoje ela ganha o que quiser.
      Se isso pudesse ser verdade, eu queria ganhar o Ted todinho pra mim e seguraria a mo dele bem apertadinha, e daria um jeito de lhe dizer o quanto gosto dele. 
Se eu pudesse desejar um presente de aniversrio seria isso.
      Todos, exceto Marta, quiseram uma inteira. Depois, ao ver chegar as enormes fatias de torta de nozes, cobertas de calda de chocolate quente e chantili, todos 
riram reconhecendo que haviam mesmo exagerado.
      - Eu avisei, disse Marta. Agora j sabem por que o nome dessa torta  hula sapeca. Podem comear a imaginar quantas calorias tem neste pedao monstruoso?
      - Vamos cantar parabns e deixar a aniversariante se deleitar com o doce sem sentimento de culpa, sugeriu Bob. Vamos l, querida. Faa um pedido.
      Cris fechou os olhos. Sabia exatamente o que pediria.
      Na volta para o apartamento, ela se sentia empanturrada, mas no queria dar o brao a torcer e dizer  tia que essa tinha razo. Dizia a si mesma que despesdiara 
o "pedido" de aniversrio com algo que jamais aconteceria. Ted nem estava ao seu lado no carro. Ia sentado ao lado de David, no banco traseiro com a Paula pertinho, 
do outro lado.
      - Tem alguma coisa no seu cabelo, Ted, disse Paula.
      Cris, que estava no banco do meio, virou-se ligeiramente para trs, para ver que jogo Paula estaria fazendo agora. A amiga comeou a correr as unhas compridas 
pelo cabelo do Ted,  procura da tal "coisa".
      - Pegou? perguntou Ted.
      - No, acho que no. Est meio escuro aqui, falou ela e continuou mexendo no cabelo curto, clareado pelo sol. Voc tem um cabelo bem legal, Ted.
      Solta ele, Paula! Pare de besteira! O Ted detesta esses modos seus. Voc no vai marcar ponto com ele desse jeito.
      - Que gostoso! exclamou Ted. Um pouquinho mais para a esquerda, disse ele aproximando a cabea, para que ela continuasse coando.
      - Credo! Acho que tem areia no seu cabelo! gritou Paula.
      - Provavelmente. Creio que preciso de umas unhas compridas como as suas para tirar.
      Excelente, Ted! Agora quem  que est se fazendo de besta?
      Cris cerrou os punhos no colo. A imagem da "mulher-gato" voltou-lhe  mente e ela se indagou se algum tentaria impedi-la, caso saltasse do lugar naquele instante 
e enfiasse as garras na Paula.
      Mas haviam chegado.
      Bob estacionou o carro e a procura de areia acabou.
      No elevador apertado, Cris lanou olhares bravos para o Ted. Zangar-se com a Paula era uma coisa. Ela j sabia que a amiga iria fazer todo aquele jogo para 
atrair a ateno do rapaz, embora fosse o aniversrio da Cris. Mas por que ser que o Ted dizia que no gostava quando a Paula partia para cima dele com suas manhas 
e que gostava da Cris porque ela no fazia isso, mas logo em seguida capitulava diante da Paula sempre que ela o assediava? Ser que no enxergava o que estava fazendo 
ao aceitar a ateno dela? No via que com isso fazia Cris sofrer?
      - Vou dormir, anunciou David quando o elevador os deixou no sexto andar. No 'tou me sentindo muito bem.
      - Vamos entregar os presentes da Cris. No quer esperar para v-la abri-los?
      - No, disse David, com a mo na barriga. Estou cheio demais, no d pra ficar sentado. S quero dormir.
      Assim, o menino foi para o quarto enquanto os outros se congregavam no lanai de Bob e Marta para admirar as estrelas. Enquanto conversavam, Cris olhava para 
o mar  frente.
      Tinha de admitir que fora uma linda noite. No queria estragar o que restava do seu aniversrio agindo corno uma pessoa amarga, mal-humorada.
      Perdoa-me, Pai, sussurrou, arrancando a orao do fundo da alma e lanando-a numa brisa repentina que roava a imensa palmeira ao lado do lanai. Por favor, 
ajuda-me a no ser to ciumenta, mas a agir como o Senhor quer que eu aja.
      - Venha c, Cris! chamou Marta da mesa. Tem alguns presentes aqui e todos com o seu nome.
      A jovem respirou fundo e deu um sorriso. Com toda a delicadeza possvel, sentou-se ao lado da tia, interiormente feliz com seus modos elegantes. A noite ainda 
no se acabara. Alguns sonhos ainda poderiam se realizar.
      
      

O Telefonema Misterioso da Gruta Azul
8

      - Abra primeiro o meu! insistiu Paula, sentada, naturalmente, ao lado do Ted. Na verdade, foi a minha me que o escolheu. Espero que goste.
      Mesmo  luz fraca do lanai, Paula parecia horrivelmente queimada de sol.
      - Voc j passou alguma coisa na queimadura? perguntou Marta. Paula, voc realmente abusou do sol hoje. Pode ficar doente, sabe? Seus lbios vo inchar e rachar, 
e a pele vai descascar. Voc usou filtro solar, no usou?
      Paula evitou responder. Tinha a ateno voltada para Cris, que abriu a pequena caixa do presente dela. Era um porta-retratos prateado em forma de corao com 
uma foto. Cris aproximou-a dos olhos para ver melhor.
      - Somos ns. Minha me tirou esse retrato no nosso primeiro dia de aula no jardim.
      Cris ergueu a foto contra a luz e sorriu para as duas meninas, rostos colados um no outro. Ambas tinham uma "janelinha" pois haviam perdido o primeiro dente.
      Ela no saberia explicar por que de repente teve vontade de chorar. O retrato era uma gracinha. Aqueceu-lhe o corao.
      Trouxe-lhe um mar de recordaes da infncia. Nesse instante, sentiu-se mais chegada a Paula, como ainda no se sentira em toda a viagem. No podia ficar zangada 
com aquele anjinho da fotografia.
      - Adorei, Paula. Muito obrigada. Cris deu um abrao na amiga.
      - Aaai! protestou Paula, no momento em que Cris encostou nela.
      - Desculpe.  sua queimadura de sol, no ? De repente aquele momento de emoo se acabou. Surgiu um escudo invisvel entre elas.
      A me de Cris e Marta admiraram a fotografia e a entregaram ao Ted.
      - Quem  quem? perguntou ele, sorrindo.
      - No d pra saber? indagou Cris. Eu sou a da direita.
      Em seguida, a me de Cris entregou-lhe uma sacola de loja, pedindo desculpas por no ter se lembrado de comprar uma caixa e papel de presente. Era uma bolsa 
de praia grande, multicolorida, de palha.
      Cris gostou muito, timo sinal, porque, em geral, ela e sua me no tinham os mesmos gostos.
      - Aqui! falou Ted puxando um tubo de papelo de sob a cadeira. Eu tambm no sou de comprar papel de presente.
      Cris tirou o plstico da extremidade e retirou o contedo do tubo. Era o pster de uma cachoeira maravilhosa, cercada de vegetao tropical. Uma velha ponte 
estendia-se por cima da cachoeira.
      - Que lindo! Obrigada!
      Era mesmo um pster bonito, mas no exatamente um presente pessoal e romntico como a pulseira de chapinha de ouro que ele lhe dera no Natal, onde gravara 
a expresso "Para Sempre". Cris se acostumara com o leve toque da pulseira, sem falar na esperana do relacionamento que ela trazia viva no peito.
      - Voc disse para eu lhe mandar um carto postal de uma cachoeira, e esta  a cachoeira que, bem... e a ele parou, olhando-a com a expresso de quem queria 
explicar algo que  muito pessoal... Bem, concluiu, gosto muito dela.
      Cris sorriu grata, incerta quanto  mensagem velada que ele tentara transmitir-lhe, e enrolou de novo o pster, colocando-o com cuidado dentro do tubo.
      - Mais um presente, Cris, falou Marta com voz cantarolada. Cris sentiu-se meio inquieta, imaginando que fosse agora abrir um presente muito caro.
      - Vocs j me deram o melhor presente de aniversrio, nos trazendo aqui e levando ao luau e tudo o mais! Realmente eu no poderia aceitar mais nada!
      Bob entregou-lhe um envelope, e ela sentiu-se aliviada pensando que talvez contivesse um cheque de uns vinte dlare ou algo fcil de aceitar.
      Era um carto. "Feliz Aniversrio nos Seus Dezesseis Anos!" dizia. Felizmente, nada de dinheiro dentro. S um pedao de papel de forma irregular que lhe caiu 
no colo. Cris o pegou olhou para os tios e perguntou o que era.
      - No d para saber?  uma pista, murmurou Marta. Tente adivinhar.
      -  a fotografia de um carro.
      - Um carro! gritou Paula com um tom de desprazer na voz. Puxa, Cris! Voc  to paparicada e nem sabe disso!
      - Calma a, interrompeu Bob. No  um carro novo.
      - Lembra-se do meu carro velho? perguntou Marta. Cris engoliu em seco.
      - A Mercedes conversvel?
      Paula virou-se e olhou para o mar.
      - Ns trocamos, explicou Bob. Bem, foi mais ou menos uma troca. O fato  que assim que voc estiver de posse da sua carteira de motorista, seu pai ir comigo 
 agncia e entregar o carro dele tambm. Vamos entrar com o carro dele e com a Mercedes para fazer o negcio. Esperamos sair de l com um carro para voc e outro 
para seus pais.
      - No acredito! Obrigada! falou Cris abraando Bob e Marta e depois a me.
      No momento em que Bob falou "quando voc estiver com sua carteira" seu estmago comeou a revirar e agora ela estava com aquela estranha sensao de horror 
e expectativa. Era tanta coisa a depender de seu sucesso nesse primeiro exame!
      
Naquele instante o telefone tocou l dentro do apartamento.
      - Quem poder ser? perguntou Marta. Afinal de contas, seu pai j telefonou hoje cedo.
      - Quer que eu v atender? ofereceu-se Cris, que era a nica de p.
      - Claro.
      - Al?
      Ouviu apenas um rudo forte na linha.
      - Al? Al? disse mais alto.
      Uma mulher falou numa lngua que parecia espanhol ou italiano; a o telefone deu sinal e uma voz masculina surgiu ntida.
      - Al. Eu gostaria de falar com Cris Miller.
      -  Cris falando, replicou, sentindo o corao bater forte, ecoando no ouvido. Que estranho! Quem estaria telefonando pra mim aqui?
      - Cris, sabe quem ?
      Havia um pequeno eco que dificultava a identificao da voz, mas achou-a conhecida. No sabia o que dizer.
      Estava claro que a pessoa a conhecia, sabia que estava em Maui e de alguma forma conseguiu o nmero de seu telefone. De repente ela se lembrou da carta misteriosa, 
annima, que tinha enfiado na bolsa. Ser que era a mesma pessoa que havia escrito a carta?
      A voz do outro lado transformou-se em riso, e ela continuava sem saber quem era.
      - Vou lhe dar uma dica. Voc me deve uma coisa, que prometeu me dar no dia 27de julho. Bem, onde estou j  28 de julho, mas telefonei para lhe dizer que, 
s porque est em Maui, no pode esquecer-se da promessa. Voc me deve uma.
      A voz forte assumira agora um sotaque tipo mafioso e Cris se assustou um pouco, ainda que soubesse que devia ser algum passando um trote.
      - Pretendo cobrar o que voc me deve antes do final das frias, entendeu?
      - Bem, haa...
      Cris tentou levar a conversa na brincadeira, mas havia uma nuvem encobrindo o que a voz dizia.
      - Mas o que  que estou lhe devendo? indagou. 
      A voz riu, no mais misteriosa, mas livre, natural. Voltando ao estilo mafioso, disse:
      - Uma sada, Olhos de Matar. Voc me deve uma sada de aniversrio.
      Cris rompeu em risos, alegre, aliviada, fazendo com que todos no lanai parassem de conversar e olhassem para dentro da sala na direo dela. Ela puxou o fio 
do telefone e se afastou at a cozinha, para se livrar dos olhares dos outros.
      - Rick! Estou admirada de que voc esteja me telefonando!
      - Voc no percebeu mesmo que era eu? perguntou ele no seu tom autoconfiante de sempre.
      - No, no conseguia entender! Onde voc est? Pensei que estivesse na Europa.
      - E estou. Estou na ilha de Capri.
      - Onde fica isso?
      - Perto da costa italiana. Pegamos ontem um hidroplano em Npoles. Vamos para Roma hoje mais tarde e depois subiremos at Florena e Veneza.
      - No acredito! E como conseguiu o nmero?
      - Liguei pra sua casa ontem. Seu pai me disse que voc estava em Maui e deu o nmero. Foi fcil. Voc no achou que eu ia me esquecer do seu aniversrio, achou?
      - Mas, Rick, essa ligao vai lhe custar uma fortuna!
      - Mais ou menos o mesmo que um jantar e cinema para dois em Escondido. Quando sairmos em agosto ns poderemos comparar os preos. Se planejarmos tudo direitinho, 
deveremos ter uma semana de folga antes de minha partida para a faculdade. Ento celebraremos seu aniversrio. Voc pode marcar o dia.
      - Est bem, replicou.
      Sabia que devia continuar falando, mas deu um branco. Sentiu um ardume no rosto, e o corao disparou s de pensar no Rick, s de imagin-lo telefonando da 
Europa. No seesquecera do seu aniversrio. E ela nunca pensara que isso fosse acontecer.
      - Pensei muito em voc ontem. Fomos  Gruta Azul. J ouviu falar?
      - No.
      Ouviu o eco de seu "no", e em seguida Rick continuou.
      - Entramos num barquinho, mescla de barco a remo e gndola. O cara nos levou at um lugar que mais parecia uma caverna e tivemos de nos curvar no fundo do 
barco para entrar, to baixa era a entrada da gruta. L dentro, a gua tem um tom de azul muito diferente. De alguma forma, o sol reflete dentro da caverna. No 
me lembro o que provoca isso, mas tudo l dentro parece azul por causa do sol e do reflexo da gua sobre as rochas.
      - Deve ser lindo!
      - No apenas lindo.  incrvel. Estarrecedor. Era de matar, Cris, que nem os seus olhos. Senti a caverna toda cheia de Cris, falou ele e parou.
      Cris deixou essas palavras romnticas lhe subirem  cabea.
      - Seria l que eu levaria voc no seu aniversrio, continuou o rapaz, se fosse escolher qualquer lugar no mundo inteiro, Cristina. Eu levaria voc  Gruta 
Azul na ilha de Capri.  Houve uma pausa, e Cris teve certeza de que, l do outro lado do mundo, ele devia estar ouvindo as batidas de seu corao pelo telefone.
      Ele voltou a brincar, dizendo: 
      - Vamos ter de verificar todos os restaurantes italianos no sul da Califrnia para ver se existe algum chamado "Gruta Azul". Se existir,  l que vamos jantar 
em agosto.
      Cris respondeu com uma risada.
      - Est bem. Parece que vai ser divertido.
      - E vai, disse o rapaz confiantemente. Procure curtir bem seu aniversrio a, sem a minha presena, est certo? Sei que ser difcil, mas tente!
      - Est certo. Obrigada pelo telefonema.
      - Voc achou que eu no telefonaria? Isso mostra como me conhece pouco, Cris! Vamos procurar melhorar as coisas nas prximas semanas. At l, ciao.
      - At mais, Rick!
      Ela permaneceu absolutamente imvel, por uns instantes, antes de desligar o telefone.
      Que estranho! Por que ele me telefonaria pra dizer todas essas coisas romnticas? Nunca teria imaginado que o Rick fosse fazer isso. Jamais. Talvez eu no 
o conhea, como ele disse.
      Cris voltou para o lanai, sem saber como iria responder quando lhe perguntassem quem telefonara. Que aniversrio mais inusitado! Primeiro, ganhava o carro 
de Bob e Marta, depois vinha o telefone de Rick.
      Felizmente ningum perguntou de imediato sobre o telefonema. Estavam absortos numa discusso; e quando Cris entrou, parecia que Marta levava a todos de vencida.
      - Faa como eu digo, Paula. Tome um banho morno e passe o gel de alos na queimadura. Faa isso agora, seno amannh estar muito pior. V l!
      Paula ps-se de p devagarinho, mostrando assim como lhe doa cada movimento que fazia.
      - Quer ajuda? ofereceu Cris.
      - Pra qu? Abrir a torneira para o meu banho? Acho que me viro sozinha.
      -S pensei... Bob interrompeu.
      - Se precisar de alguma coisa, Paula, pode chamar. Margaret levantou-se, dizendo:
      - Eu j ia voltar ao nosso apartamento de qualquer jeito. Vou com voc, Paula.
      - Mas, por favor, no me toque! avisou Paula ao sair com a me de Cris, seguida de Marta.
      - Vou buscar mais gel de alos, caso esteja acabando o quie tem no banheiro.
      Marta foi, pensou Cris, para se certificar de que suas instrues fossem seguidas a risca.
      - Bem, disse Bob, levantando-se. Estou pronto para encerrar o dia. Posso pegar alguma coisa para vocs dois? Algo para beber?
      - No, obrigada.
      Assim, Cris e Ted se viram a ss no lanai. Bob ligara a televiso instalada atrs da porta de vidro e assistia ao noticirio de p. Ted levantou-se e colocou 
sua cadeira perto de Cris.
      Ficaram em silncio por alguns minutos, olhando o oceano e o cu pontilhado de estrelas. A lua cintilava na crista das ondas. Cris imaginou uma gigantesca 
garrafa de purpurina prateada derramando seu contedo do cu, com seus pequenos flocos grudando-se nas ondas, presos a por uma cola branca espumosa.
      Parou de pensar em Rick e comeou a sonhar de novo com o Ted.
       to lindo! Que noite perfeita, e como  romntico estar aqui com o Ted! Adorei ele ter trazido a cadeira pra mais perto de mim. Era exatamente o que eu desejava! 
O que ser que ele est pensando?
      - Como vai o Rick?
      - Rick? ecoou Cris.
      Ted continuou olhando  sua frente.
      - Foi o Rick, no foi?
      - Sim, mas como voc sabia?
      Ted virou-se e lanou-lhe um olhar que dizia: "Ns, rapazes, sabemos dessas coisas."
      - Ele est timo, suponho. Est na Itlia.
      - Itlia?
      - , a famlia dele est passando as frias l. Ser que o Ted tem cimes do Rick do jeito que eu tenho cimes da Paula?
      Ted continuou olhando para o mar, o queixo saliente, como quando pensava muito ou estava a ponto de dizer alguma coisa profunda. Cris esperou. O rapaz permaneceu 
calado.
      Ento Cris fez uma coisa meio ousada. Sabia que o Bob ainda estava na sala ao lado, assistindo  televiso, mas era o dia do aniversrio, dos seus "dezesseis 
anos", e este o seu desejo: estar sozinha com o Ted. Colocou a mo no brao dele, sobre a cadeira. Ted imediatamente pegou na mo dela, entrelaando seus dedos com 
os dela. Cris sentiu-se aliviada. Acalmada. Com  uma poro de "pedidos" de aniversrio na mente. Esperava que, por ter-lhe estendido a mo, desse a ele a certeza 
de que realmente no havia nada entre ela e o Rick. Pelo menos achava que no.
      Ted correu os dedos na pulseira gravada "Para Sempre", fitando silenciosamente o mar, estudando a escurido, nada dizendo. Cris pensou num monte de coisas 
para dizer, mas ficou calada. Sabia que no devia desculpas a ningum por ter falado com o Rick pelo telefone, e no precisava justificar seus sentimentos, fosse 
por quem fosse.
      Queria encontrar as palavras do corao para dizer ao Ted exatamente o que sentia por ele. Toda vez que tentara explicar, ficou confusa e se sentindo tola. 
Podia escrever acertadamente o que sentia, e o fizera muitas vezes, no seu dirio, mas no sabia falar dessas coisas. Talvez o Ted tambm no soubesse.
      - Est vendo Molokai l adiante? indagou ele quebrando o silncio com voz suave, mas firme.
      Cris sabia que duas ilhas eram visveis do apartamento: Lanai e Molokai. Se sua memria estivesse correta, Molokai ficava a direita.
      - Sim, respondeu, seguindo o olhar de Ted para a direita.
      - Fica a menos de quinze quilmetros daqui. Est vendo aquelas duas luzes?
      - Sim.
      Pela primeira vez Cris notou que naquela ilha escura, escassamente habitada, duas luzes piscavam juntas, como estrelas, na beira do mar.
      - Daqui no d pra ver o que so. S duas luzes parecidas, explicou ele e suspirou profundamente. Acho que o nico jeito de decidirmos com qual das duas queremos 
ficar  aproximar o bastante para ver com nitidez para identificar bem cada uma. Assim podemos fazer uma deciso acertada.  difcil decidir de longe.
      Como uma mquina decodificadora secreta, a mente de Cris girava furiosamente, tentando decifrar a mensagem do Ted.
      Isso tem a ver com o Rick. Certamente o Ted acha que ele e o Rick so como as duas luzes. Que foi que ele disse? Tenho de chegar mais perto pra tomar uma deciso 
acertada.
      Cris aproximou-se mais de Ted, e ele apertou-lhe mais a mo. Seus pensamentos se sobrepunham, confundiam-se; procurou ento coloc-los em ordem, a fim de responder-lhe 
com absoluta clareza.
      Ela lhe diria que concordava, e que essa temporada em Maui vinha a calhar para se conhecerem melhor e se aproximarem mais um do outro. Se ele fizesse algum 
gesto ou declarao a Paula, comunicando-lhe que no se interessava por ela e pretendia passar o tempo ao lado de Cris, todas as difculdades desapareceriam.
      Antes que conseguisse dizer isso, ele soltou-lhe a mo, pulou do lugar e, deixando que se lhe extravasasse pelos olhos o empolgamento de menino, exclamou:
      
-  isso mesmo que vou fazer! Vou continuar seguindo em frente, e pedir a Deus que me mostre qual deve ser minha escolha. Quanto mais perto eu chegar, mais claro 
ficar!
      Ele parecia to contente! Mas Cris ficou ainda mais confusa. Pensara que a mensagem secreta das luzes na ilha se referia a ela. Tudo agora, no entanto, parecia 
indicar que o Ted s estava pensando em alguma deciso que precisava tomar. Mas que deciso?
      - Eu j vou dormir! exclamou Bob, desligando a TV
      - Eu tambm, disse Ted.
      Tornou a olhar na direo das luzes estendendo a mo para Cris. Pegando-a, ela tentou ret-lo na cadeira, para que continuassem a conversar. Mas Ted puxou-a 
para cima, colocando-a de p, e ento ela viu claramente como ele parecia contente com a analogia que criara sobre as luzes da ilha.
      Cris juntou suas coisas, e Ted foi para o quarto, onde David j dormia. Ela voltou para o apartamento ao lado com o corao na mo.
      Por que esse momento mgico terminou to de repente?  como se meu "pedido" de aniversrio s tivesse se realizado pela metade.
      Paula e sua me j estavam dormindo e, em silncio, Cris tambm se preparou para deitar. Enquanto escovava os dentes, lembrou-se da conversa que tivera consigo 
mesma na frente do espelho, naquela manh.
      O que h comigo, afinal? Este aniversrio foi incrvel. O melhor da minha vida. Por que nunca estou contente com o que ganho? Recebi a realizao do meu "pedido" 
de estar junto do Ted. Ganhei a promessa de um carro e um telefonema de surpresa do Rick. Acabei de passar meu aniversrio de dezesseis anos no Hava; por que ento 
me sinto to descontente?
      Ficou acordada bastante tempo aquela noite, "organizando" as idias. O que ser que Ted estava decidindo? Ser que as "duas luzes" eram ela e outra garota? 
No podia ser a Paula. Ou podia? E por que ele perguntara sobre o Rick? Ser que o Ted se oporia, se lhe dissesse que iria sair com o Rick em agosto?
      No seu entender, ela e Ted eram livres para sair com outras pessoas. Ted tinha levado outra menina, de nome Iasmim, para um jantar na noite da festa de formatura. 
Cris nunca sara com ele para algum compromisso mais srio - um jantar a ss, por exemplo. Seus pais no permitiriam que namorasse enquanto no completasse dezesseis 
anos. Agora tinha dezesseis, e podia aceitar um convite formal.
      Mas e, se Ted quisesse namorar firme? A ela no poderia sair com o Rick - ou poderia?
      Provavelmente Ted nunca pediria para namorar firme.
      E se o Rick lhe pedisse? A ela no poderia sair mais com o Ted.
      Quanto mais pensava, mais complicado ficava. Na verdade pensou, a vida era bem mais simples quando mais jovem, porque no tinha assim tantas decises a tomar. 
Cris detestava ter de tomar decises!
      Na escurido do quarto, ela apalpou a pulseira "Para Sempre", lembrando-se do calor que lhe subira pelo brao quando Ted segurara sua mo e correu os dedos 
na pulseira. Isso abriu novo rosrio de dvidas.
      Ser que aquela pulseira significava que estavam namorando?
      Cris virou-se de lado e puxou o virol at o queixo. E se sua me estivesse certa? E se o rapaz com quem se casaria fosse outro, algum que ela ainda nem conhecia?
      Veio-lhe uma idia e Cris se ps imediatamente em ao. Saltou da cama e, p ante p, foi at o banheiro levando a bolsa. Fechando a porta com cuidado, acendeu 
a luz. Remexeu na bolsa procurando um pedao de papel.
      A primeira coisa que encontrou foi a carta misteriosa sobre a qual nunca chegara a perguntar a Paula. Ser que era do Rick? No, porque ele teria dito alguma 
coisa quando telefonou. Alm do mais, parecia letra de garota. Cris deixou-a na pea de banheiro para no esquecer de perguntar  Paula na manh seguinte.
      Tirou o bloco que tinha um desenho do Garfield surfando. Pretendia registrar seus sentimentos, como fazia com o dirio. Mas agora, sentada no cho do banheiro 
com as costas apoiadas na parede, escutando o incessante barulho das ondas, teve outra idia.
      Hesitou, mordendo a borracha, encolhendo e distendendo os dedos do p. Ento colocou no papel suas incertezas; colocou tambm as mais ntimas pulsaes de 
seu corao.
      Querido futuro Marido:
      Completei dezesseis anos hoje, e sei que pode parecer estranho escrever-lhe isso agora, mas esta carta  uma espcie de promessa que fao a voc.
      Talvez eu j o conhea, ou talvez ainda no nos conheamos. De qualquer forma, quero me guardar para voc. Quero entregar todo o meu ser a voc, meu corao 
e meu corpo e tudo mais, como presente no dia do nosso casamento.
      Por mais que demore e que seja difcil manter a promessa, prometo que no permitirei que mais ningum me "desembrulhe", para que em nossa noite de npcias 
eu seja um presente que voc tenha prazer em receber.
      Sei que ainda tenho alguns anos pela frente antes de me casar com voc (seja voc quem for).  por isso que desejo fazer esta promessa agora, para que, mesmo 
que namore outros, eu sempre me lembre de que sou uma ddiva reservada exclusivamente para voc no futuro.
      Tambm quero comear a orar por voc, onde quer que voc esteja, quem quer que seja, para que Deus o prepare para mim, e que voc tambm se guarde para mim.
      Eu j  o amo.
      Sua futura esposa,
      Cristina Juliet Miller.

Cortinados e Oraes
9



      - Eu bem que lhe avisei! retrucou Cris quando Paula reclamou da queimadura de sol no dia seguinte. Voc devia ter passado protetor solar, como todo mundo aconselhou. 
J viu seus lbios? Incharam tanto, que dobraram de volume.
      - Ento, "Senhorita Certinha", replicou Paula sentada na beira da cama, segurando uma toalhinha molhada sobre o peito e deixando as palavras voarem, velozes 
e furiosas. No venha me dizer que nunca na vida levou queimadura de sol! Sabe qual  o seu problema, Cris? Voc acha que  to certinha sobre tudo. No era assim 
antes de virar crist, ou sei l como se chama sua religiosidade. Voc era mais divertida. Agora  uma garotinha mimada que sai por a condenando todo mundo que 
no  perfeito como voc!
      - No  assim, no!
      -  sim, voc faz exatamente isso! Voc e seu perfeito mundo de sonhos. Sem essa! Quem mais escreve cartas para seu futuro marido? continuou Paula com voz 
fanhosa, arremedando: "Estou guardando o meu corpo para voc, querido.  um presente perfeito somente para voc!"
      Cris saltou da cama e pegou o bloco de Garfield, que esquecera no banheiro e que Paula, obviamente, havia encontrado.
      Balanando o bloco na frente de Paula, avisou:
      - Isso foi de uma tremenda grosseiria, Paula! Pare de fuar nas minhas coisas!
      - Ei! a me interrompeu a discusso. O que  que est acontecendo aqui?
      Nenhuma respondeu. Os seus olhos faiscavam continuando a trocar mensagens cheias de raiva, que a me no enxergava. Margaret olhou primeiro para Cris, depois 
para a Paula, e numa voz calma e maternal disse:
      - Suponho que isso tinha de acontecer. Vocs duas sempre pareceram mais irms do que simples amigas. Por que agora vocs no tentam dar um pouco de espao 
uma  outra, hein?
      - Tudo bem comigo, disse Paula com firmeza. Margaret olhou para ela.
      - Hoje voc no poder pegar sol, Paula. Ontem exagerou e se no se cuidar vai adoecer. Agora vocs duas resolvam as diferenas e dem um pouco de espao uma 
 outra, falou e cruzou os braos, esperando a resposta delas.
      - Desculpe, disse Cris com meiguice.
      - Desculpe, murmurou Paula dizendo as palavras esperadas como se fosse uma garotinha.
      Satisfeita, a me se afastou. Cris ergueu o bloco na cara de Paula e sussurrou entre os dentes:
      - No pegue minhas coisas!
      - No as deixe jogadas por a.
      Cris pegou as roupas e foi ao banheiro trocar-se. No momento que fechou a porta, vieram as acusaes: pssima crist e mau exemplo como amiga. Devia era testemunhar 
para Paula, no afast-la de vez!
      Os sentimentos de culpa ficaram a incomod-la o dia todo. Foi nadar na piscina e depois no mar, com o David, at o meio-dia. Ato contnuo, sem interromper 
a Paula, que havia montado sua "barraca" no sof, onde passou o dia vendo televiso, Cris tomou um chuveiro e trocou de roupa. Depois, em companhia da me e de Marta, 
foi almoar em Lahaina.
      Caminharam pela rua Beira Mar, parando de loja em loja, e acabaram dando num restaurante ao ar livre, onde comeram salada numa mesa na calada.
      Margaret e Marta conversavam sobre os barcos que viam na baa de Lahaina. Ento comearam a falar de um parente operado de vescula - um tio de Cris que ela 
nem conhecia.
      Cris desligou-se da conversa e ficou olhando as dezenas de caranguejinhos que corriam por entre as pedras bem abaixo de onde estavam. A tarde era um tanto 
sonolenta e o lugar parecia cenrio de filme.
      Enquanto faziam compras, Cris apreciava as aves tropicais de cores vivas que subiam e desciam em seus poleiros como se fossem o "imediato" de algum capito 
pirata. Gostou demais das rvores de plumeria que vira perto da pequena biblioteca pblica. Enchiam o ar quente da tarde com uma fragrncia pesada e doce.
      Mas apesar de todo o encanto do vilarejo, e de o ar da tarde estar impregnado de algum perfume extico, ela sentia-se mal, meio "pra baixo".
      Parece uma piada de mau gosto, disse aos caranguejos que nada entendiam, estar aqui com o Ted e a Paula - as duas pessoas que considero meus melhores amigos 
- e sentir-me to s. Sei que o Ted tinha de trabalhar na pintura hoje, e no foi surfar cedo, por isso no passei nenhum momento em companhia dele. Mas eu queria 
descobrir do que  que ele falava ontem  noite. O que ser que. ele ainda est tentando decidir?
      Quanto a Paula, era melhor que no tivesse vindo, que houvesse permanecido no Wisconsm mesmo. Assim, seus modos atuais no interfeririam em nossas lembranas 
de infncia e continuaramos sendo uma para a outra o que sempre imaginramos. Mudamos muito. Tarde demais para recomearmos.
      Desejava que, em vez da Paula, tivesse vindo a Katie.
      - Pronta para voltar s compras? perguntou Marta, interrompendo a carranca pensativa de Cris.
      - Creio que sim.
      - Voc no deseja levar algumas lembranas para as amigas? insistiu Marta.
      - Sim, quero ver se acho alguma coisa para a Katie.
      -  uma pena que Paula no tenha podido vir conosco, comentou a tia enquanto contava o dinheiro que pretendia deixar de gorjeta.
      - Ela precisava de um dia para tomar flego, disse a me de Cris. Com a diferena de fuso horrio, as mudanas de tempo e temperatura e a queimadura horrvel, 
acho que precisava de um dia de descanso completo.
      - O que voc comprar para a Katie, podia comprar tambm para a Paula, sugeriu a tia.
      No fundo, Cris no tinha a menor vontade de fazer isso. No queria fazer nenhum favor  moa. Afinal de contas, Paula no fizera nada de bom para ela! Mas 
acabou comprando uma pulseira de conchas brancas para a amiga, na primeira loja em que entraram. Na realidade, foi Marta que a comprou e a escolheu tambm. Para 
satisfazer a tia, Cris concordou com a opinio dela de que Katie no era o tipo de pessoa que gostava dessas pulseiras, mas provavelmente Paula adoraria. Marta comprou-a 
e Cris esperava que isso encerrasse o assunto.
      Tendo percorrido mais algumas lojas, Cris encontrou uma camiseta da Universidade do Hava e adquiriu-a para a Katie. Marta insistiu em comprar trs, para que 
Paula, Katie e Cris tivessem camisetas iguais. Cris concordou desde que pudesse lev-las em cores diferentes, reservando a cor-de-rosa para si.
      S por brincadeira, comprou tambm um saiote havaiano para levar para a Katie.
      Com as mos cheias de sacolas, voltaram at onde haviam estacionado o carro. Passaram por um velho sobrado branco com a fachada ornada de verde e uma placa 
que dizia "Lar Missionrio dos Baldwin, 1836. Museu aberto diariamente."
      - Vamos entrar? pediu Cris.
      -  s uma casa velha transformada em museu, disse Marta. Os missionrios a construram quando aqui chegaram. Duvido que voc ache interessante, Cris.
      - Pois eu acharia muito interessante. Parece uma casa legal. Gostaria de visit-la.
      - Eu tambm, disse a me.
      Por alguma razo, Marta ficou irritada.
      - Ento vo. Mas tm de pagar ingresso; no  de graa, explicou. Eu espero aqui fora.
      Do jeito que ela falou, Cris pensou que o ingresso fosse carssimo.
      Cris e a me pagaram a entrada: dois dlares.
      Cris pensou: Voc  muito engraada, tia Marta! Deixou bem mais que isso na gorgeta!
      Por dentro, a casa parecia bastante americana, nada tropical. O assoalho era de madeira. Na mesa ampla, a tpica loua azul e branca. As camas eram antigas, 
cobertas de colchas de retalhos feitas  mo.
      A visita comeou pelo quarto; onde Cris notou os enormes cortinados sobre a cama. A guia explicou que os marinheiros, que passavam o inverno nas ilhas, desprezavam 
os missionrios porque esses desaprovavam a vida imoral deles.
      - Dizem que no havia pernilongos por aqui, explicou ela. Um dia alguns marinheiros, para vingar-se dos missionrios, jogaram um barril de gua estagnada no 
canal que passava perto da casa deles. Eles o tinham trazido do Mxico de navio. Estava repleto de larvas de mosquitos. Foi assim que os pernilongos povoaram a ilha.
      - Que coisa mais idiota! resmungou uma mulher do grupo de turistas.
      - Algum andou dando tiros nos missionrios tambm, mas ningum morreu, continuou a guia. Vejam s, no foram os nativos havaianos que os atacaram, mas seus 
conterrneos americanos.
      - Como eles reagiram? Revidaram os ataques?
      A guia sorriu como se j tivesse ouvido essa pergunta:
      - Vocs devem se lembrar que eles eram cristos tementes a Deus, provenientes da Nova Inglaterra. Ficaram firmes naquilo que acreditavam ser moral e biblicamente 
certo. Dizem que a nica vingana deles foi orar pelos inimigos.
      Durante o restante da visita, Cris desligou-se um pouco do que a guia dizia. Impressionara-se com sua informao de que os missionrios, cristos tementes 
a Deus, oravam por seus inimigos.
      O Ted disse  Cris que orava todos os dias pela Alissa, e que ela devia orar pela Paula. Embora concordasse com o Ted achando que isso seria uma boa ideia, 
no havia orado uma nica vez pela jovem. No que ela na verdade fosse uma inimiga. Era amiga, assim como os marinheiros deviam ser amigos dos missionrios americanos 
embora a diferena de padro criasse uma separao entre eles. De certa forma, Cris sentira uma separao entre ela e Paula, quando da escolha de trajes banho e 
na questo de perder a virgindade.
      Quando se reencontraram com Marta e voltaram ao carro, Cris imaginou as ruas de Lahaina cheias de gente, com marinheiros beberres lanando insultos para uma 
missionria, que passava, uma mulher de vestido de manga comprida e chapu de abas baixas, que ia orando por eles.        
      Cris estava ansiosa para conversar com o Ted sobre isso tudo, saber dele como devia orar. Uma coisa era dizer que ela deveria orar pela amiga, outra coisa 
ensinar-lhe a orar.        Em dado momento, chegaram a uma imensa figueira, e Marta insistiu em que atravessassem a rua e entrassem no Centro de Cinema do Cais de 
Lahaina. Conduziu-as ao subsolo, andando firme como uma pessoa que sabia exatarnente o que queria. E na verdade sabia, pois entraram numa lojinha em cuja fachada 
se lia: "O melhor iogurte do pas".        
      - Esse  o nico iogurte gelado de que gosto, anunciou Marta. A musse de chocolate branco daqui  absolutamente divina. Podem pedir o que quiserem. Eu pago.
      Cris pediu ao simptico atendente um iogurte pequeno de chocolate.
      - Quer cobertura? perguntou ele, sorrindo, os dentes brancos aparecendo sob o bigode. As nozes so 'ono no iogurte de chocolate.
      - 'Ono? perguntou Cris.
      - O mximo, disse ele, pronto a despejar uma colher repleta de castanhas sobre o iogurte.
      Cris detestava nozes. Sempre detestara. Costumava chupar a cobertura de chocolate dos amendoins e jog-los fora. Mas nesse momento, sentia vontade de aventurar-se.
      - Claro, pode pr. Vou provar essas castanhas. O rapaz estava certo. Eram 'ono! Ao raspar a ltima colherada da tacinha, Cris sentiu orgulho de ter se aventurado 
a provar uma coisa nova. O Ted ficaria satisfeito de ver. De volta ao apartamento, encontraram Paula dormindo e Ted ainda pintava. Ento ela sentou-se ao lado de 
David, e assistiu ao final de um desenho animado antigo. Da a pouco, ela dormia tambm, e s uma hora mais tarde foi despertada por Marta que sugeriu fizessem uma 
caminhada vespertina na praia.
      Bocejando sem parar, Cris calou as sandlias havaianas e foi se juntar  Marta, sua me e David, que estavam  porta. Ted, que deixara o banho naquele instante, 
e estava de short e camiseta de windsurf, veio da cozinha e chegou perto deles no momento que Cris ajeitava o cabelo.
      O rapaz dirigiu-lhe um sorriso e comentou:
      - Parece que voc tirou uma boa soneca. Ela poderia ter entendido o comentrio como uma crtica  aparncia, mas resolveu no ligar.
      - Eu desmaiei.
      - O Bob fica para limpar as coisas, disse Marta, e a Paula disse que desta vez prefere no ir. Mas estamos todos prontos.
      Ted caminhou ao lado da Cris at o elevador.  medida que o sono ia fugindo, ela se lembrou do que pensara  tarde e ficou ansiosa para conversar com ele sobre 
aquilo. Embora fosse coisa de somenos, queria lhe contar que tinha comido castanhas no iogurte.
      - Acho que no vou, no, anunciou Ted de repente, enquanto a porta do elevador se abria e os outros entravam. Vou dar uma olhada na Paula e ajudar o Bob a 
terminar a limpeza.
      Logo a porta se fechou e o elevador desceu com eles para o trreo.
      - Se o Ted no vai, eu tambm no vou, disse David. Vou voltar pra cima.
      - No precisa subir no, David. Venha conosco e me ajude a catar umas conchas, disse a me.
      - Eu no quero ir! choramingou o menino. Deixe eu voltar?
      - Pode voltar, respondeu Marta falando pela irm.
      O elevador parou no trreo e Cris, Marta e Margaret saram, enquanto David voltava ao sexto andar. Cris percebeu que sua me a observava tentando ler seus 
sentimentos, e se esforou por escond-los dela.
      No entanto, sabendo que Paula e Ted estavam juntos, sozinhos, era-lhe impossvel apreciar o pr-do-sol ou o jeito gostoso como a areia morna deslizava sob 
seus ps, entre os dedos. A caminhada lhe pareceu muito comprida. Margaret e Marta, muito contentes, catavam conchinhas que encontravam, e Cris simplesmente as acompanhava, 
s de vez em quando se abaixava para pegar uma concha e coloc-la no bolso do short sem mesmo olhar o que pegara.
      Na volta, Marta passou junto  piscina do prdio, e comeou a conversar com algumas pessoas, mas Cris subiu direto para o apartamento. Bob estava lavando os 
pincis.
      - Ol! Cad o pessoal? indagou ela tentando disfarar a ansiedade e a desconfiana falando em tom alegre.
      - Mandei o Ted comprar pizza no outro lado da rua. Talvez a Paula tenha ido com ele. David est no banho. Mas tambm, acrescentou ele, acho que no era com 
o David que voc estava preocupada, era?
      Cris sorriu e foi para o quarto olhar-se no espelho. Um pouco mais de maquiagem, algumas escovadas adicionais para deixar o cabelo mais cheio, uma borrifada 
de perfume. Pronto! Se o Ted estivesse querendo decidir entre as duas, ela se esforaria ao mximo para tornar-lhe a escolha mais fcil.
      - A pizza chegou!
      Cris ouviu a me gritar e saiu do quarto, encontrando todos no lanai, prontos para comer.
      Paula, aparentemente restaurada, aps um dia de descanso, voltara a ser a garota divertida e faladeira de antes, e estava sentada no brao da poltrona do Ted, 
comendo uma fatia de pizza.
      Cris pegou um pedao de pizza, colocou-o num prato de papel e foi sentar-se no nico lugar que sobrara, a cadeira reclinvel. Tinha a sensao de estar separada 
dos outros por uma tela invisvel. A conversa ao redor da mesa se animara, mas ningum se dirigiu diretamente a ela.
      Como  possvel que eu esteja aqui com minha famlia, e meus amigos e me sinta to desesperadamente s?
      Depois de comer trs fatias grandes, Ted se levantou para ir deitar-se.
      - Boa noite pra todos! disse. Bob olhou o relgio.
      - J so nove horas!  por isso que estou com sono. Ted, que tal voc tirar uma folga amanh? Praticamente terminamos toda a pintura hoje. Posso dar os toques 
finais sozinho. O rapaz estava de p ao lado da porta de tela.
      - Legal. Talvez seja um bom dia pra ir a Hana. Boa noite, pessoal!
      Ted tinha passado o dia inteiro perto da Paula. Ser que fazia parte do seu processo de deciso? Talvez planejara passar ao lado dela esse tempo todo s para 
descobrir de quem gostava mais. Cris nem quis comer o resto de sua pizza.
      - Onde  Hana? perguntou Margaret.
      Bob explicou que Hana era uma pequena comunidade do outro lado da ilha e que Ted dissera ter ido acampar l com seu pai anos atrs.
      - Parece ser um bom passeio para a garotada, comentou Marta. Eles podem ir de jipe. Eu e Margaret faremos mais algumas compras.
      - Resolvido ento, disse Bob, de olho no ltimo pedao de pizza. Algum quer mais pizza?
      Cris pediu licena e foi dormir, preferindo a agonia da solido a arriscar-se a ter outro confronto com Paula. Sabia que deveria ler a Bblia e orar antes 
de dormir, mas queria que pensassem que estava dormindo. Ficou deitada, quieta, um bom tempo, olhando a parede. Quando caiu no sono, sonhou com a vida solitria 
da missionria virtuosa de Lahaina muitos anos atrs.


Como se Chega s Cachoeiras?
10

      Na manh seguinte, Paula agiu como se nunca tivesse havido tenso entre as duas. Elogiou o cabelo de Cris, quando ambas estavam no banheiro e pediu  amiga 
para passar gel de alos nas suas costas.
      O vermelho vivo da pele de dois dias suavizara-se assumindo um tom rosado leve. Os ombros comearam a descascar.
      - Tenho de confessar que quando vim pra Califrnia nas frias passadas, tia Marta ficava mandando eu passar protetor solar e eu no atendia. Tambm me queimei 
demais. Passei um dia deitada no sof, como voc, s que reclamei muito mais e a nica coisa que eu fazia era beber gua gelada.
      Paula riu-se.
      - Por que no me contou?
      - Sei l. Voc parecia to decidida a se bronzear. Algumas coisas temos de descobrir por ns mesmas.
      - Cris, isso  exatamente o que tenho tentado lhe dizer, falou Paula fitando os olhos de Cris no espelho. Voc me conhece o suficiente pra saber que sou o 
tipo de pessoa que gosta de descobrir as coisas sozinha. Quer dizer, mesmo que voc tenha razo com relao ao protetor solar e outras coisas, tenho de aprender 
por mim mesma.  assim que sou.
      - Eu sei; tambm sou assim.
      - No, voc ainda no entendeu! Quero dizer, faa um favor a ns duas e pare de me encher sobre religio!
      - Sobre religio!
      Paula elevou seu tom de voz:
      - Desde as frias passadas voc no pra de pegar no meu p. Primeiro nas cartas, e agora, que estamos juntas, continua dando uma de certinha, de infalvel! 
Como esse negcio de trazer meu mai velho pra c! Voc tem um padro de vida to perfeito!... Pode ser bom pra voc. E talvez voc esteja certa at mesmo sobre 
Deus e tudo o mais. Mas tenho de tirar minhas concluses por mim mesma.
      Cris piscava, nervosa, mas sem nada responder.
      Paula abaixou os olhos e tirou o rmel da bolsa, pondo-se a torcer o basto para dentro e para fora.
      - Estava querendo lhe falar isso desde que cheguei. Estou muito contente de finalmente ter conseguido, principalmente porque vamos passar o dia inteiro juntas.
      Comeou a aplicar o rmel e Cris percebeu que a mo dela tremia.
      - Se estiver tudo bem com voc, vamos voltar a ser amigas, do jeito que sempre fomos. E deixe que eu decida sobre minha vida e cometa os meus prprios erros.
      Por um momento reinou o silncio entre elas. Ento Cris o rompeu saindo do banheiro e indo para o quarto. Ps-se a colocar alguns objetos na bolsa de praia 
que sua me lhe dera.
      Eu s queria ajudar voc Paula, e voc nem percebeu! Somos muito diferentes agora. O que  importante pra mim no significa nada pra voc. Como posso deixar 
voc decidir sobre sua vida quando vejo que est prestes a cometer erros bem srios?
      Com passos firmes, marchou at o armrio e tirou duas toalhas de praia. Abraada a elas, fechou os olhos, respirou fundo e tentou se livrar de todas as frustraes 
num grande suspiro.
      Relembrou as palavras de Ted: "Ela no  pau. Voc devia orar por ela", que ficaram a repassar-lhe na mente.
      No instante em que ela ia principiar a orar pela Paula, David e Ted entraram porta adentro. Carregando uma caixa de isopor e as chaves do jipe entre os dentes, 
Ted fez sinal para ela, chamando-a. Paula apareceu, animada e sorridente. Cris resolveu que no deixaria nada estragar seu dia. Mesmo quando a Paula sentou na frente, 
ao lado do Ted e sorriu para ele, Cris se controlou para no deixar que aquilo a abalasse.
      Os quatro se lanaram na estrada com o vento nos cabelos, sendo quase impossvel conversarem. Isso mudou quando chegaram a Lahaina e Ted virou  direita, tomando 
a direo do Centro.
      - Querem ver a primeira igreja construda pelos missionrios iqui? Eu passava por ela todos os dias, ao voltar da escola.
      - Pensei que fssemos s cachoeiras, reclamou David.
      - Isso mesmo! concordou Paula no momento em que Ted diminua a marcha num cruzamento e entrava numa parte da cidade onde havia uma rua estreita com muitas 
casas velhas de madeira.
      - Eu gostaria de ver, disse Cris com firmeza.
      - Olha a igreja ali, falou Ted.
      Parou o jipe sob umas palmeiras altas ao lado de um murinho de pedras. Ali havia uma placa que dizia: "Igreja de Waine".
      - Na verdade esta no  a original. A primeira foi derrubada por uma tempestade, mas eles a reconstruram. Depois, acho que foi derrubada de novo ou queimada, 
e reconstruram outra vez. Os missionrios no desistiram. Continuaram reconstruindo a igreja. Esta ficou porque a construram na posio certa, voltada para as 
montanhas. Assim, quando sopravam os ventos do Kona, era s abrir as portas da frente e dos fundos e deixar que o vento passasse pela igreja at o mar. Boa idia, 
no acham?
      Paula bocejou. Ted sorriu e ligou o motor. Olhou para trs, na direo de Cris, e disse:
      - Estudei isso tudo quando morava aqui. Esqueci que nem todo mundo est to interessado nos primeiros missionrios como eu.
      - Pois eu estou, disse Cris, inclinando-se para a frente. Ontem eu e minha me fomos ver o museu da casa dos missionrios.
      - A casa Baldwin na rua Beira-Mar?
      - . Gostei muito, disse satisfeita, sabendo que marcara um tento em cima da Paula.
      - O primeiro missionrio foi o Reverendo Richardson, disse Ted, apontando o cemitrio ao lado da igreja. Ele foi enterrado ali. Era um homem incrvel. Dizem 
que houve uma epidemia de varola aqui e ele sozinho evitou que a doena acabasse com Lahaina, e nem era mdico.
      - Legal! exclamou Cris que conquistara a ateno do Ted.
      - Isso aqui vai virar um giro turstico ou vamos s cachoeiras? indagou Paula.
      -  isso a, protestou David.
      - Est bem, disse Ted rodando de volta para a estrada principal, de onde foram para o outro lado da ilha.
      Cris recostou-se no banco, satisfeita por saber que mais tarde ela e Ted poderiam conversar sobre os missionrios, s os dois, j que esse era um interesse 
de que Paula no partilhava. Mas no era apenas o interesse em comum com o Ted. Sem saber explicar, sentia-se entusiasmada ao pensar em homens e mulheres que amavam 
tanto a Deus, que no desistiam, mesmo quando os furaces derrubavam a igreja deles. Admirava essa perseverana.
      Um pouco depois do aeroporto, Ted diminuiu a velocidade, para entrar num vilarejo bastante interessante. Antes de chegar l, ele gritou:
      - Aqui estamos na capital mundial de windsurf. Querem descer e olhar?
      - No! respondeu David. A no ser que a gente v nadar.
      - Est bem, David, replicou Ted sorrindo. Vamos chegar a uma cachoeira. Segure firme. A estrada aqui  longa e sinuosa!
      No trecho seguinte, a estrada foi ficando mais e mais estreita. Ao fim de cada curva, j encontravam outra pela frente. O cenrio era exatamente como Cris 
imaginara o Hava do passado, cascatas escondidas em vales acarpetados de samambaias imensas. Flores coloridas cresciam por entre as rochas, aves exticas cantavam 
no topo das rvores, e de vez em quando viam-se casas simples, pequenas, de telhado de zinco, construdas sobre palafitas.
      Ali no jipe aberto ela tinha a sensao de que tudo estava mais perto, como se pudesse esticar a mo rapidamente e colher uma flor ou um ramo ao passar.
      O cenrio era assim por vrios quilmetros. A viagem tambm continuava, infinda, marcada por buracos e solavancos, curvas e mais curvas, passagens estreitas 
a exigir olhos vigilantes e percia no volante. Duas vezes tiveram de parar para deixar outro carro passar, j que havia uma pista s. Cris calculou que tivessem 
viajado umas trs horas.
      - Ser que no podem melhorar essa estrada? exclamou Paula aps uma curva perigosa em que se viu quase atirada contra a parede de rocha vulcnica que havia 
do seu lado.
      - Na verdade, melhoraram. Quando eu e meu pai vnhamos acampar por aqui era bem pior.
      - Como podia ser pior?
      - Havia partes sem asfalto. Era terra e cascalho, e muito barro quando chovia.
      - Eles no facilitam nada para o turista, disse Paula.
      -Acho que a inteno  essa mesmo. O povo daqui no quer ver mudanas. Dou razo a eles. Hana  um lugar maravilhoso.
      - J estamos chegando? perguntou David pela ensima vez.
      - Quase.
      Uns quinze minutos depois, chegavam a uma estrada lisa e larga. Reconheceram que estavam em Hana quando avistaram o vilarejo de pequenas casas que apareceram 
de repente na encosta da montanha.
      Cris viu uma velha igreja branca, com torre alta, e sorriu s de pensar que os corajosos missionrios houvessem alcanado Hana mais de um sculo atrs. Do 
outro lado da rua da igreja, via-se um campo cercado, de relva cor-de-esmeralda, que ia at o sop dos penhascos mais ngremes, que davam para o oceano azul-turquesa. 
O colorido era incrivelmente belo.
      Uma dzia ou mais de cavalos pastavam no "tapete" de esmeralda, o pelo brilhante parecendo mais sedoso que o de qualquer cavalo que ela vira.
      Cris sentia saudade da fazenda onde fora criada no Wisconsin. Mas o pasto de l nunca adquiria esse tom verde vivo, e os cavalos deles eram pretos ou baios. 
Nada do bano sedoso, mbar ou caramelo, como aqueles ali.
      - Cad as cachoeiras? choramingava David. Em vez de responder, Ted levou o jipe a um posto de gasolina, pequeno e antiquado, e encheu o tanque.
      David resmungava o tempo todo.
      - Estou com fome. Quando  que vamos comer? Quanto tempo demora pra chegar? No podemos descer aqui?
      - Pare com isso, David! Parece um bebezo! falou Paula repreendendo-o. No devamos ter deixado voc vir conosco.
      Antes de entrar de novo no jipe, Ted remexeu o cabelo do David, j emaranhado pelo vento, e disse:
      -Acha que voc aguenta mais uma meia hora, companheiro?
      - Meia hora!
      - Ah, puxa vida! Pensei que j estivssemos chegando, murmurou Paula. Voc no disse que levaria o dia inteiro pra chegar a essas cachoeiras. Pensei que dissesse 
que eram uns cento e poucos quilmetros.
      - E  mais ou menos isso. Mas talvez voc no tenha notado que no estamos andando muito depressa.
      - Ento vamos embora logo! ordenou Paula. No d pra acreditar que j passamos da metade do dia e que ainda no chegamos. Nesse ritmo, quando chegarmos, ser 
hora de voltar pra casa.
      - No me diga! exclamou David num gemido. Vamos ter de voltar pelo mesmo caminho?!
      - A no ser que queiram voltar pela estrada de terra, que demora mais, disse Ted, sentando-se no banco da frente e ligando o motor a toda. Vamos l, minha 
gente. Cad o senso de aventura?
      - Viva! gritou Cris espontnea quando Ted fez cantar os pneus.
      Cris estava gostando de tudo. Curtindo de verdade. Se era isso que ele chamava de aventurar-se, talvez ela j pudesse considerar-se uma aventureira.
      - Ah, esqueci de dizer mais uma coisa, disse Ted quando passava por uma enorme plumeria que enchia o ar com sua fragrncia. O trecho da estrada acima  dez 
vezes pior do que o que acabamos de percorrer.
      
      
      
      

A Ponte
11



      - Essa estrada devia ser interditada! gritou Paula. Quanto tempo ainda falta? 
      - Falta pouco. Relaxe! Isto  que  o verdadeiro Hava, disse Ted.
      - Eu preferiria estar l no apartamento, murmurou Paula, cruzando os braos.
      - Pois eu estou adorando tudo! gritou Cris.
      O carro ia devagar e o vento j no soprava; por isso a voz saia bem clara. Ela riu de sua prpria exuberncia e resolveu extravasar todos os sentimentos que 
estavam guardados.
      - Olhem s aqui, gente! exclamou ela.  lindo! No me limporta a demora pra chegar. J viram uma flor crescer assim na pedra? indagou arrancando uma florzinha 
roxa do lado. Eu seria capaz de viver aqui o resto da vida, concluiu aspirando o perfume dela.
      Ted virou-se para ela sorrindo. 
      - Sabia que voc ia gostar.
      Atravessaram devagar uma ponte comprida. Havia algumas pessoas paradas junto ao parapeito, olhando para baixo.
      -  aqui, galera! anunciou Ted. O estacionamento  mais adiante, nesta rua. De l at a cachoeira a gente vai andando.
      - At que enfim! resmungou David, olhando rpido em volta.   s isso a? No tem escorregador de gua?
      - Sinto muito, cara.  tudo natural, do jeito que Deus criou.
      Do seu lado do jipe, Cris s enxergava uma rocha escura e redonda dentro da qual havia uma piscina natural que desembocava no mar. De repente Paula soltou 
um grito fazendo Ted pisar no freio.
      - Olha aquele homem! Ele vai saltar! No deixa, no, gente!
      Tarde demais. Um homem de calo verde furta-cor saltou do parapeito da velha ponte de pedra e mergulhou na gua embaixo.
      - Ah! Ainda bem que tem gua l embaixo! falou ela expressando o que descobrira. Eu no sabia que havia gua l.
      - Nossa! exclamou David. Voc viu aquilo, Ted? Voc j fez isso? J saltou daquela ponte?
      - Ainda no.
      Estacionado o carro, desceram a trilha comprida, ladeada de vegetao, at as piscinas que havia mais embaixo. Caminharam sobre pedras escorregadias, sentindo 
nos ps a gua gelada, e chegaram a um cascalho perto de uma piscina natural bem grande, onde colocaram as coisas. Paula estendeu a toalha e comeou a tomar banho 
de sol. David, num s arranco, tirou a camiseta e os culos e pulou na gua.
      - Algum quer explorar as redondezas comigo? perguntou Ted.
      - Eu no, disse Paula sem nem erguer os olhos. J tive experincia de sobra de exploradores tipo Indiana Jones no caminho pra c.
      - Eu quero! animou-se Cris e seguiu o Ted andando na gua fria.
      Ted apontou uma enorme rocha negra e disse:
      - Olhe,  essa a. Sente-se aqui. O que  que est vendo?
      -  lindo! exclamou Cris. Um cenrio to tropical. Adorei! O que ela no disse era o quanto gostava de ter o Ted todinho para ela.
      - Pode olhar com calma, disse ele colocando o p na rocha junto ao ponto onde ela estava sentada.
      Seu tnis encharcado gotejava sobre a perna de Cris.
      - Olhe bem tudo e diga se voc enxerga.
      Ela examinou longamente os dois lados do cnion, do qual brotavam folhagens e cips. Viu trs piscinas naturais, cada uma desembocando em cascata na piscina 
seguinte. Havia uma quarta que desaguava sobre pedaos de lava negra, e em seguida se derramava completamente no oceano faminto que mandava uma onda atrs da outra 
para beber a gua fresca da montanha.
      - Est falando das cores? Os azuis so muito azuis, e as plantas tm uma tonalidade de verde que nunca vi.
      - No, no. Olhe l em cima, falou Ted apontando algo.
      Cris correu a vista pela imensa montanha de pedra vulcnica, com seus debruns de verde relva descendo at o fundo do cnion onde ela e Ted se encontravam agora. 
Foi ento que se lembrou! Pondo-se de p para melhor ajustar a vista  paisagem, reconheceu-a por fim.
      - A ponte! E a ponte do pster que voc me deu. Deve ser este o lugar de onde tiraram a fotografia.
      Ted sorriu concordando, contente por ver que ela tinha notado.
      - Encontrei aquele pster no dia que eu e Bob chegamos. Num armazm, por incrvel que parea! Comprei trs: um pra mim, um pra voc e um para o meu pai.
      Ele se acomodou na rocha ao lado de Cris e continuou:
      - Eu e meu pai nos sentamos exatamente aqui, nesta pedra, quando eu tinha uns dez anos.
      - Verdade? Que legal!  por isso que voc se lembrou da ponte e comprou os psteres.
      - E tem mais. Lembra do cara que saltou da ponte quando ns estvamos atravessando?
      -  aquela ponte, no ? A mesma em que passamos.
       Ted acenou que sim.
      - Meu pai saltou dela umas duas vezes e queria que eu tambm pulasse. Mas nunca tive coragem.
      - Eu lhe dou toda razo.  muito alta! Qual a altura?
      - No sei bem. Mais de vinte metros, e a gente tem de saber o lugar certo, com profundidade suficiente para cair na gua para no se machucar na pedras que 
h no fundo. Kimo veio conosco uma vez. Ele pulou, mas eu no consegui. Achei que meu pai tinha ficado meio decepcionado comigo, sabe, achando que eu no era homem 
de verdade ou coisa parecida, porque tive medo de pular.
      - Mas voc tinha s dez anos!
      - O Kimo tambm tinha dez anos, replicou ele, olhando para Cris.
      Ela desviou os olhos da ponte e os fitou nos dele. Eram azuis como o cu. Azuis como o mar. Azuis como a piscina de gua pura aos seus ps. Naquele momento, 
olhando-o, ela se deu conta de que havia muito coisa que no sabia sobre o Ted, e muito que gostaria de saber.
      - E ento, o que foi que aconteceu?
      Cris sentia-se um pouco nervosa com a proximidade do rapaz, pois ele a fitava intensamente. Ao mesmo tempo, porm, desejava poder ficar l a tarde toda, conversando 
sem parar.
      - Meu pai me trouxe at esta pedra e ficamos sentados aqui, assim. Ele pediu que eu olhasse para a ponte e sempre me lembrasse dela porque em minha vida haveria 
muitas pontes. Cada uma representaria uma deciso a ser tomada. Depois disse que me admirava por no ter saltado s porque o Kimo saltou.
      - Espera a, interrompeu Cris. Ele disse que admirava voc por no ter pulado?
      - . Ele disse assim: "Para mim no tem importncia se voc nunca conseguir pular. O que me importa  que voc tome suas decises e as cumpra porque foi voc 
que decidiu, e no porque os outros o foraram ou o convenceram." Foi mais ou menos isso.
      Ted fez uma pausa e Cris compreendeu que aquele momento estava sendo muito significativo para ele tambm, tanto quanto o era para ela.
      - Bom, continuou ele, o certo  que nunca mais esqueci aquele dia, nem as palavras de meu pai. Creio que a partir da tornei-me mais individualista. Quando 
decido alguma coisa  porque eu decidi e no porque algum me obrigou a isso.
      Em seguida, ele se levantou, pegou na mo de Cris, puxando-a para ergu-la, e disse:
      - Vamos. Eu lhe mostro o caminho para chegar l em cima.
      Na primeira pedra, Cris escorregou, mas conseguiu se aprumar e continuou segurando firme na mo do amigo, enquanto ele a conduzia pela trilha estreita nas 
rochas. Serpentearam por entre a mata de enormes folhas e cips. As piscinas  direita iam parecendo cada vez menores e mais distantes,  medida que subiam. Numa 
clareira, na metade do caminho, Ted parou e chamou pela Paula. A rnoa que estava deitada na toalha de praia tomando sol ergueu a cabea e olhou em volta. Sem saber 
de onde vinha a voz, baixou a cabea de novo e fechou os olhos. Cris pensou que Paula talvez no os conseguisse enxergar pois estava sem culos. Conhecendo a amiga, 
imaginou que ela certamente os havia deixado no apartamento, junto com o mai inteirio, que no usava.
      David tinha acabado de entrar na gua rasa, onde estavam alguns meninos, e observava-os pegar pitus com gaiolas de metal feitas por eles.
      Ted e Cris continuaram subindo at o ponto em que a trilha ia dar na estrada, e Cris percebeu que haviam chegado ao alto. Estavam na ponte. Alguns carros passavam 
devagar, e duas senhoras mais velhas se achavam junto ao parapeito, fotografando as piscinas e o mar.
      Ted foi caminhando com Cris ao longo do parapeito olhando para a gua l embaixo. Parou em certo ponto, a poucos metros das senhoras. Soltou a mo de Cris. 
Ela percebeu algo diferente na expresso dele e perguntou:
      - O que h, Ted?
      Seus olhos azul-prateados fitaram os dela. Cris percebeu-lhe a inteno. Ted ia pular.
      - Voc no precisa fazer isso, sabe? Como seu pai disse, tem de ser uma deciso sua, no uma coisa feita por capricho ou sob presso.
      Ted segurou os ombros de Cris e puxou-a para junto de si, no instante em que um carro passava perto deles. Os olhos refletiam os sonhos secretos do seu corao, 
e ela compreendeu que o que ele ia dizer era verdade.
      - Pois isso  uma resoluo minha. No vou fazer pelo meu pai, nem pelo Kimo, nem por mais ningum.
      Um largo sorriso rompeu em seu rosto e ele acrescentou:
      - Caso eu no volte, as chaves do jipe esto na minha mochila.
      Em seguida, abraou Cris e lhe deu um beijo rpido e firme, como um soldado que beija a amada antes de partir para a guerra.
      Antes que ela pudesse responder, Ted soltou-a e subiu ao parapeito, os olhos fitos num ponto certo da gua profunda, l embaixo. Sem olhar para trs, flexionou 
os joelhos e, em silncio, se lanou no ar pesado e tropical.
      
      

Hana Aps a Chuva
12


      
      - Aaaaiii! gritou uma das velhinhas. A amiga dela acenava desesperadamente e gritava: 
      - Um homem saltou da ponte! Algum tem de ir salv-lo!
      Agarrada ao parapeito de pedra inclinando-se o mximo que podia, Cris prendeu a respirao e esperou o barulho dele caindo na gua.
      Splash!
      Depois, de olho na superfcie da gua, ficou a contar esperando ver surgir a cabea do Ted. Trs... quatro... cinco... seis... Aparea, Ted! Quanto tempo voc 
vai ficar embaixo? Sete... oito... Ali! Ele est ali! Est bem! Conseguiu!
      Cris tocou o brao da velhinha que ainda gritava e fazia sinal para os carros pararem. A amiga tinha descido  estrada; fora buscar socorro.
      - Olhe! falou Cris apontando para baixo, tentando atrair a ateno da senhora. Ele est bem! Est vendo l embaixo?
      Ted, nadando no meio da piscina, chamou Cris com gritos e vivas, acenando como um doido. A jovem esticou bem os braos por sobre o parapeito, batendo palmas, 
para que Ted visse que ela o aplaudia.
      - Telma, gritou a mulher na ponte. Ele est bem. Venha ver!
       Telma correu at o parapeito e olhou para baixo. Ted acenou para ela com os dois braos.
      - Cus! Aquele jovem me deu um susto medonho! exclamou e, virando-se para Cris, perguntou: O que ser que deu nele para fazer uma coisa dessas?
      - Ele queria, justificou. Ele sabe saltar direitinho. J esteve aqui antes... com o pai.
      As senhoras no pareciam entender, nem fizeram coro com Cris no aplauso. Seguraram contra o corpo suas mquinas fotogrficas e, de braos dados, caminharam 
cautelosamente para longe da ponte. Cris ainda ouviu uma delas murmurar:
      - Esses jovens de hoje...!
      - Ei, Cris! gritou Ted. Voc vai entrar? A gua est tima!
      - Acho melhor eu descer pela estradinha. Encontro voc ai embaixo.
      - Tem certeza de que no quer pular?
      Cris fez "no" firmemente com a cabea, acenou mais uma vez e saiu da ponte, descendo a trilha estreita. Foi bem mais difcil descer sozinha, sem o Ted para 
lhe segurar a mo. Houve um momento em que ela perdeu o equilbrio e caiu sentada. Ningum viu, ento a vergonha no foi tanta. Levantou-se e continuou a descer, 
agora com mais cautela.
      Chegando ao fim da trilha, entrou no lado raso da piscina natural, pisando com cuidado sobre as pedras escorregadias. Parou e descansou na pedra onde ela e 
Ted tinham sentado, assim que chegaram.
      David estava a alguns passos de distncia, pescando com algo amarrado na ponta de uma linha.
      - Ei, Cris! Onde voc estava? Um cara pulou da ponte. Voc viu? perguntou o garoto.
      - Sim, eu vi. Sabe quem era?
      - No.
      - O Ted.
      - Sem essa!
      - Verdade, David. Pergunte pra ele.
      - Cad ele?
      - Ei! gritou Ted do lugar onde eles tinham deixado a caixa de isopor e as toalhas. Algum mais quer comer?
      Paula estava sentada numa toalha ao lado de Ted. Parece que quando Cris se aproximou deles, Paula tambm se chegou mais para junto dele.
      - Ei, Ted! Voc pulou mesmo? perguntou David. Ted respirou fundo e respondeu:
      - , cara. Pulei mesmo.
      Cris achou que ele no estava acreditando que havia conseguido saltar.
      - Provavelmente no sobrou muita coisa, disse Paula enfiando a mo na caixa. Seu irmozinho tirou os frios dos sanduches pra usar como isca.
      - S abri um sanduche, defendeu-se David.
      Como sempre, Bob tinha preparado um lanche farto, e havia bastante para comer. Enquanto comiam, todos falavam sobre o salto do Ted.
      Tal era o calor que Cris sentia sentada ao sol, que, quando terminou o sanduche, desceu depressa os degraus naturais da rocha at a piscina profunda, para 
refrescar-se. No comeo, a gua parecia gelar-lhe as pernas queimadas do sol. Era horrvel estar meio gelada e meio calorenta; ento, respirando fundo, esticou os 
braos para a frente e mergulhou.
      - Brrr! gritou para os outros quando voltou  tona. Muuuito rrrrefrrescante!
      - Voc me convenceu! falou Ted e, dando um salto, mergulhou, aflorando perto de Cris.
      - Voc tem razo! disse ele, piscando os olhos, assim que subiu  tona.  refrescante! Venha, Paula!
      - No, obrigada.
      - Vamos, insistiu. Voc no pode se dar ao luxo de vir a Kipahulu e no entrar na gua!
      - J entrei.
      - O qu? S molhou os ps? gracejou Cris.
      - Se voc no quiser entrar na gua, teremos de levar a gua at voc! afirmou Ted saindo da piscina e agarrando Paula pelos pulsos.
      Ela comeou a gritar e espernear, tentando soltar-se para que ele no a jogasse na gua. Naturalmente Ted era mais forte e com um grito estridente, bem seu, 
Paula acabou dentro da piscina levando o Ted consigo. Saram rindo e jogando gua um no outro. Cris sentiu enorme vontade de sair da gua e sentar-se numa pedra, 
sozinha, toda encolhida.
      - Ei! gritou Ted, incluindo Cris. J esteve debaixo duma cachoeira?
      - Eu quero ir! gritou David que estava na praia, pulando em seguida para junto deles.
      Ted apontou com a cabea para a cachoeira e Cris nadou at eles, dizendo a si mesma que esse lugar era maravilhoso demais para que ficasse ali sentada sozinha 
sentindo pena de si mesma. O ronco barulhento e o borrifar constante de gua no rosto iam-na deixando ao mesmo tempo empolgada e nervosa,  medida que se aproximavam 
da cachoeira.
      -  mais fcil por aqui, falou Ted. Venham comigo.
      Todos nadaram para a beirada e encostando-se no paredo, conseguiram sair por um vo que havia no rochedo. Prosseguindo devagar, encontraram uma plataforma 
onde se sentaram. Achavam-se diretamente atrs da cachoeira. Uma ponta do rochedo projetava-se para a frente protegendo-os como um espesso guarda-chuva negro.
      - Isso aqui  incrvel! exclamou Cris, suas palavras ecoando pela caverna. Olha como a gua parece uma grossa chapa de vidro e se esmiua em bilhes de bolhas 
espumantes quando atinge a piscina.
      - Tem uma cachoeira bem maior a quase trs quilmetros daqui, e d pra ficar atrs dela tambm, disse Ted, a voz ressoando na caverna.
      - Ele disse que fica a quase trs quilmetros, Cris! Voc quer andar tanto assim? Eu acho que j devemos voltar. Que horas so?
      Paula tremia de frio e no estava gostando nada de ficar atrs da cachoeira.
      - . Talvez seja melhor a gente ir, concordou Ted. Se ficarmos aqui muito tempo, teremos de dirigir no escuro.
      - Nada disso! interveio Paula. Eu j vou sair e comear a me enxugar.
      - No d pra ficar mais um pouquinho? perguntou David. Eu ainda no peguei nada.
      Seguiram o Ted saindo pela lateral da cachoeira e Cris notou, surpresa, que  medida que iam-se afastando da cascata era muito mais fcil escutar. Quando nadavam 
de volta, Ted concordou em ajudar o David que se empenhava em pescar pelo menos um pitu.
      As garotas foram enxugar-se e Paula procurou a mquina fotogrfica para tirar fotos. Cris ficou a observar David e Ted que tentavam pegar pitus, que pareciam 
lagostas pequenas. Tinham entre seis e catorze centmetros de comprimento.
      Os pitus se escondiam sob as pedras, mas atrados pela carne do sanduche, eles saam para tentar agarrar a isca. Ted e David pegaram dois, mas perderam-nos 
antes de conseguir tirar a linha da gua. David resolveu ficar bem quieto, de p na gua, perto da pedra, e tentar agarrar um antes que ele conseguisse correr para 
seu esconderijo. Deu certo. Pegou um grande. Vibrando de alegria, foi at onde Cris e Paula estavam, exibindo orgulhoso o seu "trofeu".
      - Tira essa coisa nojenta daqui! gritou Paula. Que nojeira!
      - Vou lev-lo para brincar com ele, anunciou David. O nome dele vai ser Carlos.
      - David! Voc no pode ficar com isso, disse Paula.
      - Claro que posso! Levo na caixa de isopor com gua e pedrinhas, explicou.
      Em seguida, transformou o isopor num novo lar para Carlos. Paula parecia muito irritada.
      - Ted, voc no acha melhor irmos embora? Quando chegamos tinha muita gente, mas agora no tem quase ningum.
      - Bom. Trnsito melhor, falou o rapaz pegando a toalha e a mochila e perguntou: Vocs esto prontos?
      Cris juntou correndo suas coisas e calou o tnis molhado e frio.
      Os quatro saram andando pela gua, sobre as pedras escorregadias. As sombras do entardecer escureciam o lugar, dificultando-lhes a caminhada naquele trecho. 
David ficou encarregado do isopor, j que o transformara no novo parquede diverses do pitu. Subiam o morro devagar, e quando Cris chegou ao jipe, sentia-se exausta, 
nada disposta para a longa viagem de volta. Colocou a bolsa de praia no assento dianteiro como quem diz: "Lugar da frente reservado para Cris".
      - Que  que eles esto fazendo? perguntou Cris a David enquanto ele abria o isopor para verificar o seu tesouro.
      - Ted disse que era um tipo de fruta e Paula queria que ele pegasse. Aqui. Ele pediu que eu trouxesse a mochila.
      Protegendo os olhos do sol, Cris se ps a observar Ted subindo numa rvore no outro lado do estacionamento. Era muito longe e ela estava cansada demais para 
ficar perto de Paula, que se encontrava debaixo da rvore, apontando os cachos de frutas.
      Quando eles foram pra l, e como foi que no notei?
      Cris se deu conta de que a demora era uma vantagem para ela e sentou-se no banco da frente, ficando a olh-los pelo retrovisor.
      Ted desceu da rvore e entregou a fruta  Paula, mas de repente comeou a pular sobre uma perna s. Agarrou o p e, pelo que Cris conseguia ver, ou caiu ou 
se jogou no cho. Paula largou a fruta e se ajoelhou ao lado dele.
      - David, o que  que est acontecendo ali?
      - Onde? indagou o garoto olhando em volta enquanto Cris soltava o cinto de segurana.
      - Acho que o Ted caiu, falou ela.
      Saiu do carro e viu a Paula correndo desesperada na direo do jipe. Foi ao encontro dela.
      - O que aconteceu?
      - A mochila! gritou Paula. Cad a mochila dele? perguntou e passou pela Cris, indo direto para o jipe.
      - O David estava com ela! replicou Cris e se ps a correr com Paula para o jipe.
      De repente, porm, seguindo um impulso, virou-se e dirigiu se para a rvore onde o Ted se encontrava deitado, de olhos fechados.
      - O que aconteceu? Voc est bem? indagou, ajoelhando-se e segurando o brao dele.
      Ted abriu os olhos e, com voz rouca, disse:
      - A mochila.
      - A Paula foi buscar. J est chegando. Chegou. Tomou a mo dele na sua e apertou-a. Paula quase jogou a mochila na cara de Cris.
      - Pega, Cris, ele disse que est a dentro!
      - O qu? gritou Cris desesperada. O que aconteceu? O que  que tem aqui dentro?
      Abriu o zper e rapidamente despejou o contedo da mochila no cho.
      - Uma abelha o picou! gritou Paula. Ele  alrgico. Se no tomar injeo, vai desmaiar.
      Cris agarrou um invlucro comprido de plstico que tinha cado da mochila.
      - Deve ser isso aqui, disse ela, controlando a situao. Ted? Voc consegue fazer isso? Est bem?
      - Olha o p dele! gritou David.
      O p direito do Ted inchara tanto, que tinha o dobro do tamanho normal.
      Paula comeou a chorar.
      - Ai, minha gente! O que  que vamos fazer? Ele desmaiou?
      - Cris! sussurrou Ted com voz arfante. Pegou a injeo? Cris abriu o invlucro de plstico e tirou de l uma seringa e uma agulha.
      - Que  que eu fao com isso, Ted?
      - Tire a tampa e me entregue.
      - Ai! No consigo olhar! No consigo olhar! Tenho pavor de injeo! falou Paula e afastou-se chorando.
      - Est bem, Ted. Aqui est. Consegue ver? Estou colocando-a na sua mo.
      A voz de Cris transmitia uma coragem que ela realmente no sentia. Ted abriu os olhos e aprumou ligeiramente o dorso. Rapidamente Cris foi sentar-se atrs 
dele, dando-lhe apoio. Ele parecia pesar mil quilos. Ela firmou seu ombro fortemente contra as costas dele, para mante-lo sentado, e fechou os olhos enquanto ele 
aplicava a injeo em si mesmo.
      Acho que vou desmaiar! No faa isso, Cris! Respire fundo...
      As costas do Ted pesavam sobre seu ombro; ela ento afastou-se lentamente, para que ele se deitasse.
      - Ser que ele vai ficar bom? perguntou David, em voz baixa e tensa.
      Ted passou a lngua nos lbios. Gotas de suor pingavam de sua testa. Respirou fundo e disse:
      -  s mais cinco minutos, explicou dando outra respirada funda e continuou. J vou melhorar.
      Paula parou com o choro e virou-se para os outros, fungando e enxugando os olhos.
      - Ele tirou o sapato para subir na rvore, e quando estava descendo, uma abelha enorme - deve ser do tamanho de uma mariposa - passou voando perto de minha 
cabea. Depois disso me parece que o vi pisando nela, alguma coisa assim, porque ele caiu como se tivesse levado um tiro e me mandou pegar a mochila.
      - Desculpem-me t-los assustado, disse Ted, entreabrindo os olhos. Sou alrgico a picada de abelha.
      - No, seu bobo, disse David, com um jeito engraado que aliviou a tenso. Pensamos que voc houvesse resolvido tirar uma soneca!
      Ted apertou os lbios.
      - Vou ficar bem quieto, pois assim fico consciente por mais tempo. Demora um pouco para a injeo fazer efeito. Mas vou ficar completamente bom.
      - Ser que consegue andar? perguntou Cris.
      - Claro! Agorinha mesmo j estarei bom!
      - Cris! exclamou Paula parecendo apavorada. Seria melhor perguntar se ele consegue dirigir.
      -  claro que sim, replicou Ted e em seguida ergueu-se, piscou algumas vezes e abanou a cabea. Se vocs puderem levar as minhas coisas, acho que chego at 
o carro.
      Foram andando devagar. Ted tentou caminhar saltando com o p esquerdo. Torcia a cara de dor.
      - Tenho uma idia, sugeriu Cris. Paula, passe para o lado de l. Aqui, Ted, ponha os braos em volta de ns. Seremos suas muletas.
      Conseguiram chegar ao jipe e Ted colocou seu p inchado sobre o acelerador. David correu para pegar o banco da frente, deixando  Cris e  Paula, o traseiro. 
A essa altura, Cris no se importava mais onde sentava. Sabia pela expresso do Ted que ele no estava bem, apesar de ele haver dito que ficaria bom. Via-se que 
estava se esforando para parecer normal.
      - Todo mundo a bordo? P na tbua! falou ele e pisou forte no acelerador e o jipe arrancou rpido passando sobre as lombadas do estacionamento para pegar a 
estradinha. Pouco antes da ponte, Ted entrou num pequeno desvio. Estendeu os braos sobre o volante, apoiando-se nele e respirou fundo.
      - T doendo demais, no est? perguntou Paula, ansiosa. Voc no consegue dirigir, no ? O que  que vamos fazer? Ei, gente! Acho que ele vai desmaiar!
      - No vou desmaiar, no. Preciso ficar com o p erguido mais alguns minutos. Talvez a gente tenha de esperar aqui mais uma meia hora.
      - Mas est escurecendo! disse Paula desesperada. Temos ao menos de passar pela estrada pior enquanto  dia, no foi o que disse?
      Ted esticou o p que estava vermelho e inchado e apoiou-o sobre o painel:
      - Ainda faltam algumas horas para o pr-do-sol, disse ele. Ento por que est escurecendo? reclamou Paula. Ei! T comeando a chover!
      - Aaaiii! fizeram as duas juntas no instante em que comeou a cair uma rajada de granizo.
      - Esse jipe no tem capota? perguntou Cris, procurando seu agasalho com capuz.
      - Cubram-se com as toalhas de praia, instruiu Ted, tirando uma do cho e jogando-a sobre o David. Provavelmente vai durar apenas alguns minutos.
      - Aaai! Estou encharcada! gritou Paula.
      Cris puxou o capuz sobre a cabea e se abaixou para que a chuva lhe casse no meio das costas e escorresse para o cho. Achou a situao parecida com a de 
um filme que assistira, em que uma mulher de Nova Iorque se perdeu numa floresta tropical, na Colmbia, e teve de enfrentar chuva e lama com o seu heri. E assim, 
to rpido como comeara, o temporal parou e os aventureiros, no to alegres, saram das barracas de toalhas.
      - Olhem pra mim! Estou ensopada! reclamou Paula. Tudo ficou encharcado!
      Ted, principalmente, estava encharcado, j que dera sua toalha para o David e enfrentara o toro s de camiseta. Passou a mo pelo cabelo curto, sacudindo um 
chuvisco por todos os lados. Raios minsculos de sol danavam pela vegetao acima e atingiam o jipe, beijando as pernas midas de Cris com seu calor.
      - Tem cheiro de... hum... falou Cris tentando achar a palavra certa ao tirar o agasalho e torc-lo junto ao jipe.
      - Cheiro de Hana aps a chuva, completou Ted, respirando fundo. Depois que a gente sente o cheiro duma floresta tropical depois da chuva, nunca mais esquece.
      - Tem cheiro de mofo, gente! concluiu Paula que se levantara e estava secando as pernas com a toalha, o que acabou no adiantando porque a toalha estava mais 
molhada que as pernas.  melhor sairmos daqui antes que So Pedro derrame outra banheira em cima da gente. Ted, j consegue dirigir?
      Bastou uma olhada para o p dele para saberem a resposta. O inchao no havia diminudo e o vermelho parecia se espalhar. Ted no respondeu. Todos ficaram 
aguardando o seu parecer.
      Cris interrompeu o silncio:
      - Eu dirijo.
      Ted virou-se e encontrou seus olhos claros e seu sorriso sincero.
      - Ela no pode dirigir! protestou David. Ela no sabe! Vai matar todo mundo. Voc no dirige, Paula?
      - No sei dirigir com cmbio, s hidramtico. Alm do mais, no enxergo um metro  minha frente sem os culos, e eu no trouxe.
      - Cris, insistiu David, voc no pode dirigir, no! Ted continuou olhando para ela e disse:
      - Se voc no quiser, no precisa.
      Cris inclinou-se para a frente, como se conversasse apenas com Ted, e disse:
      - Eu quero.  a minha deciso. No estou fazendo por vocs, nem pelo meu pai nem por mais ningum. Estou fazendo por mim mesma.
      Um sorriso de compreenso iluminou o rosto de Ted.
      - Isso  a sua "ponte", no ?
      - . E estou disposta a saltar.
      - Do que  que vocs esto falando? perguntou Paula. Sem responder, Cris deu a volta no jipe e abriu a porta para o Ted.
      - Posso sentar a, cara? perguntou Ted ao David, pulando de uma perna s e mandando o garoto para o banco traseiro. David continuava reclamando, temia que 
Cris batesse o jipe se Ted a deixasse dirigir.
      Paula tambm comeou a reclamar. Achava que deveriam procurar um telefone e pedir socorro, to remoto era aquele lugar. Talvez se discassem para os bombeiros, 
eles mandariam um carro de resgate para salv-los.
      Ted posicionou o p no painel e comeou a explicar as marchas para Cris.
      - Ei, vocs a! No d pra parar de reclamar? perguntou aos dois no banco traseiro.
      Calaram-se imediatamente, e Cris ouviu com ateno as instrues do Ted, lembrando-se com certa clareza de quando treinara direo com cmbio manual.
      O motor deu partida logo na primeira tentativa, e Ted forou para baixo o cmbio para engatar a r.
      - Solte devagar e no se preocupe em chegar depressa. 
      Lembrando-se do seu dia fatdico no estacionamento da igreja, Cris tranquilizou-o:
      - No se preocupe. Devagar  que fao melhor!
      Engolindo as risadas e o nervosismo, ela olhou por cima do ombro. Com cuidado, foi soltando a embreagem enquanto pressionava de leve o acelerador, tencionando 
alcanar a estrada de marcha a r. O jipe derrapou pelo cascalho lamacento e Cris pisou forte no freio.
      Paula gritou e David comeou a implorar que chamassem o pessoal do resgate.
      Ted no ligou para eles e, colocando a mo sobre a de Cris, disse com calma:
      - Bom. Agora aqui est em primeira. Vamos l, libere um pouco de gasolina.
      Ela acelerou e o jipe foi para a frente, esparramando lama e borrifando a todos com sardas pretas e avermelhadas.
      - Conseguiu, Cris! falou Ted elogiando-a em meio aos protestos de Paula. Continue, agora passe para a segunda, assim.
      Ele mexeu sua mo para baixo e a pulseira "Para Sempre" de Cris tocou de leve o metal da embreagem.
      Ao cruzarem a ponte, Ted apertou a mo dela, correndo o polegar pela corrente da pulseira. No precisava dizer nada. Ela sabia que ele estaria pensando como 
ela. Isso era a "ponte" de Cris.
      Alguma coisa nos dois mudou nesse dia, tendo a ponte por testemunha; em Ted, ao saltar, e em Cris, ao dirigir. Seria sempre um momento "para sempre".
      Ted soltou-lhe a mo e ela segurou no volante com as mos na posio dez e duas.
      - Devo continuar de segunda?
      - Sim, e no acelere mais. Aqui as curvas aparecem mais depressa do que se espera.
      Ted tinha razo. As curvas eram contnuas e as lombadas constantes. Cris, de queixo firme, tenso, comeava a sentir dores na boca de tanto trincar os dentes. 
Ia aspirando o perfume espalhado pela chuva tropical, e mesmo estando com medo, sentia uma felicidade indizvel.
      As sombras aumentaram e Cris tinha de esforar-se para enxergar a estrada, que parecia sair do lugar. Subia, descia, virava, e em alguns lugares ficava to 
estreita que s dava passagem a um carro. Noutros lugares, quase rente ao lado do passageiro descia um precipcio com centenas de metros encosta abaixo, todo ele 
formado de lava negra, paralisada sculos atrs por um oceano glacial. E no havia grade protetora.
      Por quase uma hora, Cris usou de toda a sua coragem e destreza para percorrer a estrada de Hana. De repente, quando a noite j baixara quase por completo, 
encontraram o pavimento liso, asfaltado e reto, e todos se animaram, sabendo que haviam chegado a Hana.
      - Vire para aquele lado, orientou Ted apontando para uma entrada onde se via uma placa que dizia "Mercado Rural de Hana". Se ainda estiver aberto, podemos 
comprar alguns suprimentos para a viagem de volta.
      - Quero qualquer coisa de chocolate, disse Paula. Sinto que preciso urgentemente de chocolate!
      Ted indicou onde ela deveria virar e estacionar, e logo que Cris parou, David e Paula saltaram do jipe como se fossem prisioneiros que acabaram de ser postos 
em liberdade.
      Cris encostou-se no banco e deu um enorme suspiro de alvio.
      - Voc conseguiu! elogiou Ted, esticando o joelho j dormente e estendendo o p que melhorara bastante. Voc no pra de me surpreender, Cris, continuou com 
voz firme e terna, lentamente colocando as pernas para fora.
      Firmando-se no solo sobre a perna boa, completou:
      - Vou ligar para seu tio. Encontro voc l dentro.
      Cris relaxou as pernas tensas e repetiu a frase: Voc no pra de me surpreender, Cris. Vindo do Ted, isso era um grande elogio. Talvez ele nunca viesse a 
comparar seus olhos com a Gruta Azul. Talvez nunca a levasse a um restaurante chique. Mas hoje eles haviam compartilhado uma aventura e Cris sabia que, depois dessa 
experincia, jamais seria a mesma.
      Dentro do mercado, David pediu:
      - Quero comprar isto aqui, Cris!
      Mostrou uma camiseta com o desenho de um sujeito com ar desesperado dirigindo numa estrada cheia de obstculos. Nela havia a legenda: "Sobrevivi  estrada 
de Hana."
      - Compra pra mim? repetiu ele.
      - Claro, David! replicou Cris rindo. Acho que todos ns devamos comprar uma.
      Compraram e vestiram para chegar com elas em casa. As camisetas foram a primeira coisa sobre a qual Marta fez escndalo quando chegaram ao apartamento, j 
quase meia-noite, gelados, cansados, imundos e famintos. Todos falaram de uma vez, contando os detalhes de sua aventura maluca.
      - E foi voc quem dirigiu, Cris? indagou a me meio tensa.
      - S durante uma hora. Quando paramos em Hana, onde o Ted telefonou pra vocs, o p dele j estava bem melhor. Ele dirigiu o resto do caminho. Estvamos encharcados 
da chuva, sentindo muito frio por causa do vento naquele jipe aberto!
      - Vou ferver gua, ofereceu-se Marta indo para a cozinha, onde quase tropeou sobre a caixa de isopor. Tem chocolate quente por aqui, em algum lugar.
      De repente ela gritou, agarrou a vassoura e comeou a bater no cho perto do isopor aberto. Correram todos para a cozinha a tempo de ver o "Carlos Camaro" 
sem vida, todo esmagado, no cho.
      - Tia Marta! gritou David. Era o meu pitu!
      - Ah! David, no chore. Seu tio leva voc amanh para um restaurante e voc come todo o pitu que quiser, no leva, Bob?
      David chorou ainda mais e saiu correndo da cozinha.
      - O que foi que eu disse? perguntou Marta. 
      Ningum respondeu. Estavam todos rindo demais.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      

Uma "Coisa de Deus"
13

      Os ltimos dia das frias passaram como uma brisa refrescante e perfumada. Eles ficaram  beira da piscina, caminharam pela praia ao pr-do-sol, fizeram compras 
e jantaram em restaurantes elegantes. Cris e Paula se deram bem melhor do que no comeo da viagem.
      Na ltima noite no Hava, Bob os levou a velejar e jantar ao pr-do-sol num catamar*. Participaram do passeio uns vinte e cinco turistas, como eles.
      
      * Espcie de jangada indiana. (N. da T.)
      
      Um era estudante universitrio dinamarqus, de nome Alex. Paula grudou os olhos nele no instante em que o rapaz subiu a bordo e em menos de cinco minutos os 
dois j estavam conversando.
      Falaram sem parar durante todo o trajeto. Cris teve a impresso de que o Alex estava encantado com o jeitinho da Paula.
      Depois do jantar, Cris afastou-se do grupo e, com passos oscilantes devido ao jogo do barco, foi at a frente do catamar. Sentou-se l. O sol tinha acabado 
de ser devorado, com trs bocadas, pelo vulco que havia no centro da ilha Molokai. S restava um halo de nuvens felpudas, vermelhas, alaranjadas, amarelas e cor-de-rosa, 
parecendo um imenso guardanapo de festa a limpar os lbios do vulco insacivel. O mar, azul e claro, convidativo, balanava ternamente, embalado na sua perene cano 
de ninar. Ted chegou em silncio e se deitou de bruos sobre o convs ao seu lado.
      - Olha a! So as duas luzes de Molokai.
      - Ento, voc j decidiu?
      Pelo rumo que as coisas haviam tomado nos ltimos dias, Cris calculou que ele tivesse avaliado a convenincia de optar entre ela e Paula, recaindo a escolha 
sobre si mesma, Cris.
      - No, ainda no. No sei se devo ir para a faculdade este ano ou entrar no torneio profissional de surfe.
      - Era isso que voc estava tentando decidir? Ted parecia surpreso.
      - . O que voc achava que fosse?
      Para evitar responder, ela perguntou depressa:
      - Ento voc quer ser surfista profissional?
      - No. Quero ser tradutor da Bblia, replicou, os olhos estrelados como o cu que escurecia acima. Meu sonho  ir a urna ilha tropical remota onde o povo jamais 
ouviu o evangelho. Quero morar l, aprender a lngua e traduzir a Bblia para eles.
      - Voc quer ser missionrio? indagou ela, pronunciando a palavra com respeito, com o mesmo senso de encanto e admirao que sentia pelos primeiros missionrios 
no Hava.
      - Quero, disse Ted com ar sonhador. Quero ser missionrio.
      Agora tudo ficava claro para Cris. Nesse momento, entendia melhor o Ted. Ele tinha o mesmo esprito de luta dos missionrios que haviam insistido em reconstruir 
a igreja derrubada. Tinha o mesmo corao temente a Deus que fez com que o casal Baldwin orasse pelos marinheiros que infestaram seu lar e sua ilha de mosquitos, 
em vez de lutar contra eles.
      Quanto a morar na selva, bem, isso tambm era uma caracterstica do Ted. No ano anterior, quando tinham ido  Disneylndia, a atrao predileta dele fora a 
casa da Famlia Robinson. Cris achava que ele seria um timo missionrio na selva.
      - Sabe, quando estvamos em Hana, continuou Ted, comecei a sonhar ainda mais em ser missionrio. Nadar em piscinas naturais, viver do que a terra produz, o 
cheiro do ar depois da chuva...
      -  melhor levar um suprimento de antdoto de picada de abelhas para toda a vida! avisou Cris. Ted riu-se.
      - Est certo. No posso sair de casa sem ele! concordou o rapaz, ficando srio e continuou: Voc agiu de forma excelente aquele dia, mantendo a calma durante 
uma emergncia e tudo o mais. Se voc no estivesse l, talvez eu no tivesse sobrevivido. E nunca lhe agradeci por ter dirigido o jipe pra mim.
      - Tudo bem, Ted. Voc sabe que fiz aquilo por voc, mas tambm por mim. No estou mais com medo de fazer o exame de motorista. Se sou capaz de dirigir na estrada 
de Hana, posso dirigir em qualquer lugar!
      Riram-se os dois, e Ted comentou:
      - Bom treinamento missionrio, Kilikina.
      Ento percebeu o que falara, como se tivesse sado sem querer. Cris permaneceu calada, quieta, absorvendo o que ele lhe dizia.
      Ele me chamou pelo meu nome havaiano. Acha que eu daria uma boa missionria. Ted acha que ns seramos bons missionrios juntos! Ele quer casar comigo! Mas 
se ele viajar para o torneio de surfe, quando  que vou v-lo?
      - Obviamente, acrescentou ele depressa, isso  outra ponte, no ? Ter de decidir por si mesma.
      - Certo, concordou Cris, procurando disfarar as fortes emoes de que fora tomada. Como a escolha entre a faculdade e o surfe, acrescentou e apontou para 
as duas luzes de Molokai. Quanto mais prxima a hora da deciso, mais clara ser a sua escolha, concluiu.
      - Essa semana foi muito cheia! Parece que Deus tinha muito a nos ensinar.
      Cris lembrou-se de que Katie dissera que Deus iria fazer algo em sua vida durante a viagem. Ser que  isso que Katie quis dizer quando falou que o passeio 
era uma "coisa de Deus"?
      Estavam quase chegando ao cais, e enquanto o catamar entrava pela praia de Lahaina, Cris se divertia ao ver um velho navio baleeiro, que ali se achava em 
exposio, cheio de luzinhas que iam at o cimo do mastro. Da hospedaria "Velho Pioneiro" que estava bem  frente deles, vinham sons altos de msica e risadas barulhentas.
      Mais uma vez, Cris tentou imaginar como Lahaina seria cento e cinquenta anos antes. Visualizou as missionrias, sentadas no lanai da frente, na casa dos Baldwin, 
a um quarteiro dali, agitando os leques para espantar os mosquitos numa noite quente de vero e orando pelos marinheiros que haviam aportado naquele dia.
      Naquela noite, Cris orou pela Paula. Orou aquela noite e todas as noites seguintes at a amiga voltar a Wisconsin.
      E a moa parecia bem diferente. Desde a viagem a Hana, Paula mudara, embora Cris no soubesse exatamente em qu. Ainda no se tornara crist, nem mostrava 
interesse em faz-lo. Mas havia abrandado um pouco.
      Quando Cris e seu pai foram ao aeroporto levar Paula, no dia em que esta voltaria para Wisconsin, descobriram que o vo se atrasaria pelo menos uma hora. Para 
surpresa de Cris, Paula recebeu a notcia com calma.
      Esta  a primeira vez que me vejo num aeroporto com a Paula sem que ela tente chamar a ateno de todo mundo!
      Talvez a aparncia dela chamasse um pouco de ateno. Estava com a camiseta da estrada de Hana, a pulseira de conchas que Marta lhe dera, uns brincos de calango 
verde, culos de sol rosa-shocking e uma pochete alaranjada furta-cor que tinha comprado, com as palavras "Maui no ka oi" (Ted explicou que significava "Maui  o 
mximo").
      Tendo uma hora de espera, as garotas foram automaticamente para as janelas imensas olhar os avies que desciam.
      - Foram duas semanas supercheias, principiou Cris.
      - Foram mesmo! Mal vejo a hora de chegar em casa para ver se o Alex me escreveu da Dinamarca! Minhas amigas no vo acreditar que fiz amizade com um gato da 
Dinamarca! Tenho algo que nenhuma delas tem.
      Cris ficou com vontade de cortar com uma resposta maldosa e dizer: ", voc ainda  virgem, coisa que nenhuma delas pode reconquistar." Mas em vez disso, respondeu:
      - Voc tem muito mais que nenhuma delas tem, Paula. E no estou falando s de um namoradinho dinamarqus, no!
      - Ele no  meu namorado, Cris.  apenas um conhecido estrangeiro, explicou.
      Parecia que havia ensaiado vrias vezes na frente do espelho at conseguir um ttulo perfeito para o Alex.
      - Mas  um gato e tanto, no acha? continuou Paula animada. To diferente dos caras da minha escola, o sotaque e tudo o mais, e muito educado. Ainda estou 
encantada de ele ter-me telefonado no dia em que viemos embora de Maui.
      - Os caras devem ser educados com voc, Paula. Voc merece o melhor rapaz do mundo.
      - Ele j  seu, disse Paula com sinceridade mas com ar brincalho. E nem sabe o valor dele.
      - Sei, sim!
      - No, no sabe no! Ele  o nico namorado que voc teve, e portanto, voc no sabe quantos caras horrveis existem por a. E ele  to leal a voc, Cris! 
Quando fomos surfar, e depois, naquele dia em que fui com ele buscar pizza... bem, talvez eu no devesse lhe dizer isso, mas...
      -  melhor contar!
      Paula ajustou a pochete, tirou os culos e continuou:
      - Voc vai me detestar depois dessa, Cris, mas acho que voc precisa saber. Quando fomos buscar as pizzas, eu tentei, sabe, dar em cima do Ted. Quando estvamos 
surfando, ele no parecia interessado em mim, e achei que era s porque o David estava perto.
      Cris sentiu uma raiva sbita mas controlou-se.
      - Ento quando fomos  pizzaria ele no correspondeu em nada. Da me passou um doce sermo de irmo mais velho, dizendo que as garotas no deveriam provocar 
os rapazes, dando em cima deles ou usando roupas indecentes, que uma garota nunca devia deixar que os rapazes mexessem com ela, tocando-a ou dizendo coisas muito 
provocantes.
      Paula falava de olhos baixos, e prosseguiu:
      - Ele me disse que eu deveria me guardar para muito legal. Ele me fez sentir que mereo um prncipe, no o primeiro sapo que aparecer. Quero encontrar um rapaz 
que goste de mim pelo que sou e pelo meu valor interior, e no s pelo que eu possa dar a ele. Quero encontrar um cara como o Ted. 
      Ela ergueu o olhar e continuou:
      - Mas no se preocupe! No estou mais tentando roub-lo de voc. Ele est totalmente apaixonado por voc, Cris. Quando voc est por perto, ele no v mais 
nenhuma garota. Acredite, eu tentei!
      Cris no sabia se deveria ficar contente ou furiosa.
      - Eu queria lhe contar isso antes de ir embora. Acho que foi bom o avio se atrasar para eu ter essa chance.
      - , foi bom.
      Um sorriso voltou a tomar conta do rosto de Paula.
      - , eu sei! A Katie no diria que "foi bom", e, sim, que foi "uma coisa de Deus".
      - Isso quer dizer que voc est comeando a concordar com a Katie sobre as coisas que Deus faz?
      - Tenho de admitir que ela estava com a razo naquele dia da nossa festa do pijama, quando disse que foi coisa de Deus o Ted ter sido picado pela abelha e 
no ter podido dirigir, disse Paula.
      - Sei no. A situao toda me deixou assustada.
      - Certo, mas como disse a Katie, olha o que aconteceu. Voc teve de dirigir na estrada de Hana e, por causa disso, quando fez o exame de motorista, tirou de 
letra! Se o Ted no tivesse sido picado, isso no teria acontecido.
      - No sei. Mas  possvel que eu tivesse passado no exame, mesmo sem ter dirigido em Maui.
      - Teria no! Voc estaria nervosa demais. E sabe o que mais? Se eu no tivesse passado aquele tempo com o Ted e visto o jeito que ele trata voc e as outras 
garotas, eu no teria mudado meu modo de pensar e assumido padres mais elevados. Nessa viagem, aconteceram muitas coisas boas, quer dizer, coisas de Deus, exatamente 
como a Katie disse.
      - Bem, ainda no sei muito bem o que  uma "coisa de Deus", mas concordo que a viagem foi tima para ns duas, falou Cris.
      Ela sorriu, mas interiormente sentia que estava falando srio.
      - Paula, tem mais uma coisa que eu queria lhe dizer, continuou. Sei que tivemos alguns momentos difceis durante a viagem e peguei muito no seu p, mas estava 
tentando fazer voc se converter.
      Paula se remexeu um pouco, meio sem jeito, e Cris continuou:
      - Ainda quero muito isso, mas agora sei que a deciso tem de ser sua.  a sua "ponte". A do Ted foi quando ele pulou e a minha quando eu dirigi o jipe. Voc 
 que tem de resolver por si, e ningum pode pression-la. Assim prometo no pegar mais no seu p nas minhas cartas. Mas vou continuar orando.
      - Pode escrever o que voc quiser. No me importo. Gosto das suas cartas. So sempre interessantes. Como eu lhe disse em Maui,  provvel que voc tenha razo 
no que diz sobre Deus e tudo amais.  s que sou o tipo de pessoa que tem de concluir as coisas por si mesma.
      As duas amigas sorriram e Cris comeou a chorar.
      - Seria bom se pudssemos comear essa viagem de novo e eu ser to amiga sua no incio quanto somos agora. Paula tambm deixou escorrer umas lgrimas.
      - Mas a no teramos aprendido tantas lies importantes. Cris concordou e limpou as lgrimas.
      - Ainda bem que continuamos amigas, apesar de que no decorrer dos anos nossa amizade tenha tido altos e baixos.
      - E ainda bem que a gente sempre a est "reconstruindo".
      Cris se lembrou da igreja dos missionrios de Lahaiana. Ted dissera que ela havia sido destruda vrias vezes. Na ltima vez em que a reconstruram, eles analisaram 
bem a situao e instalaram as duas portas de maneira que quando soprassem os ventos de Kona eles passassem dentro da igreja, em vez de dar contra as paredes dela.
      - Vou sentir sua falta, Paula, disse Cris, imaginando-se como uma porta aberta diante de outra porta aberta.
      Sabia que os fortes ventos do cu agora teriam liberdade para soprar atravs de sua amizade, e no de encontro a ela.
      - Tambm vou sentir a sua, replicou a amiga. Vou tentar escrever mais. E talvez eu possa voltar nas frias de Natal ou Pscoa, porque, pelo que sei, voc fica 
me devendo uma viagem  Disneylndia.
      Riram-se ambas. Alguns minutos mais tarde, quando chamaram para o embarque, as duas se despediram com risos, abraos e lgrimas.
      Foi uma despedida dolorosa para a Cris, e, quando se dirigiam para a casa de Bob e Marta, uma suave melancolia tomou conta dela.
      Bob j havia regressado de Maui e eles tinham planejado que depois de levar Paula ao aeroporto, ele e o pai de Cris iriam comprar o carro. Marta veio receber 
Cris e seu pai  porta com uma expresso que dizia: "Tem uma surpresa para voc..."
      - Cris, querida, disse ela quase que de imediato. Voc trouxe mai, no trouxe?
      - Sim.
      - timo. Ento voc no precisa ir com eles comprar o carro. Pode ir tomar sol na praia.
      A jovem entendeu que ali tinha alguma coisa. Possivelmente Ted voltara com Bob e talvez estivesse na praia agora, no lugar onde ela o conhecera nas frias 
passadas. Marta estava tentando manipular as coisas para Cris ter a "surpresa" de encontrar-se com ele "por acaso", quando fosse  praia.
      Obediente, Cris foi ao quarto trocar de roupa. Afastou as cortinas de laise para ver se avistava a prancha de surfe do Ted na praia.
      Nada. Nenhum sinal dele, nem de sua prancha. Teria, ento, a surpresa que Marta desejava. Iria at a praia. Estava cheia, como era de se esperar numa tarde 
de sbado no vero. Passou por vrios grupos sem saber direito o que deveria procurar. Afinal algum chamou seu nome.
      Era voz de mulher. Olhou em volta, mas no viu ningum conhecido.
      - Cris!
      Era uma jovem sentada sozinha numa toalha de praia perto da gua. Cris caminhou para ela mas cria nunca t-la visto antes.
      Tinha cabelo aloirado, penteado para trs, e vestia um biquini que parecia apertado demais para sua barriguinha gorda e as coxas grossas. A moa se ergueu 
um pouco e acenou alegremente para Cris.
      Quem ser? De onde ser que ela me conhece? No me lembro de ter conhecido ningum ano passado que parecesse com ela.
      - Ol! Voc me encontrou! Ficou surpresa?
      Assim que ela disse isso, Cris reconheceu aquele sotaque.
      - Alissa!
      A garota deitada sobre a toalha no lembrava em nada a "modelo" alta e magra que "desfilava" pela praia no ano anterior. Cris sentou-se ao lado de Alissa.
      - No acredito! Como voc est? Veio passear aqui? Cad o seu... Ia dizer "nen", mas sentiu que seria invadir-lhe a intimidade. Quer dizer, onde est hospedada?
      - Muita coisa aconteceu. No me espanto de voc no ter me reconhecido. Eu no fazia idia do quanto a gente muda por dentro e por fora, quando tem um filho.
      Alissa parecia um pouco tmida, algo que Cris nunca percebera nela.
      - Minha me est to melhor no que diz respeito ao alcoolismo, que resolvemos voltar e terminar as frias que deixamos inacabadas no vero passado. Chegamos 
ontem. Vamos ficar trs semanas. Eu no via a hora de encontrar-me com voc e lhe contar...
      Ela hesitou um pouco. Cris estava ansiosa para saber o que ela iria dizer, mas ficou calada, e apenas com os olhos falou: "Continue!"
      - Semana passada entreguei a Samantha para ser adotada.
      - Alissa, est brincando!
      - No. Foi a coisa mais difcil da minha vida. Se no fosse por voc, talvez no conseguisse entregar.
      - Eu??! exclamou Cris assustada. Que  que eu tenho a ver com isso?
      - Voc no recebeu minha carta?
      - No. Espere a! falou Cris tentando lembrar-se do contedo da carta misteriosa. Algo sobre "Pensei no que voc me disse..."
      - Era bem curta e voc no assinou?
      - Ah! Ento eu esqueci de assinar? Muita coisa aconteceu nesse ms que passou. Sabe, pensei muitas vezes em entregar a Samantha, mas todo mundo dizia que eu 
iria me arrepender. Mas eu tinha certeza de que deveria entreg-la, porque ela precisava de uma me e um pai que estivessem juntos. Da recebi sua carta e compreendi 
que tinha de fazer o que era o mais certo, mesmo que mais ningum concordasse comigo.
      - Que carta? Que foi que eu disse?
      - Foi logo depois que voc foi eleita lder de torcida, mas resolveu ceder seu lugar para a outra menina, porque sabia que era o certo. Aquilo foi um gesto 
muito corajoso, Cris.
      - Nem tanto. Na poca no me pareceu muito difcil porque a Teri merecia ser a lder. No fundo eu sabia que era o que Deus queria de mim.
      -  exatamente isso! concordou Alissa falando com entusiasmo. Atravs de uma agncia de adoo, fiquei sabendo de um casal que queria muito um nen. A esposa 
tinha perdido uns cinco ou seis por aborto espontneo, e mesmo depois de vrias cirurgias no conseguia engravidar. Achei que eles iriam amar a minha filha e seriam 
os pais que ela merece. Ah! Cris, voc devia v-los quando assinei os papis e a entreguei para eles. Pegaram a menina nos braos e a primeira coisa que fizeram 
foi orar. Em voz alta! Na frente dos advogados e todos os outros! Agradeceram a Deus por aquela resposta de orao, por ter-lhes dado o nen que h tanto tempo desejavam. 
Pode imaginar?
      - Puxa! exclamou Cris, com lgrimas a turvar-lhe a vista. Que incrvel! E voc ainda acha que tomou a deciso acertada?
      - Sem dvida. Entreguei-lhes uma carta longa que escrevi para Samantha, junto com uma carta que o Ted escreveu pra mim falando sobre o Sam. Eles prometeram 
que lhe entregaro as cartas quando ela tiver idade pra entender. A ela vai compreender que eu a entreguei a eles porque queria o melhor para ela. Vai saber o quanto 
eu a amo. Tenho certeza de que fiz o que era certo.
      Um silncio pairou entre as duas, numa atmosfera de reverncia.
      - Tem mais uma coisa, Cris, disse Alissa, o rosto redondo mais parecendo de uma menina do que de uma me. Quero lhe perguntar uma coisa, mas no sei.
      - Pode perguntar, disse Cris, pensando que nada mais a espantaria. Fale logo. Pergunte.
      - Est bem. O que eu queria perguntar , como posso ser igual a voc e o Ted? Sabe, o jeito que vocs so com Deus. Quer  dizer, quero Deus na minha vida e 
todasessas outras coisas que voc e Ted tem falado nas cartas. S que no sei como fazer. 
      O corao de Cris batia adoidado.
      - Quer dizer, voc quer tornar-se crist?
      Era incrvel que, aps duas semanas de tanto esforo para que Paula se convertesse, logo a Alissa viesse procur-la desejando entregar a vida ao Senhor.
      - Sim, mas quero ser crente de verdade, como voc e o Ted e a Frances do centro de "Gravidez de Crise". Vocs falam como quem conhece Jesus pessoalmente.  
isso que quero.
      - Ento diga isso pra ele, respondeu Cris, vibrando de alegria. Diga a Jesus tudo que voc sente. Ele j sabe, mas diga a ele que se arrepende das coisas erradas 
que fez, e pea o perdo. Depois, convide-o a entrar em sua vida; entregue tudo a ele. Ele te ama, Alissa. Mas tambm,  provvel que voc j saiba disso.
      - Sim, sei que Deus me ama, que ele ama o mundo todo. Mas voc acha... e aqui ela parou por um instante. Acha mesmo que Deus me quer?
      - Claro que sim! exclamou Cris sentindo um n na garganta. Se voc soubesse o quanto ele quer voc!
      - Bem, eu sei que quero Jesus.
      - Ento diga isso pra ele.
      - Tenho de fechar os olhos?
      - No tem importncia se voc ficar de olhos abertos ou fechados.
      - Vou fechar, falou ela e fechou os olhos, curvou a cabea e juntou as mos como uma criancinha na escola dominical.
      Cris fez o mesmo, imaginando por um instante se as pessoas na praia estariam olhando para as duas. Resolveu no se importar com o que os outros achassem. Estava 
vendo um milagre maravilhoso demais e no ia se preocupar com o que as pessoas pensavam.
      - Senhor Deus, disse Alissa, nem sei mesmo o que dizer. O Senhor sabe o quanto me arrependo de tudo que fiz no passado. Quero pedir que me perdoe. No quero 
que minha vida seja mais desse jeito. Entre em minha vida e transforme meu corao. Tome conta de minha vida. Amm.
      Antes que erguessem totalmente a cabea, seus olhares se encontraram. Cris deu um largo sorriso. Abraou Alissa e exclamou:
      - Estou to contente por voc! O Ted vai ficar doido quando souber disso! Sabe que ele tem orado por voc todos os dias, o ano todo?
      Alissa piscou para afugentar as lgrimas e respondeu:
      - Bem, deu certo! Depois que conheci vocs, fiquei conhecendo outros crentes. Comearam a acontecer coisas inexplicveis. Comecei a sentir que havia mesmo 
um Deus que queria falar comigo.
      - E o que voc est sentindo agora?
      - Eu sinto como que... como... no sei. Como uma criana novinha e meio bobinha de to alegre. Tenho vontade de correr para o mar, gritando e danando de alegria.
      - Ento vamos! gritou Cris saltando como uma fasca que pegava fogo. Vamos fazer isso!
      - timo! exclamou Alissa ficando de p.
      - Um, dois, trs, v!
      Correram descalas pela areia, balanando os braos, gritando e rindo como colegiais no primeiro dia de frias.
      Com ousadia, Alissa gritou para o vento, para as ondas, para qualquer pessoa que estivesse por perto:
      - Jesus me ama! Jesus me ama!
      Exuberante e maravilhada com a transformao de Alissa, as mos abertas, Cris pegou gua e jogou para cima, borrifando-a com gotculas cor-de-prata. Alissa 
retribuiu-lhe o gesto. Ria, inebriada, tremendo como uma criatura recm-nascida, o que de fato era.
      Rindo, tambm, at as lgrimas, Cris virou a cabea para trs, de frente para o sol, fechou os olhos e exclamou:
      - Isto aqui, isto  mesmo uma "coisa de Deus"!



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